Especialista da ONU alerta contra ódio religioso e de intolerância durante a pandemia de COVID-19

Ahmed Shaheed, relator especial da ONU sobre liberdade de religião e crença, fez um apelo aos estados membros da organização para que deem garantias de que as medidas restritivas da Covid-19 não sejam usadas como forma de propagação do ódio e da intolerância por pessoas que buscam obter vantagens políticas ou econômicas durante a pandemia.

“A pandemia está causando um surto de intolerância religiosa em muitos países. Estou alarmado ao ver o aumento do incentivo ao ódio, com ataques a comunidades religiosas, incluindo cristãos, judeus e muçulmanos sendo apontados como responsáveis pela disseminação do vírus”, disse Shaheed.

“Migrantes, refugiados e requerentes de asilo de diferentes grupos minoritários também foram estigmatizados da mesma forma”, disse ele. “Os alvos também enfrentaram ofensas verbais, ameaças de morte, ataques físicos e discriminação na busca de acesso a serviços públicos, incluindo a negação de serviços de saúde”.

“Qualquer incitação ao ódio ou à violência baseada em religião, crença ou identidade étnica é inaceitável”, afirmou Shaheed. “Para combater a desinformação, é fundamental que os Estados estabeleçam estratégias e canais de comunicação eficazes para fornecer informações precisas e confiáveis às populações”, afirmou Shaheed.

“O firme compromisso da liderança política de conter o discurso de ódio que estigmatiza as pessoas com base em sua religião ou crença é essencial nesse sentido”, disse ele, enfatizando que os líderes religiosos também podem desempenhar um papel importante. “A solidariedade entre pessoas de todas as religiões nunca foi tão importante e necessária como agora”.

O presidente da Conib, Fernando Lottenberg, observou no último dia 24 que “o antissemitismo se transforma com o tempo, como um vírus mutante. Hoje usa a pandemia para justificar suas teorias. É apenas uma roupagem nova para fundamentar antigos argumentos discriminatórios contra o povo judeu e contra Israel”. Lottenberg, esteve no ano passado com a equipe de Shaheed em Washington e entregou um relatório sobre a situação do antissemitismo no Brasil, incorporado ao relatório final.

Shaheed observou que nem todas as comunidades religiosas ou de crenças ou pessoas que vivem em condições marginalizadas têm acesso a informações on-line sobre a COVID-19 e as melhores práticas para evitar a transmissão. “Peço à sociedade civil e às organizações religiosas que se comuniquem entre si e ajudem as pessoas em situações vulneráveis, independentemente de sua crença ou origem étnica”.

“Os Estados também devem agir para ajudar os necessitados e garantir que todos tenham acesso justo a todos os serviços públicos e de saúde”, destacou Shaheed.

“O diálogo inclusivo garantirá que todas as comunidades implementem e cumpram voluntariamente as medidas de saúde pública necessárias, adotando, inclusive, práticas religiosas que podem ser adaptadas em resposta às medidas preventivas da COVID-19, como a organização de serviços religiosos virtuais”.

“Os Estados, todos os líderes religiosos e atores religiosos devem intensificar a promoção da inclusão social e da solidariedade, além de combater o incitamento ao ódio por meio do engajamento e da educação”, afirmou Shaheed.

Ele lembrou que “a resolução 16/18, sobre Estratégia e Plano de Ação das Nações Unidas sobre o Discurso de Ódio e o programa da UNESCO, têm ferramentas úteis para prevenir o extremismo violento através da educação”.

“Apelo aos Estados, líderes religiosos, sociedade civil, mídia e público em geral para que rejeitem o ódio e a exclusão e forneçam apoio e solidariedade àqueles que poderiam ser vitimizados neste momento difícil”, finalizou o relator ONU.