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“Foi no judaísmo que encontrei as respostas de que necessitava”, diz Pedro Sirotsky

O comunicador, músico e empresário José Pedro Sirotsky, de 65 anos, falou à CONIB sobre sua origem russa, sua trajetória como ativista e apresentador de sucesso do programa Transasom, na década de 1970, e a decisão de abandonar um sonho – a música – quando jovem para se dedicar à carreira empresarial no Grupo RBS, empresa fundada por seu pai, Maurício Sirotsky Sobrinho. Falou também sobre o resgate dessa história com o recém-lançado documentário “Mr. Dreamer” (https://mrdreamer.net/), em exibição no Globoplay, a origem de sua família, judaísmo, pandemia, antissemitismo e a busca de respostas na religião para suas angústias e questionamentos.

A origem
A nossa família chegou ao Brasil em 1913, assim como a massiva maioria dos judeus que buscavam abrigo fugindo de perseguições. Meus bisavós se instalaram no interior do Rio Grande do Sul, na colônia de Dois Irmãos, onde meus avós, por parte de pai, criaram suas raízes, construíram suas relações e plantaram a origem da família Sirotsky a partir desse lugar. A história da nossa relação com o judaísmo começa dessa forma, mas foi muito bem plantada, estimulada para as gerações subsequentes, principalmente pelos avós, que viveram na Rússia ainda crianças e que não sabiam exatamente o que estava acontecendo e por que estavam se mudando para outro país, em outro continente, mas que nestas colônias preservaram os valores da nossa religião, os momentos importantes. E não apenas preservaram, como multiplicaram. Souberam transferir para todos os seus descendentes. Tenho lembranças maravilhosas da convivência com meus avós, mesmo não sabendo direito o que era religião naquele momento da minha vida, quando criança, e as idas à sinagoga levado pelo meu pai e pela minha mãe.
Minha mãe não era judia, mas se converteu ao judaísmo e se transformou numa grande iídiche mama, uma pessoa muito vinculada às questões religiosas. E era ela quem nos levava à sinagoga, para beijarmos os nossos avós em Rosh Hashaná, Yom Kipur e Pessach, fazendo com que seguíssemos a religião desde muito cedo, principalmente após o bar-mitzva, momento a partir do qual nos sentimos pertencentes à religião. Embora eu não me considere um judeu atuante, eu me sinto comprometido com nossa fé, nossa religião. Sou muito grato aos meus avós e à minha mãe, que teve um papel importante, despertando em nós o sentimento de pertencer e se sentir pertencido a uma fé religiosa.

Memória
A memória que tenho do judaísmo na infância era dos encontros na casa de meus avós em Porto Alegre. Não havia sentimento mais saudável para uma criança que pouco entendia de religião, mas que sentia aquilo que nossos avós estavam querendo nos passar, que era o respeito à religião, com as rezas sendo cultuadas não apenas no shabat, mas nas festividades, momentos de celebração e de união familiar. Acho que um dos principais resultados desses encontros, além da religiosidade em si, foi a busca de preservar a união da família. E as festividades religiosas foram momentos de grande união da família, de celebração, de muitas brincadeiras, de muitas músicas. A religião e a família se fundem com os objetivos de preservação de valores, com objetivo de fazer com que as crianças aprendam e preservem a história. E isso teve como resultado o respeito à família e ao amor que as pessoas que nos geraram têm em relação a nós e a responsabilidade que temos de regenerar esse sentimento e repassá-lo aos nossos filhos. No meu caso, essa responsabilidade é maior: tenho quatro filhos e estou prestes a ter o quinto neto e procuro preservar o que recebi. Tenho três filhos adultos e outro que acabou de completar 13 anos. Infelizmente não conseguimos fazer o bar-mitzva dele como pretendíamos por conta da pandemia, mas estamos planejando neste ano levá-lo a Israel para ele conhecer e entender o que é o judaísmo na sua origem, na sua fonte.

A harmonia com o passado
Levou 40 amos. Como mostra essa metáfora que o documentário (Mr, Dreamer) traz e que foi uma metáfora quase que circunstancial, porque eu voltei a me reconectar com meus sonhos, com aquilo que eu desejava ser quando era mais jovem e que, por motivos outros, acabou tendo um desvio de rota na minha vida com relação àqueles sonhos. Isso me trouxe muita paz, muita harmonia interna, porque essa passagem que temos por esta vida é desafiadora de várias maneiras. E uma delas é fazer com que quanto mais tempo temos de vida devemos nos perguntar se tudo o que foi feito valeu a pena e se o que estamos vivendo continua valendo a pena ou não. Não que minha vida nesses 40 anos, enquanto executivo, em que tive que interromper os meus sonhos vinculados à música, às artes, tenha sido ruim, ou difícil, mas eu agradeço muito pela oportunidade de estar recuperando algo que talvez, se eu não buscasse esse caminho, provavelmente eu levaria como uma frustração para qualquer outra vida que eu venha a ter, ou não. Com a idade ficamos mais reflexivos sobre o que fizemos e o que estamos fazendo e a oportunidade de buscarmos essa reconexão é algo que temos todos os dias. Penso que enquanto somos lúcidos e saudáveis a vida cria essa oportunidade de nos provocarmos com esses questionamentos. A pergunta que sugere o documentário “o que você está fazendo com sua vida?” é o que devemos nos fazer todos os dias.

A conexão com o judaísmo
Penso que tanto a minha carreira anterior, como músico e ligado às artes, como a de empresário não me tornaram nem distante nem próximo ao judaísmo. O que me faz ser judeu é, além das origens que eu respeito e que agradeço por terem sido disseminadas dentro de mim, a alegria que sinto. Tenho muito orgulho de ser judeu. E, mesmo não entendendo algumas vezes as nuances da história do judaísmo, a fé judaica me atende em todos os sentidos. Isso acontece não apenas ao visitar uma sinagoga, e nem pelo fato de saber que sou judeu, é algo que transcende uma explicação lógica. Conheci Israel em 2006, aos 50 anos, e a sensação que tive ao caminhar pelas ruas de Israel foi de uma conexão com a fé muito forte. E essa fé eu passo para meus filhos e netos, que têm entre 2 e 11 anos. Embora ainda muito pequenos, eles já sabem que sou judeu e que eles próprios também são judeus, mesmo não entendendo muito coisa.
Não sei se foi a minha carreira empresarial que me conectou mais ou menos com o judaísmo. Creio que a vida me conectou. E talvez a carreira empresarial tenha me feito transcender na conexão com outras pessoas, de outras origens religiosas e que nos aproximam.

A busca por respostas
Foi no judaísmo que encontrei as respostas de que necessitava, como mostra, no documentário, o momento do encontro com o rabino Guershon Kwasniewski. E aquele foi um momento muito importante, porque quando concebemos o documentário ainda não existia a pandemia (de Covid). O documentário iria mostrar uma viagem que eu faria por várias cidades do mundo para conversar com jovens, com a idade que eu tinha quando vivia apenas da música e tive meu sonho interrompido para ouvi-los e tentar desestimulá-los a não se desviarem de seus sonhos. Quando ficou pronto começou a pandemia e não havia clima para em março de 2020 lançar um documentário naquelas circunstâncias, no momento em que o mundo se impactou com toda essa situação que ainda vivemos. E, na inquietação de querer inserir um tema tão difícil quanto a pandemia naquele momento num documentário que tratava prioritariamente de música e que transcendeu ao propor que através da música as pessoas questionassem suas vidas, seus sonhos e buscassem as respostas que não encontravam. Nesse contexto, a participação do rabino Guershon no documentário foi perfeita. Naquele momento, o rabino Guershon representou para mim um oráculo que eu estava buscando para ter respostas sobre o que eu não conseguia entender de tudo aquilo que estava acontecendo. Foi então que eu busquei no judaísmo, na figura do rabino Guershon, que considero, além de um ser humano extraordinário, uma pessoa de uma sensibilidade incomum e que, quando ele foi convidado para fazer aquela participação no documentário, trouxe a ideia do renascimento, através da proposta de imersão numa mikve, um ritual de banho que nos faz sair diferentes de quando entramos nele. Aquela cena foi concebida a várias mãos, inclusive pelo rabino, que nos trouxe a sugestão da mikve, ritual que simboliza a purificação, o renascimento, a ideia de trazer algo novo quando estamos sem respostas. Sim, foi muito importante a minha conexão religiosa para aquele momento. Foi um roteiro criado a partir da pandemia.
A cena do mergulho numa praia de Santa Catarina e que reflete o momento de angústia que eu estava vivendo me marcou muito. Eu estava no Egito com minha companheira quando a pandemia surgiu e, ao voltarmos, com o mundo todo se fechando, tivemos que ficar isolados na praia por 54 dias sem contato com ninguém. Depois fui a Porto Alegre para o encontro com o rabino e quando gravei a cena do mergulho no mar aquele momento foi muito forte, muito intenso e me marcou muito. Essa cena foi única, ao contrário de outras que foram gravadas muitas vezes. E naquele momento eu não podia errar. Então incorporei tudo o que ouvi do rabino e tudo o que representava aquele momento para mim. A cena em que corro e a do mergulho me conectaram de forma muito forte com o judaísmo.

Como pratico o judaísmo
Costumo praticar o judaísmo nas minhas rezas individuais, com a consciência de que sou judeu e tenho orgulho de sê-lo. Por diferentes circunstâncias, não vou à sinagoga com a frequência de que gostaria. Mas costumo ir nas principais celebrações, como o Pessach, o Rosh Hashaná, o Yom Kipur e Chanucá. Penso que tenho a responsabilidade de trazer à minha família o que aprendi com meus antepassados. E acredito que eu esteja fazendo isso de uma forma interessante e atraente. Por exemplo, com relação a esse meu filho mais novo começamos a preparação dele online, com o rabino Guershon, em julho de 2020 com a expectativa de ele fazer o bar-mitzva em 2021. Acompanhei as aulas semanais online com meu filho porque eu queria que ele soubesse a importância que eu estava dando àquele momento. E é sempre bom ouvir as histórias de nossas origens, de nossas raízes, e isso fica na memória para sempre.
Estou morando agora em Florianópolis e já convidei o rabino Guershon para passar uns dias conosco para aproveitar o verão e conversarmos sobre judaísmo com a família. Eu prefiro não ficar tão preso aos processos tradicionais e sim disseminá-los de uma forma mais sútil, mais leve para engajar meus filhos, especialmente o mais novo que está muito ligado às novas tecnologias, e para que tenham um espaço para receber o que eu recebi desde muito cedo. E quando eu digo que tenho orgulho de ser judeu, é algo que vem de dentro de mim, mas procuro passar esses princípios à família de forma leve. A minha filha, por exemplo, não casou com judeu, mas meu genro concordou que o filho deles fosse circuncidado por um rabino. Isso me gratifica e me dá a segurança de que o que eu estou passando está funcionando.

Antissemitismo
O antissemitismo, infelizmente, nunca deixou de existir. O que há hoje é uma consciência e um alerta do que aconteceu no Holocausto. Mas dizer que com o fim do Holocausto acabou o antissemitismo seria uma cegueira. O que vemos hoje são as redes sociais disseminando o ódio, o preconceito, até por serem extremamente democráticas e muitas vezes irresponsáveis. Acho muito triste qualquer tipo de racismo, de perseguição, porque mostra que, com tantos milhões de anos de existência, a humanidade pouco aprendeu. Ainda estamos muito longe de sermos pessoas melhores. Penso que temos um desafio permanente, enquanto houver racismo, discriminação e antissemitismo, de nos manifestarmos e não apenas assistirmos e nos intimidarmos. Confesso que me sinto muito ferido quando vejo uma manifestação de preconceito, seja ela dirigida a um judeu, ou negro, ou por qualquer outra condição. Somos iguais na essência e é inadmissível pensar que a cor da pele ou uma religião possam ser melhores ou piores que outras.