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Em entrevista exclusiva à CONIB, escritora britânica revela como viviam “As Costureiras de Auschwitz”

A escritora britânica, historiadora e especialista em moda Lucy Adlington pesquisava sobre a vida das mulheres durante a Segunda Guerra quando se deparou com a história sobre um ateliê de alta costura que funcionava em Auschwitz. O ateliê foi criado por Hedwig Höss, esposa do comandante do campo, servia às esposas dos líderes nazistas e nele trabalhavam costureiras judias que, para não serem mortas nas câmaras de gás junto com outros prisioneiros, aceitavam o trabalho escravo e sem qualquer respeito a sua dignidade. “Elas só não usavam os humilhantes uniformes listrados de prisioneiros pela única razão de seus clientes da SS exigirem que usassem roupas limpas por medo de pegarem tifo”, diz a autora. Em entrevista exclusiva por email à CONIB, Lucy Adlington falou sobre o seu livro recém-lançado no Brasil “As Costureiras de Auschwitz”. Veja a seguir:

Como você chegou à história dessas mulheres?

Descobrir a história das costureiras de Auschwitz foi como uma série de pequenos milagres. Eu me deparei pela primeira vez com a menção de um salão de moda no campo de concentração quando estava escrevendo um livro sobre a vida das mulheres durante a Segunda Guerra Mundial, como se vestiam e o que as inspiravam. Acebei escrevendo um livro baseado no pouco que eu sabia sobre o salão de moda, chamado The Red Ribbon. Foi então que parentes das verdadeiras costureiras de Auschwitz ouviram falar desse livro e entraram em contato comigo. Foi incrível descobrir as verdadeiras histórias dessas mulheres e ter acesso a fotos. Consegui acessar depoimentos em vídeo e entrevistar a última costureira sobrevivente do ateliê. Essa conexão me levou a muitas outras e o trabalho para salvar mais histórias continua.

O livro diz que os nazistas davam grande importância às roupas para moldar a identidade social e reafirmar o poder. As costureiras judias tinham algum privilégio pela sua função, como, por exemplo, garantia de proteção para suas respectivas famílias?

É verdade que os nazistas conheciam o poder das roupas para mostrar status e reafirmar seu poder. As costureiras do salão de elite não precisavam usar os humilhantes uniformes listrados de prisioneiros, mas a única razão pela qual lhes permitiam usar roupas limpas era porque seus clientes da SS tinham medo de pegar tifo. O salão funcionava em local mais bem cuidado do complexo, o que salvava vidas em comparação com o trabalho árduo de muitos ao ar livre, sob frio intenso e em condições terríveis. Além disso, a chefe do salão – uma jovem e corajosa judia eslovaca chamada Marta Fuchs – fez o possível para cuidar de sua equipe de costureiras. No entanto, o trabalho ainda era precário: qualquer erro poderia levar ao retorno ao inferno do acampamento principal. A comida ainda estava no nível da fome, com guloseimas ocasionais de pão ou chocolate jogadas como migalhas às costureiras por clientes da SS satisfeitos com o trabalho delas. Não havia absolutamente nenhuma garantia de proteção para as costureiras. Suas famílias foram quase todas assassinadas pelos nazistas. Os aspectos mais positivos de trabalhar no salão eram a garantia, ainda que temporária, à vida e pela força de suas amizades com outras mulheres em iguais situações.

Houve alguma tentativa de fuga?

Marta Fuchs era membro da resistência subterrânea de Auschwitz. A intenção era que ela tentasse escapar do campo para contar ao mundo sobre o assassinato em massa de judeus húngaros em 1944. Felizmente, Rudolf Vrba e Alfred Wetzler conseguiram escapar para cumprir essa missão. Marta organizou uma tentativa de fuga em janeiro de 1945, quando os prisioneiros estavam sendo evacuados para a Alemanha. Ela foi baleada nas costas, mas sobreviveu e passou o resto da guerra escondida. Outras jovens costureiras que estavam junto com ela foram mortas. Seus locais de sepultamento ainda são desconhecidos.

Quantas sobreviveram e de que forma?

Possivelmente quarenta mulheres e meninas viveram sob o refúgio do salão de moda durante a Segunda Guerra. A maioria das mulheres havia resistido a Auschwitz desde a primavera de 1942: elas estavam entre as primeiras prisioneiras judias transportadas para o campo. Marta queria salvar o máximo de vidas possível. Ela poderia oferecer abrigo e apoio. Havia um núcleo de 25 mulheres trabalhando, costurando para seus clientes de elite. Destas, a maioria sobreviveu à semi-inanição, problemas de saúde, traumas, marchas da morte e a campos de trabalho graças à solidariedade que havia entre elas e sorte. Eles se apoiaram em todos os momentos. Se não tivessem encontrado um lugar no salão, sem dúvida teriam perecido.

Por que nenhuma delas contou essa história antes?

Após a guerra, as sobreviventes do salão tiveram que reconstruir suas vidas e tentar encontrar seus parentes assassinados. A vida era difícil. Ser judeu ainda era perigoso por causa do antissemitismo, muitas não falavam abertamente sobre suas experiências. Algumas simplesmente não suportavam falar sobre o que tinham sofrido. Na década de 1990, houve mais oportunidades para dar depoimentos em vídeo.

E só recentemente algumas se sentiram à vontade para falar sobre suas experiências durante a Segunda Guerra. Meu interesse e minha busca pela história dessas mulheres ajudou a desvendar alguns dos segredos do salão de costura. Isso porque a questão da moda e da alta costura era vista como algo frívolo e como símbolo de uma vaidade da elite da SS que muitas costureiras tinham vergonha de expor seu envolvimento.

Elas se reencontraram após a libertação do campo e como viveram após a guerra?

Os laços de amizade tecidos no salão de moda permaneceram fortes após a guerra. Muitas sobreviventes voltaram para suas cidades de origem na Eslováquia, mas depois viajaram para viver em Israel, Alemanha, Estados Unidos e Canadá. Por um tempo, Marta Fuchs dirigiu um salão de moda em Praga, ajudada por costureiras do antigo salão de Auschwitz. Sempre que possível, as sobreviventes mantinham contato por carta e telefonemas e depois por e-mail e Skype. Eles se apoiaram nas dificuldades do pós-guerra e comemoraram conquistas. Quando era possível, elas se reuniam para lembrar o passado e compartilhar histórias de vida. Surpreendente a história de luta e coragem dessas mulheres!