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Figura emblemática de Recife, Germano Haiut conta como concilia judaísmo, atividades empresariais e a carreira de ator

Filho de imigrantes judeus originários da Bessarábia, atual Moldávia, na adolescência Germano Haiut participou de movimentos juvenis e culturais dentro da comunidade judaica de Recife, como o Hashomer Hatzair – um movimento juvenil sionista. Exerce atividades empresariais, paralelamente à carreira de ator. O início de sua trajetória ocorreu no Teatro do Estudante Israelita de Pernambuco. E depois vieram o Teatro de Arena do Recife e o Teatro Popular do Nordeste, atuando num total de 24 peças. No cinema, trabalhou em filmes como O Baile Perfumado, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias e Reflexões de um Liquidificador, entre outros. Em entrevista à CONIB, Haiut falou sobre família, judaísmo, antissemitismo e os desafios numa comunidade judaica pequena como a de Recife.

Família: 

Minha família veio em 1929 da Bessarabia. Minha mãe tinha irmãos que já moravam aqui e, como a situação estava difícil lá, ela e meu pai resolveram vir para o Brasil. Tive uma irmã que era 11 anos mais velha do que eu e tinha apenas dois anos quando minha família veio para o Brasil. Nasci em 1938, vivi grande parte da minha vida em nosso gueto, que era o bairro da Boa Vista, que concentrava basicamente quase toda a comunidade judaica de Recife, formada, em sua maioria, por comerciantes que vendiam à prestação pelas ruas. Viviam duas ou três famílias na mesma casa – uma história comum da grande maioria dos imigrantes que viviam em outras cidades, como Rio de Janeiro, ou São Paulo.

A infância 

Eu morava a cem metros do colégio idish e a cem metros de um grupo escolar municipal e não sei por que eu acabei indo estudar nessa escola municipal e não tive o privilégio de estudar numa escola judaica. Mas dos 11 aos 19 anos participei ativamente de um grupo juvenil judaico – o Hashomer Hatzair -, e por uma série de motivos pessoais eu não fiz aliá.  Então meu início de vida dentro da comunidade até hoje, com 83 anos, foi e é tranquilo.

O fato de eu não ter estudado em colégio judaico na infância – por problemas financeiros do meu pai – nunca me incomodou, porque eu vivia o judaísmo de forma muito intensa na família e fora dela, no movimento juvenil. E sinto até hoje muito orgulho de ter participado desse movimento, que me incluiu dentro da comunidade. E a vida judaica para mim foi muito importante. Foi o que me sustentou. Meu pai morreu quando eu tinha acabado de fazer bar-mitzvá e eu tive que trabalhar muito cedo, porque ele não nos deixou nada. Eu diria que sou fruto e objeto natural da minha comunidade com muita honra, porque eu consegui me desenvolver dentro da comunidade e chegar onde cheguei, sem qualquer falsa modéstia, sempre procurando interagir com todos. Tenho orgulho em dizer que fui presidente do Clube Israelita de Pernambuco e atuei pela venda do imóvel porque estava num local de acesso incompatível para comunidade e conseguimos nos transferir para outro local mais viável, onde até hoje funciona o clube e o colégio. Ter conseguido isso me dá uma sensação muito boa porque é algo muito importante para a continuidade da comunidade.

Quando o colégio israelita, que hoje tem 103 anos e que acredito ser o mais antigo colégio judaico do Brasil, completou 100 anos fizemos uma festa que reuniu quase 400 pessoas, numa comunidade pequena em que não sabemos direito quantas pessoas há, e que contou com a presença de representantes de Israel, dos Estados Unidos, de São Paulo, do Rio de Janeiro e foi uma das confraternizações mais lindas que tive a oportunidade de ver.

A peça Terror e Miséria no Terceiro Reich (Brecht)

Eu tive que adotar uma posição firme para participar desse espetáculo, porque havia um conflito ideológico naquele momento pré-eleitoral, em 2017, entre o diretor da peça, eu e outro participante. Os dois defendiam uma posição ideológica pelo momento em que estávamos vivendo. E tive que deixar bem claro o meu lado atávico, como judeu, de não querer levar o tema daquela discussão para o espetáculo e me ater ao contexto da peça. Tive a compreensão deles e o compromisso de que aquela discussão não interferiria no espetáculo. Penso que a peça foi muito bem, apesar de ter sido encenada num teatro pequeno, de cem lugares, e por apenas sete dias. Mas conseguimos ter o teatro lotado e alcançar 700 pessoas. E, para surpresa minha, já me contataram para voltar com a peça no ano que vem no Teatro Santa Isabel, o que para mim será muito bom porque esse é um teatro grande. E sempre que, sob qualquer circunstância, meu nome estiver envolvido em alguma situação, eu me coloco como judeu acima de tudo. Isso para mim está muito claro.

Antissemitismo e crescimento de grupos neonazistas no Brasil  

Vejo isso com muita preocupação, no que parece ser uma tendência mundial. E temos que nos preocupar com a situação principalmente aqui no Brasil, onde apesar de ser um país de menor importância em relação a outras nações esse preconceito começa a crescer. A B’nai B’rith tem um projeto da maior importância e nós aqui estamos começando a estudar a possiblidade de fazer um trabalho sobre o Holocausto com os colégios municipais com aulas e que termine com a apresentação de uma peça teatral e que isso também seja levado, principalmente, aos colégios particulares, onde alunos costumam receber mensagens muito fortes de alguns pais.

Sionismo e tentativas de deslegitimar Israel 

Essa é minha briga diária. Lamentavelmente, foram criadas teorias difundidas pela esquerda, principalmente, de que o grande problema do mundo é a questão palestina.  Penso que devemos lutar contra essas teorias esclarecendo e debatendo o tema em universidades e no meio acadêmico. Temos que colocar a cara para bater e defender as posições de Israel diante desse conflito. E mesmo que possamos discordar do governo de Israel, não podemos abrir mão da defesa do direito à existência do Estado judeu.

Preconceito 

Nunca sofri preconceito por ser judeu, porque, modéstia à parte sou respeitado aqui justamente pelas minhas ideias. Diria até que sou uma figura pública, por ser de teatro, ser comerciante há 50 anos, por ter sido jogador de basquete, ter estudado em bons colégios. Então, em qualquer lugar as pessoas me conhecem e quando há qualquer debate as pessoas já sabem a minha opinião. Nunca enfrentei preconceito, mas já enfrentei muita ignorância, com afirmações do tipo: “O dinheiro do mundo está nas mãos dos judeus”.

Judaísmo: 

Como eu exerço meu judaísmo? Sendo judeu. Participo de todos os eventos de Shabat e agora, com a pandemia de Covid, pela internet. Para mim ser judeu é fazer exatamente aquilo que a gente tem tanto orgulho de ser. Tenho muito orgulho de ser judeu, assim como me orgulho de ser brasileiro. Em todas as minhas atividades, no teatro, no cinema, como empresário, me coloco como judeu. Tenho orgulho e a satisfação em dizer que comecei o projeto de revitalização da sinagoga Kahal Zur Israel. Levei o projeto adiante. Certo dia alguém, que não é da comunidade judaica, me apresentou um projeto sobre a sinagoga Kahal Zur Israel – a primeira sinagoga das Américas. No dia seguinte, o projeto estava na minha mão e em seguida procurei uma pessoa, um amigo meu arquiteto, Benardo Dimenstein, para fazer o projeto e disse a ele: Faz uma placa: ‘Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus’. Mandei fazer as placas e, na noite antes da inauguração, fui lá com um pedreiro e as coloquei nas esquinas da rua. E, quando abrimos de manhã a sinagoga com um coquetel, estavam lá as placas e todo mundo se surpreendeu. Todos se emocionaram

Mensagem aos jovens 

Tenho quatro filhos, todos educados dentro do judaísmo e participando dos movimentos juvenis da comunidade. O colégio é o grande manancial do jovem para que ele dê continuidade no (movimento juvenil) Dror. Depois que o jovem sai do Dror ele sente a necessidade de dar essa continuidade. Isso é importante porque estamos sentindo um enfraquecimento dessa consciência, da necessidade da continuidade. Procuro sempre estimular o pessoal da liderança para que reúnam os jovens em torno de eventos. Esse é um grande desafio para nós diante de uma comunidade pequena e com uma grande quantidade de casamentos mistos, de judeus com não judeus. O nosso grande problema é a dificuldade do que oferecer aos jovens, apesar de termos uma Naamat jovem, o Dror, o colégio. Mas é uma comunidade pequena e é muito difícil envolver os jovens e despertar esse sentimento, da importância da continuidade. Hoje o jovem sai da universidade já com sua vida estruturada. No meu tempo de juventude, não havia televisão, celular, redes sociais e, por isso, podíamos nos dedicar mais aos movimentos juvenis. E quando o jovem tem contato com esses movimentos ele tem outra visão de Israel e da vida comunitária e da necessidade de trabalhar num movimento juvenil.