Ícone do jornalismo, Zevi Ghivelder conta como foi cobrir a guerra de Yom Kipur e o julgamento do nazista Adolf Eichmann

Zevi Ghivelder nasceu no Rio de Janeiro, em 28 de abril de 1934. Embora formado em Direito, dedicou sua vida ao jornalismo. Em 1959, antes de ir a Israel cobrir o julgamento do nazista Adolf Eichmann, em Jerusalém, Ghivelder inaugurou, em parceria com Arnaldo Niskier e Arnaldo Cherzman, o primeiro programa de TV judaico, chamado “Israel em foco”, na TV Rio. Foi redator de programas de televisão, produziu várias atrações no campo da teledramaturgia, foi diretor do grupo Manchete e dos telejornais da Rede Manchete de Televisão. É autor dos livros “As Seis Pontas da Estrela”, “Missões em Israel” e “Sonetos Atentos”. Em entrevista à CONIB, ele falou sobre as coberturas que fez do julgamento de Eichmann, da guerra do Yom Kipur, de entrevistas com personalidades de Israel e do mundo judaico, sobre sionismo, antissemitismo, sobre os Acordos de Abraão, o conflito israelo-palestino e sobre como exerce o seu judaísmo. Veja a seguir:

Julgamento de Eichmann

Isso foi na pré-historia, em 1961, Eu era muito jovem, tinha muito pouco tempo de jornalismo, mas, como todos os judeus do mundo, fiquei intensamente  mobilizado pela captura do Eichmann e antes de seguir para a cobertura do julgamento dele –  aliás tenho que registrar meu agradecimento à Manchete que confiou em mim com apenas dois anos de jornalismo para fazer essa cobertura em Jerusalém – eu me preparei, penso que bastante bem, pesquisando sobre o que tinha sido o Holocausto e a participação do Eichman, especialmente. Isso foi tão impactante para mim que eu tenho a memória muito viva de tudo o que aconteceu naquele julgamento.

O primeiro dia – 11 de abril de 1961 – eu estava sentado na plateia (era uma Corte e também plateia) num bom lugar: na fila H numero 18, do lado esquerdo de quem entrava e a jaula de vidro onde o Eichmann estava ficava a uns 15 metros de distância do meu lugar. E eu me lembro perfeitamente do momento em que Eichmann entrou pela porta dos fundos da jaula de vidro, ereto, e eu pude observar que a mão direita dele tremia ligeiramente. Penso que esse foi o único sinal de nervosismo que ele demonstrou durante todo o julgamento. Foi muito impactante acompanhar o julgamento todo. Fiquei muito impressionado com a frieza dele. Durante todo o julgamento ele não esboçou reações, mal se movimentava na cadeira, ficava sentado como um burocrata, com papeis na frente e uma caneta na mão, fazendo anotações, com a maior frieza. E, de vez em quando, colocava os óculos, talvez para ler melhor o papel, e depois os guardava. Eu só me lembro de uma vez, com o depoimento de um sobrevivente do Holocausto, em que Eichmann colocou a mão no bolso, pegou um lenço e passou no rosto. Não acredito que tenha sido para enxugar lágrimas.

Depois do primeiro impacto dos dois primeiros dias ao ver Eichmann naquela jaula, eu fiquei muito mais imbuído do meu trabalho, da minha necessidade de fazer uma boa cobertura. Ou seja, naquele momento eu fui muito mais racional do que emocional. Eu estava realmente concentrado em extrair o que havia de mais importante, de mais instigante na cobertura do julgamento.

Depois do julgamento eu fiquei muito envolvido ainda, talvez uns dois anos depois, em função do livro de Hanna Arendt, que participou da cobertura do julgamento, embora eu não a tenha conhecido. No livro, ela definia a atuação do Eichmann como tendo sido a banalidade do mal. Eu fiquei seis semanas acompanhando o julgamento e não vi nenhuma banalidade do mal. Pelo contrário, vi uma pessoa que tinha agido com perversidade meticulosa, com frieza meticulosa, com intenção de matar meticulosa. Nâo me pareceu nenhuma banalidade, mesmo porque já em 1937, dois anos antes do começo da guerra, o Eichmann foi à Palestina, para ver se conseguia deportar para a região judeus alemães e austríacos. Isso quer dizer que já dois anos antes do inicio da guerra o Eichmann já estava devotado à causa de se inteirar sobre o povo judeu. Portanto, ele já tinha planos de cometer aquela atrocidade. Desculpem, eu ainda me emociono quando lembro disso.

Guerra do Yom Kipur

 Eu consegui chegar a Israel três ou quatro dias depois do inicio da guerra. E ai aconteceu uma coisa muito interessante: um amigo meu, jornalista, me encontrou no mesmo dia em que cheguei e ele me disse: “Vamos ao quartel general, porque alguma coisa importante deve estar acontecendo. Lá, você entrevista o Arik (Ariel) Sharon e vê o que está acontecendo”. E naquela noite, quando eu estava no quartel general do Arik Sharon foi quando o exército de Israel fez a travessia do canal de Suez. Eu estava ali e não tinha conhecimento daquela travessia e se eu tivesse tido conhecimento teria sido um furo extraordinário. Mesmo assim, no dia seguinte eu fui para o Beit Sokolov – o centro de imprensa de Tel Aviv – e lá fiz uma boa amizade com o porta-voz do exército, cujo nome não lembro e que me disse: “Não é para divulgar, porque ainda falta confirmar, mas parece que o nosso exército atravessou o canal de Suez e neste momento está no Egito. Não posso te falar mais do que isso, mas vou te dar um conselho: os soldados feridos foram levados para o Hospital Hadassah, em Jerusalém. Vá ao hospital e veja se algum desses soldados pode te dar um relato sobre o que está acontecendo”. Foi o que fiz. Lá comecei a entrevistar os soldados feridos. E o hospital Hadassah tinha uma ala muito triste que era a dos queimados, para tratar os soldados que, quando atingidos dentro dos tanques, ficavam muito queimados. E lá eu presenciei um dos momentos mais emocionantes de minha profissão. Lá me disseram que o grande comediante americano Danny Kaye estava em Israel e iria ao hospital Hadassah para ‘levantar a moral’ dos feridos. Eu esperei chegar o Danny Kaye e, com o gravador na mão, fui acompanhando a visita, enquanto Kaye falava com os soldados cada um em seu leito. Lá, nos deparamos com um um rapaz muito jovem que não tinha o braço direito e a perna esquerda. Danny Kaye, sempre que se aproximava de algum soldado ferido, fazia alguma graça, mas quando se aproximou desse soldado sem um braço e sem uma perna ele não soube o que dizer. Ele hesitou por alguns instantes e o soldado ferido se adiantou e disse: “Danny Kaye, que prazer enorme conhecer você. Sou seu grande fã, você é um ator extraordinário. Muito obrigado por estar aqui. Desculpe, mas me falta a mão direita para apertar sua mão”. Fiquei muito emocionado naquela ocasião e agora também.

Eu não fui nenhum herói. Estávamos acostumados a ver a guerra em filmes de Hollywood, mas a realidade é muito diferente. Eu fui ao Golã no dia em que estava acontecendo uma batalha lá. E, sinceramente, não vi nada lá. Apenas ouvia os tiros de canhão e quando um desses tiros acontecia próximo de onde eu estava passava um vento quente. Eu sabia que estava acontecendo alguma coisa, eu sabia que Israel estava atirando de um lado, que os sírios estavam atirando de outro, mas confesso que não vi. Eu apenas sabia que estava acontecendo por ter entrevistado alguns soldados e alguns oficiais envolvidos naquela operação. Mas aquela guerra que vemos nos filmes, com explosões e estilhaços, isso eu não vi.

Entrevistas

Eu realmente entrevistei grandes personalidades de Israel. Entrevistei Isaac Rabin, em 1969, tive encontros com Shimon Peres. E, sem nenhuma vaidade, fiquei muito amigo de Arik (Ariel) Sharon. Ouvi dele muitos relatos e apreciações sobre a guerra do Líbano, do Yom Kipur, sobre a sua trajetória militar. O Ariel Sharon foi a personalidade que mais me impressionou por eu ter tido o privilégio de ter a amizade dele. Aliás, sou muito grato a minha profissão por ela ter me dado a oportunidade de conversar com tanta gente tão interessante pelo mundo afora. Uma entrevista rápida que fiz, mas muito intensa, foi com o escritor Bashevis-Singer, escritor judeu norte-americano que escrevia em iídiche e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Fui apresentado a ele num coquetel do American Jewish Committee em Nova York e conversei em íidiche com ele. Nesse encontro, Bashevis-Singer se dirigiu às pessoas que estavam em volta, afirmando: “Vocês estão vendo por que o íidiche nunca vai morrer como idioma? Vem um rapaz do Brasil e conversa comigo em íidiche”. Essa conversa foi muito interessante. Também tive uma ótima conversa com Henry Kissinger quando ele esteve aqui no Brasil. Ele estava voltando da Argentina, onde ele tinha ido assistir ao final da Copa do Mundo de 1978. Ainda que pareça insólito, a minha conversa com Kissinger foi mais sobre futebol do que sobre política.

Em 1975, quando teve o voto (na ONU) comparando o sionismo com racismo, o embaixador de Israel na ONU era o Chaim Herzog, que depois foi presidente de Israel. E Herzog fez um gesto teatral na ONU. Ele foi para o pódio, pegou o documento que comparava o sionismo com racismo e rasgou durante a Assembleia Geral da ONU. Essa entrevista que fiz com ele foi muito boa. Na ocasião ele disse uma frase que eu cito até hoje. Ele afirmou que o antigo antissemitismo dizia que o judeu não tem lugar na sociedade e o moderno antissionismo diz que Israel não tem lugar no mundo.

Acordos de Abraão

Essa questão (do conflito com os palestinos) realmente se insere nos Acordos de Abraão. Eu acompanhei essas acordos à distância e não posso dizer que eu tenha tido fontes adicionais além de alguns e-mails que troquei com amigos em Israel. Mas acho que os acordos são muito importantes para toda a região porque garantem uma sobrevida de paz para os próximos anos, Mas o mais importante desses acordos é que eles evidenciam que a questão palestina já não é mais a prioridade dos países árabes. Durante os últimos 50 anos, os países árabes diziam que não poderiam fazer qualquer acordo com Israel, enquanto não for solucionada a questão com os palestinos. Agora países como os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos especialmente, e Sudão aderiram aos acordos, que não foram exatamente de paz porque não houve guerra (com Israel), foi apenas uma normalização de relações diplomáticas. E esta normalização mostrou que o mundo árabe já não coloca a questão palestina como prioridade para fazer qualquer tipo de acordo com Israel. Quanto à questão palestina existe um mito com relação aos territórios ocupados. Mas, no meu entender, o problema com os palestinos não é de ordem territorial. Se assim fosse, já teria sido resolvido, como quando Israel ocupou o Sinai e Beguin propôs a (Yasser) Arafat a retirada da região. Isso evidenciou que a questão não é territorial e sim política. Os palestinos dizem que não vão fazer qualquer acordo com Israel enquanto os territórios estiverem ocupados. E a primeira oficialização do recurso ao terrorismo foi através da OLP (Organização de Libertação da Palestina), liderada por Arafat. Esta organização foi criada em 1964 e a guerra dos seis dias só aconteceu três anos depois, em 1967. Por que então desde 1964 havia terrorismo contra Israel por parte dos palestinos¿ Penso que a questão palestina não vai ser resolvida politicamente. Penso que existe um ódio de caráter religioso, como eles (os palestinos) dizem. E esse ódio religioso não deve desaparecer a curto prazo.

Conversa com Rebe Lubavitch

Esse foi outro momento emocionante e eu até me desculpo por não tê-lo citado nas personalidades que conheci. Eu não sou particularmente religioso, mas tenho um enorme respeito pelo Rebe e considero extraordinário o trabalho que o Lubavitch faz no mundo inteiro pela sobrevivência do povo judeu e do judaísmo. Tive a oportunidade de ‘furar a fila” e ser levado à presença do rebe e fiz a ele uma única pergunta em íidiche. Perguntei a ele sobre o que achava que eu devia fazer para os meus filhos, crianças naquela época, serem felizes. E a resposta dele me emocionou muito, sobretudo quando ele destacou a importância do papel da mulher na educação dos filhos e na constituição do lar judaico. Foi um momento muito tocante e particularmente importante para mim.Tenho muito orgulho de ter tido essa conversa com ele.

Judaísmo

 Minha família é originária da Rússia, meu avô saiu da Ucrânia e foi para a Bessarábia e lá foi um grande líder sionista. Ele foi para a Palestina em 1933 e acabou morrendo num acidente de carro em Tel Aviv quatro anos depois, em 1937. E tudo o que sei sobre meu avô foi através do relato do meu pai, que sempre me falou sobre o ardor sionista que o pai dele tinha. E acho que herdei esse ardor sionista. Posso dizer que exerço o meu judaísmo de forma sionista. Sou um sionista convicto e digo mais: considero que o renascimento da nação judaica dois mil anos depois da dispersão, sem qualquer chauvisnismo, é um dos maiores eventos na história da humanidade de todos os tempos. A trajetória judaica é uma trajetória atípica. Tudo o que nos aconteceu durante os nossos quase seis mil anos são eventos atípicos. Não era de se imaginar que um povo que esteve no exílio durante dois mi anos pudesse reconstruir a sua pátria no mesmo lugar onde ela nasceu. É preciso não esquecer que fizeram diversas tentativas de uma pátria judaica em outros territórios, mas a nação judaica renasceu no mesmo lugar em que tinha nascido. Isso é quase inacreditável. Então a minha formação é de caráter eminentemente sionista. Muita gente me pergunta o que é sionismo¿ A minha mulher me deu uma definição muito boa sobre o que é sionismo: ser sionista é carregar no bolso a chave de casa. Essa chave de casa eu carrego no bolso. Espero que, uma vez radicado fora de Israel e depois de tantos anos e na idade em que estou, que não aconteça nada que me obrigue a fazer uso dessa chave, mas sei que ela está lá, no meu bolso. Isso para mim é o sionismo e acho que é sionismo para todas as pessoas.

Antissemitismo

Gosto de lembrar uma frase cunhada pelo próprio Theodor Herzl, que escreveu que o antissemitismo é uma doença social e que a encara sem ódio e sem medo. E essa ressurgência do antissemitismo no mundo tem a ver com a ressurgência também da direita, desde a eleição do (Donald) Trump, em 2016. São mais de quatro anos de uma doutrinação de direita no mundo inteiro e não basta ser de direita para ser antissemita. O antissemitismo se espalha desde a direita até a esquerda. E quando eu digo de esquerda é porque o antissemitismo foi uma política de Estado da antiga União Soviética. E eu considero o grande perigo do antissemitismo quando ele é incentivado, tolerado ou cooptado por algum país, por algum governo. Felizmente não temos hoje no mundo nenhum país em que o antissemitismo seja uma política de Estado. Mas existe sim, grande quantidade de pequenos grupos que se auto-intitulam neonazistas e não têm nada a ver com o nazismo. São apenas antissemitas, que, em função da ascensão da direita nos últimos anos no mundo inteiro, perderam a vergonha de serem contra os judeus. Eles odiavam os judeus em silêncio. Acho que esse é um fenômeno pontual, não acredito que esse antissemitismo vá prosperar, porque, como eu disse, não vejo nenhum país, nenhum governo que esteja incentivando isso. Muito pelo contrário, os governos do Ocidente estão sim combatendo o antissemitismo, criando leis e cerceando todas as atividades antissemitas. Por outro lado, onde existe antissemitismo declarado e ostensivo é nos países árabes. Recentemente, acompanhei pela internet uma cena estarrecedora: numa manifestação de palestinos na margem ocidental era carregada uma bandeira com a suástica. Acho que grande parte do antissemitismo no mundo é efeito da grande mobilização em favor dos palestinos. Essas manifestações pró-palestinos e antissemitas se juntam nas ruas de muitas cidades do Ocidente e envolve como massa de manobra muita gente que não sabe exatamente contra o que está protestando e acaba engrossando essa corrente antissemita.

“Israel em foco”

Isso foi um arroubo da juventude. Foi em 1958. Éramos praticamente três adolescentes judeus: eu, o Arnaldo Niskier e o Arnaldo Cherzman. Nós nos juntamos e fomos falar com o diretor da então TV Rio, que era meu amigo, Walter Clark, que depois foi diretor da TV Globo. Nós fomos falar com ele sobre a possibilidade de obter um patrocínio para o nosso programa Israel em foco. E o Walter nos deu um horário ótimo no domingo por volta do meio-dia. Acho que até fizemos um trabalho bastante interessante, com entrevistas, novidades e alguma coisa de música. Eu mesmo editava. Mas não me lembro quanto tempo durou o programa. Penso que por uns dois anos mantivemos o programa no ar. Depois conseguimos um pequeno patrocínio, que conseguia pagar as despesas. E quando o patrocínio acabou perguntei ao Walter o que faríamos e ele disse: “Podem continuar que o programa está dando audiência”.

Ultimamente eu tenho escrito artigos para a revista Morashá que me dão muito prazer em escrever. Há 30 ou 40 anos atrás todas as semanas, todas às sextas-feiras, eu reunia um grupo de jovens no Rio para fazer palestras. Hoje em dia encontro pessoas que me abordam dizendo que assistiam as minhas palestras. A minha atividade sempre foi muito constante, muito intensa. Em 1980 fui eleito presidente da Organização Sionista do Rio de Janeiro. Essa atividade sempre fez parte da minha existência e, sinceramente, sem fazer apologia de mim mesmo, de tudo o que fiz ao longo de tantos anos de atividade sionista, se eu consegui contribuir com 0,00001 por cento para a sobrevivência do povo judeu, isso me gratifica e me faz muito feliz. Sei que esta entrevista ficará gravada, vai fazer parte do acervo da Conib e espero sinceramente – e sem nenhuma pieguice – que um dia os netos dos meus netos possam me ver falando tudo o que falei hoje.