Foto: Divulgação CONIB

Escritor fala sobre sua saga em fuga da Bulgária e de uma suspeita expedição científica nazista à Amazônia antes da Segunda Guerra

De origem búlgara e radicado em Manaus, o escritor Ilko Minev, autor de “Onde estão as Flores”, “Na sombra do mundo perdido”, “A filha dos rios” e “Nas pegadas da alemoa” – este último chegou a ficar 11 semanas entre os mais vendidos no Brasil -, fala à CONIB sobre a sua trajetória fugindo da ditadura comunista em seu país – a Bulgária – até chegar à Amazônia e sobre a descoberta de uma suspeita expedição científica nazista à região amazônica antes da Segunda Guerra. Veja a seguir:

Origem 

Nasci na Bulgária e posso ser chamado de baby boomer típico, porque nasci um ano depois do fim da guerra, em 1946. Naquela época a Bulgária havia se tornado um país comunista e reprimia com rigor a dissidência. Depois de eu ter terminado o segundo grau entrei na faculdade e comecei a estudar literatura, com especialização em línguas germânicas. Falo alemão, porque também se falava em casa, e na Europa Oriental era comum ter o alemão como segunda língua e assim era na Europa toda. Então em fins de 1969, alguns amigos se envolveram em um movimento dissidente, o que era algo absolutamente inaceitável em uma ditadura comunista. Eu era muito próximo de um deles e um dia esse grupo foi preso. Foram todos condenados e esse amigo próximo passou quatro anos na prisão. Eu tinha entrado como curioso no grupo, porque não participei de nenhuma atividade, embora não simpatizasse com o regime.

A trajetória 

Mas, naqueles anos, em 1970, um pouco depois de terminar a guerra dos Seis Dias (entre Israel e países árabes) aconteceu algo interessante: em países comunistas, as pequenas comunidades judaicas acabaram entrando em choque com os governos, porque, durante a guerra, as notícias que saiam nas rádios, televisão e jornais falavam apenas em vitórias árabes. E então, de vitória em vitória, uma semana depois os gloriosos exércitos (árabes) se renderam e a mentira aflorou. Mas, com isso, o relacionamento dos governos comunistas com as comunidades judaicas ficou azedo, até porque, obviamente, torcíamos por Israel. E conseguíamos outras informações mais fidedignas sobre a guerra, ouvindo pelo rádio a BBC, a Voz da América e a Europa Livre, que transmitiam em vários idiomas. Mas os vizinhos vinham nos dar as condolências, porque a opinião pública era de que Israel estava praticamente a ponto de desaparecer.

Nessa época, por eu ser amigo de alguns dissidentes, ninguém acreditava que eu não estivesse envolvido com o movimento. Cheguei a ser interrogado várias vezes, mas isso coincidiu com uma oportunidade que tive para sair do país. Inicialmente fui para a Bélgica. Lá pedi e recebi asilo como refugiado político. Eu já tinha alguns parentes aqui no Brasil. Foi aí que uma tia veio me visitar e me convidou para vir para São Paulo, inicialmente. Chegando aqui, recebi ajuda de algumas famílias e fui trabalhar na CCE, que era de uma família judia, e, mais tarde, fui enviado para Manaus para iniciar as operações da empresa na Zona Franca da cidade. Era para eu passar de três a seis meses e neste ano estou completando 50 anos na cidade.

A aventura na literatura 

Depois de passar uma vida inteira trabalhando e obter algum sucesso, acabou chegando a hora de eu me aposentar. Foi então que decidi me reinventar e voltar para o meu primeiro amor: a literatura. Só que me deparei com um desafio: não sabia se conseguiria escrever em algum idioma, porque o búlgaro eu não usava mais e o alemão eu também não praticava e acabei perdendo a fluência e, mesmo o inglês, que falo, não era suficiente para escrever textos e português eu nunca estudei. Mas resolvi me arriscar mesmo assim e escrevi meu primeiro livro “Onde estão as Flores” depois de um ano de trabalho árduo. No livro falo da chegada da minha família no Brasil, só que não é uma história biográfica, é romanceada e tem lances de ficção. Na verdade, eu queria mesmo era falar sobre a Amazônia, sobre tudo o que vivi aqui e sobre a história da região nos últimos 200 anos, desde a chegada dos primeiros judeus ao Brasil. Esse primeiro livro foi bem recebido e tive convite para continuar. Foi aí que escrevi “A filha dos rios”, que também teve boa aceitação, mas até então eu era um nome pouco conhecido. Já o terceiro livro “Na sombra do mundo perdido” apareceu nas estatísticas de livros mais vendidos e o mais recente “Nas pegadas da alemoa” ficou 11 semanas entre os mais vendidos no Brasil e chegou a ficar uma semana em primeiro lugar, o que foi uma surpresa para mim.

A expedição na Amazônia 

Essa história foi uma surpresa para mim, assim como foi para muita gente. Descobri essa história durante uma visita às cachoeiras de Santo Antônio, no Amapá, que lembram as de Foz do Iguaçu, mas sem a presença de turistas. A cinco minutos de barco desse lugar descobri um pequeno cemitério, onde tem uma cruz grande com uma suástica esculpida nela, com inscrições em alemão. Aquilo chamou minha atenção e resolvi investigar. Descobri que houve uma expedição científica alemã ao local às vésperas da Segunda Guerra.

Em 1935, as movimentações políticas que deram origem à Segunda Guerra Mundial já estavam em construção. Naquele ano, o Partido Nazista, que comandava a Alemanha e começava a impor restrições aos judeus por meio das Leis de Nuremberg, pediu uma autorização inusitada ao governo de Getúlio Vargas: os alemães queriam realizar uma sofisticada expedição científica para coletar e estudar a flora e fauna na área da serra do Tumucumaque, uma imensa área selvagem na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. Dois anos mais tarde, na véspera da Segunda Guerra, os trabalhos terminaram e os resultados foram uma enorme e valiosa coleção de amostras – a pele de uma Anaconda e de outros animais coletados estão espalhados pelos museus alemães. Eles levaram amostras de mais de 1.500 espécies de animais e plantas e também produziram um livro e um documentário.

Mas estranhei o fato de um país prestes a entrar em guerra enviar uma expedição, com avião próprio, a outro lado do mundo para fazer pesquisas científicas e estudar a fauna e a flora local. Descobri que, por trás dessa pesquisa, havia um interesse militar.

Os alemães tinham em torno de mil submarinos e precisavam de uma base para manutenção, abastecimento e descanso seguro de suas tripulações. Descobri que eles pensaram inicialmente em estabelecer essa base na Guiana francesa, que eles poderiam facilmente dominar. Isso nunca se concretizou porque a guerra estourou e não deu tempo de completar a missão. Essa expedição durou um pouco menos de dois anos. Mas há documentos, troca de correspondência com Heinrich Himmler, um conhecido líder nazista, que comprovam essa intenção de fazer um estudo da região para implantar uma base.

Há um livro escrito e um filme feito pelos participantes da expedição e também outros documentos sobre essa presença aqui no Brasil, porque eles pediram licença e obtiveram autorização do governo Getúlio Vargas, que tinha tendências um tanto pró-nazistas. A expedição mapeou a região, mas não teve tempo de montar a base, o que, de certa forma, representaria uma invasão. A guerra acabou estourando e frustrou os planos do grupo, que teve que retornar ao seu país. Eles até usaram o território brasileiro algum tempo depois para receber ajuda com a manutenção dos submarinos. Por vários anos, toda a navegação no Atlântico norte e sul era controlada pelos submarinos alemães

O prefeito de Macapá na época era um judeu, Eliezer Moisés Levy, e é provável que ele tenha tido algum contato com membros da expedição, porque até então as leis ditadas por Hitler ainda não existiam e, portanto, o antissemitismo ainda não havia aflorado. Essa possibilidade existiu porque os alemães andaram por Amapá por um tempo e ele, como prefeito, teve uma importante gestão, tanto que a avenida da orla de Macapá traz o nome dele. Aliás, as comunidades judaicas tiveram um importante papel em toda a região.

“Nas Pegadas da alemoa”

 Soube que quando os alemães saíram do Brasil eles deixaram uma índia grávida e, depois, a filha que nasceu era chamada de alemoa pelos membros da tribo. Por isso o título do meu livro “Nas pegadas da alemoa”. Cheguei a ir atrás da alemoa: passei uns doze dias andando pelo interior do Amapá, uma aventura que não foi nada fácil, sem acesso a comunicações e sem estradas, com a maioria dos deslocamentos feitos de barco. Nessa viagem descobri algumas coisas, mas não achei a alemoa e foi então que cheguei à conclusão de que valia a pena escrever um livro sobre o caso. Na região do rio Oiapoque é fácil chegar à Guiana francesa, mas no Brasil é mais difícil. E nessa região ocorreu um fenômeno: na época, o governo francês criou um tipo de bolsa família para os descendentes de índios no valor de mais de mil euros por mês para cada família, sendo 600 euros para a mãe e cerca de 300 para cada filho. Lá havia famílias numerosas que recebiam mais de três mil euros e isso acabou atraindo muitos brasileiros que passaram para o outro lado, viraram franceses e recebiam essas bolsas. Isso provocou um movimento tão grande que misturou as populações, descaracterizando as tribos, que acabaram perdendo a sua identidade. A maioria dos nativos sabe apenas quem são os pais, mas não sabe dizer quem são os avós. Por isso não é fácil obter informações sobre as origens das pessoas. Nesse romance “Nas pegadas da alemoa” eu misturei fatos reais com ficção e isso fez com que  o livro tivesse boa aceitação. A grande pergunta que ainda se faz é sobre quem era o pai da alemoa. Não há registros que indiquem a paternidade, até porque logo depois os alemães voltaram para o seu país e lá já se apregoava a superioridade da raça ariana. E muito menos se cogitava revelar que haviam deixado descendentes entre os indígenas. Há relatos de que o pai da alemoa seria o piloto da expedição. Enfim, a alemoa realmente existiu e eu gosto de escrever ficção baseada em fatos reais. Aqui, eles deixaram alguns objetos, como uma faca encontrada numa tribo da Amazônia e fotos, inclusive do avião que vieram, que comprovam essa presença. Há relatos sobre um índio, que eles chamavam de Vinetu, que teve importante participação no suporte à expedição. Há também registros de conversas do embaixador da Alemanha com membros do governo Vargas; o chefe da expedição chegou a ir para o Rio de Janeiro; há também registros de contatos que eles fizeram em Belém quando chegaram ao Brasil e fotos de oficiais brasileiros ao lado do avião da expedição e muitos outros registros e documentos. Enfim, a história da expedição está muito bem documentada, embora pouco conhecida.

A imigração judaica na região

Mas o que me chamou muito a atenção quando cheguei em Manaus foi que eu não esperava encontrar uma comunidade judaica organizada e atuante. Achava que aquele era um lugar muito remoto para isso. Mas logo no segundo ou terceiro dia da minha chegada fui convidado a ir à sinagoga, o que muito me surpreendeu. Hoje a comunidade judaica é muito menor do que foi naquela época. Quase toda a comunidade judaica da região é formada por descendentes de marroquinos. E essa é uma história curiosa: na época de Napoleão, em 1800 e pouco, alguém de Marrocos chegou a Belém e se encantou com o lugar. Aos poucos, outros imigrantes daquela região foram chegando em Belém. Saíram de uma cultura árabe muito rígida e estavam acostumados com o deserto do Saara, quando encontraram em Belém uma cidade próspera, com muito verde, abundância e variedade de frutas e comidas típicas e se encantaram com os rios da região. Essa imigração se acelerou com o ciclo da borracha e o atrativo econômico foi o que mais prevaleceu na decisão de marroquinos emigrarem para o Brasil. A maioria dos que chegavam eram jovens em busca da borracha nos seringais das cidades do interior da Amazônia, locais ainda hoje com pouca estrutura e muito distantes das capitais, Belém e Manaus. Muitos desses jovens se uniram a caboclas, ou índias, e acabaram formando famílias. Calcula-se que atualmente existam no interior da Amazônia uns 500 mil descendentes de judeus marroquinos e que não são reconhecidos como judeus, porque os jovens que aqui chegavam quando queriam se casar mandavam buscar as esposas judias em Fez, ou Tanger. Isso explica também o fato de haver nesses locais grandes cemitérios judaicos. Há uma cidade no Pará chamada Cametá, por exemplo, que em dado momento 50 por cento da população era judaica. E Samuel Benchimol relata muito bem essa presença em seu livro “Eretz Amazônia”. Poucas famílias búlgaras vieram muito tempo depois e essa presença não foi tão marcante quanto a de imigrantes marroquinos.

Antissemitismo

O surgimento de grupos neonazistas no Brasil e o aumento do antissemitismo no País e no mundo é uma preocupação muito grande e mostra que, por alguma razão, a humanidade não aprendeu com os erros do passado. Nós temos a obrigação de contar a história para nossos filhos e netos, porque hoje em dia a grande maioria da população mundial não sabe o que aconteceu naquela época, do nazismo. Ainda assim, acho que hoje estamos numa situação muito melhor do que há 80, ou 100, anos. Na Europa, apesar do registro de casos de antissemitismo, há uma consciência maior do que havia naqueles anos. Mas a preocupação existe e cabe a nós explicar o que aconteceu a nossos filhos e netos. Carregamos este peso, mas também o orgulho de fazer parte de um povo com essa capacidade de resiliência e a cultura que temos.