Fala de Alvim repercute no Brasil e no exterior, provocando forte reação do Legislativo, Judiciário, Conib, federações israelitas e Embaixadas

Após a forte reação de autoridades, líderes políticos, representantes da sociedade civil e da comunidade judaica, que levaram à demissão do então secretário da Cultura, a fala de Roberto Alvim, reproduzindo o discurso do ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels gerou, durante todo o fim de semana, uma série de artigos e comentários de indignação, tanto na imprensa nacional como em jornais, revistas e meios de comunicação de vários países.

Para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), Alvim passou de todos os limites.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), divulgou nota afirmando: “Como primeiro presidente judeu do Congresso Nacional, manifesto veementemente meu total repúdio a essa atitude e peço seu afastamento imediato do cargo. É totalmente inadmissível, nos tempos atuais, termos representantes com esse tipo de pensamento. E, pior ainda: que se valha do cargo que eventualmente ocupa para explicitar simpatia pela ideologia nazista e, absurdo dos absurdos, repita ideias do ministro da Informação e Propaganda de Adolf Hitler, que infligiu o maior flagelo à humanidade”.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli disse que a declaração do secretário de Jair Bolsonaro foi uma “ofensa ao povo brasileiro, em especial à comunidade judaica”. “Há de se repudiar com toda a veemência a inaceitável agressão que representa a postagem feita pelo secretário de Cultura” com referências ao nazismo, disse Toffoli.

Na sexta-feira, logo cedo, a Conib divulgou nota, afirmando: “A Conib (Confederação Israelita do Brasil) considera inaceitável o uso de discurso nazista pelo secretário da Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim. Emular a visão do ministro da Propaganda nazista de Hitler, Joseph Goebbels, é um sinal assustador da sua visão de cultura, que deve ser combatida e contida. Goebbels foi um dos principais líderes do regime nazista, que empregou a propaganda e a cultura para deturpar corações e mentes dos alemães e dos aliados nazistas a ponto de cometerem o Holocausto, o extermínio de 6 milhões de judeus na Europa, entre tantas outras vítimas. O Brasil, que enviou bravos soldados para combater o nazismo em solo europeu, não merece isso. Uma pessoa com esse pensamento não pode comandar a cultura do nosso país e deve ser afastada do cargo imediatamente”. A nota da Conib repercutiu na Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal Nacional, GloboNews, Jornal da Band, BRPolitico entre outros. Federações e associações israelitas de vários estados também divulgaram notas de repúdio.

O Jornal Nacional deu amplo destaque ao episódio, divulgando declarações de autoridades, líderes políticos a de representantes da comunidade judaica, além de reproduzir a nota da Conib.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, afirmou que “a liberdade de expressão deve ser relativizada – somente neste contexto – quando se revela a promoção de doutrinas nazifascistas que importam na destruição da própria democracia”.

O Museu do Holocausto, de Curitiba, emitiu nota, afirmando: “Este inadmissível plágio textual e estético, além de repulsivo, cruza a linha do que é moralmente aceitável e configura apologia ao Nazismo”.

Após comunicar a demissão de Alvim, o presidente Jair Bolsonaro classificou a fala do secretário como “um pronunciamento infeliz” que “tornou insustentável a sua permanência”.

O discurso de Alvim também chocou a embaixada alemã, que tuitou: “O período do nacional-socialismo é o capítulo mais sombrio da história alemã, trouxe sofrimento infinito à humanidade. A Alemanha mantém sua responsabilidade. Opomo-nos a qualquer tentativa de banalizar ou mesmo glorificar a era do nacional-socialismo”.

A embaixada de Israel divulgou nota afirmando: “A comunidade judaica e o Estado de Israel estão unidos no combate à todas as formas de antissemitismo. Por esta razão, a Embaixada de Israel apoia a decisão do governo brasileiro de exonerar o Secretário Especial de Cultura Roberto Alvim. O nazismo e qualquer uma de suas ideologias, personagens e ações não devem ser utilizados como exemplo em uma sociedade democrática sob nenhuma circunstância”.

No sábado, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, comemorou a forte reação ao discurso de Roberto Alvim: “Fantástica, e até emocionante, a reação de intelectuais, artistas, historiadores, professores, estudantes, militares e da nação como um todo, ao infeliz resgate de pensamentos nazistas”, escreveu Heleno em seu Twitter. “Mostra uma face da convicção e do apego de nosso povo à democracia e “às liberdades individuais”.

A fala do então secretário da Cultura repercutiu na imprensa internacional. Segundo o The New York Times, a reação ao vídeo foi o mais recente caso “em um debate mais amplo sobre liberdade de expressão e cultura na era Bolsonaro”.

A revista alemã Der Spiegel citou a mensagem publicada pela embaixada alemã no Brasil, que afirmou se opor a qualquer tentativa de “banalizar ou mesmo glorificar o tempo do nazismo”.

O jornal britânico The Guardian também descreveu Alvim como um aliado do governo Bolsonaro na “guerra cultural”, e lembrou que a mesma ala já promoveu ataques a pautas como as mudanças climáticas e o feminismo.

Na França, o jornal “Libération” classificou o caso como um escândalo, enquanto o “Le Figaro” lembrou que o posto de Alvim era o equivalente ao de ministro da Cultura, pasta que “simplesmente desapareceu no governo Bolsonaro” depois de ser absorvida primeiro pelo Ministério da Cidadania e, posteriormente, pelo Turismo.