Discurso do Presidente da Conib, Claudio Lottenberg, proferido na cerimônia pelos 27 anos do atentado à AMIA

A memória é um ativo que se mostra como um bem pétreo das sociedades que se pautam por valores mesmo que isso signifique a redundância e o inconformismo e que repita permanentemente a mesma mensagem. Se hoje estamos aqui é porque não queremos somente recordar um momento trágico no contexto da comunidade judaica argentina mas, principalmente, porque queremos evocar pela justiça que até o presente momento não se mostrou apta para esclarecer uma ação terrorista que envergonha o mundo contemporâneo. E neste momento, na presença de autoridades judaicas de todo mundo e não judaicas, onde tomo a liberdade de saudar o presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, Arthur Lira, e do presidente do Congresso Judaico Latino Americano, Jack Terpins, não somos somente judeus, não somos somente argentinos, não somos somente brasileiros ou de qualquer nacionalidade, mas sim somos seres humanos comprometidos na luta contra o terrorismo e pessoas que exigem que a justiça prevaleça e que o sentimento de responsabilidade seja transformado em atitude que possa punir atos desta natureza.

Não podemos aceitar que após quase três décadas isto não esteja resolvido e que os líderes de hoje tenham uma postura conformista e que aceitem uma situação que envergonha àqueles que acreditam na justiça imaginando que isto possa ter sido superado pela linha do tempo. O tempo, pelo contrário, o tempo neste contexto onde a justiça não se mostra presente, o tempo, paradoxalmente, é atemporal.

O terrorismo está presente internacionalmente e de forma particular também na América Latina e a luta contra ele não é nossa somente, é uma luta que pertence aos que buscam a transparência, a integridade e a preservação dos valores. O autor (Thomas) Fridman , em seu livro “O mundo é plano”, em que fala sobre um mundo plano, nos inspira a acreditar que as fronteiras são demarcações teóricas quando inseridas no mundo dos direitos e das responsabilidades que são universais: portanto, irmãos argentinos, estamos juntos e não abriremos mão de um compromisso de esclarecimento que devemos ter para com aqueles que perderam suas vidas, as suas famílias e principalmente às pessoas que querem um mundo de diálogo, um mundo de entendimento, um mundo livre de terrorismo. Inaceitável com tantos instrumentos de esclarecimento, com tanta inteligência artificial que isto não se mostre esclarecido exceto pela participação de pessoas que aceitam passivamente o terrorismo como uma forma de manifestação coletiva. Inexplicável! Inaceitável! Vergonhoso!

Ao longo dos anos, este caso foi marcado por acusações e encobrimentos. Todos os suspeitos da “conexão local” (entre eles, muitos membros da Polícia Provincial de Buenos Aires) não foram culpados e eu vos pergunto: até quando? Até quando a sociedade mundial e a sociedade argentina poderão permitir isto?
A história dos judeus na Argentina remonta ao início do século XVI, na sequência da expulsão judaica da Espanha. Judeus sefarditas que fugiram de perseguições imigraram com os exploradores e os colonos a se estabelecer em o que é agora a Argentina.

A Argentina é um importante lar da comunidade judaica na América Latina, e uma ofensa a um judeu argentino se traduz numa ofensa a todos nós judeus do mundo.
Estes judeus participaram deste processo de transformação da Argentina e se orgulham muito de seu pais. Eles merecem, meus amigos, um explicação, eles exigem justiça e eles terão de todos nós judeus do mundo solidariedade e apoio integral.

O Congresso Mundial Judaico não se calará frente a esta maquiagem comportamental. Estamos unidos em nome da verdade. Estamos unidos em nome da justiça. Estamos unidos na solidariedade aos nossos irmãos argentinos. Estamos juntos.
Muito obrigado!