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Incentivar a leitura é um projeto de vida e legado para as futuras gerações, diz José Luiz Goldfarb 

Graduado em Física pela Universidade de São Paulo (1978), com mestrado em Filosofia e História da Ciência na universidade canadense McGill e coordenador de projetos de incentivo à leitura, o professor universitário José Luiz Goldfarb fala à CONIB sobre a sua origem e trajetória, desde o ativismo estudantil na USP no final do regime militar, em favor da retomada da UNE (União Nacional dos Estudantes) e do DCE (Diretório Central dos Estudantes), até ser indicado diretor de cultura judaica no Clube A Hebraica, em 1994, e sua atuação na PUC, como responsável pela cátedra de cultura judaica. Para ele, a dedicação ao estudo e à busca do conhecimento é uma tradição judaica e o incentivo à leitura um legado para as futuras gerações.

Origem: 

Sou descendente de judeus poloneses. Meu pai nasceu na Polônia e veio muito pequeno, ainda criança, entre três e cinco anos, foi morar com meu avô e posteriormente com os irmãos em Novo Horizonte, uma cidade muito pequena que só ficou conhecida por causa do time de futebol Novorizontino que apareceu num campeonato paulista com certo furor. Nessa ocasião meu pai ainda era vivo e ficou super feliz de ver o Noorizontino aparecer. Pelo lado paterno e materno, descendo de poloneses que foram pelos caminhos do imigrante, no final dos anos de 1920. Portanto, uma leva bem anterior a ascensão do nazismo. Pelo lado materno, descendo de poloneses da região da fronteira com a Ucrânia. Minha avó ainda falava um pouco de russo e vieram para o Brasil e se instalaram em Araçatuba, interior de São Paulo, onde minha mãe nasceu. E, como outros filhos de imigrantes, acabaram vindo para a capital, São Paulo, para estudar. Meu pai fez a Poli, com muito orgulho, já que era de uma família simples, e minha mãe Mackenzie. Era comum na época as mulheres fazerem o curso Normal, ou Secretariado. E foi nesse meio estudantil que meus pais se conheceram, namoraram e se casaram. Sou o segundo filho, nasci na capital, na Pró-Matre Paulista, perto de onde meus pais moravam. Depois eles foram morar nos jardins – na rua Joaquim Eugênio de Lima – e, em seguida, mudaram para outro local, numa rua pequena (Iramaia), em frente ao Shopping Iguatemi, por causa da proximidade com o Clube A Hebraica.

Hebraica, CIP e USP 

E por isso minha vida sempre esteve muito entrelaçada com a Hebraica. Comecei a frequentar o clube muito cedo. Lá desde pequeno ficávamos livres o dia inteiro, jogando bola, fazendo amigos e começando uma certa trajetória na comunidade judaica. Foi nesse espaço que cresci e hoje sou diretor de Cultura Judaica do clube. Em quase 30 anos, consolidamos uma sinagoga dentro do clube, fizemos muitos eventos – com a CONIB e outras instituições judaicas. Enfim, o clube se tornou uma pequena cidade. Tenho uma vida que não é exatamente padrão, porque tanto o meu pai, lá de Novo Horizonte, como minha mãe, de Araçatuba, tiveram uma vida judaica muito carente de conteúdo, típica da primeira geração de imigrantes que chegaram buscando em primeiro lugar a sobrevivência até estabelecer vínculos maiores com a comunidade. Ambos não tiveram uma formação sólida, nem religiosa, e nem dentro da cultura judaica de um modo geral. Mas ambos buscavam um casamento dentro da comunidade, tinham a preocupação com a preservação do judaísmo, embora sem um conhecimento mais profundo. Eram pessoas muito instruídas e, claro, tinham o conhecimento através da leitura, o que marcou muito a minha vida, uma vez que sempre estive envolvido em atividades de incentivo à leitura, nas secretarias de cultura, de educação. Fui dono da livraria Belas Artes, que era uma espécie de farol de intelectuais e de pessoas que gostavam de ler. E foi através dessa livraria, na avenida Paulista, que eu conheci dezenas de pessoas, ou seja, muito antes de existirem as redes sociais eu já estava conectado a muitas pessoas. Fui um livreiro à moda antiga, aquele que indica leituras de acordo com o gosto do cliente. Foi assim que fui criando essa interação com centenas de pessoas.

Pela preocupação de meus pais com o judaísmo, eu tive a oportunidade de frequentar a Hebraica desde pequeno, de ter tido ensino religioso na Congregação Israelita Paulista, o que muito me marcou, porque eu tinha a escola pela manhã e o aprendizado na CIP à tarde. Eu preferia ter tido o caminho de meus irmãos menores que estudaram em escola judaica e lá tinham tudo. Mas minha mãe, preocupada com a qualidade do ensino, me colocou na Escola Elvira Brandão, que era uma referência na época. Claro que eu fiquei sobrecarregado com as duas atividades, mas isso teve o lado bom, porque eu sempre fui muito curioso e pude ir mais fundo em questões judaicas com o ensino na CIP. Acompanhei também os primeiros conflitos em Israel – guerra dos Seis Dias, Guerra do Yom Kipur -, com meu radinho de pilha, ou seja desde pequeno já tinha uma ligação forte com o Estado judeu, com minhas raízes judaicas.

Mais tarde, entrei na USP. A família ficou um pouco dividida: meu irmão foi trabalhar com meu pai na construção civil e eu fui para o lado mais intelectual. Estudei física, tive aquela vontade de ser cientista de estudar a natureza, conhecer em profundidade o mundo em que vivemos. Como estudante na USP, nos anos 1970, pude frequentar dois cursos – naquela época a Universidade de S.Paulo permitia que se fizesse isso. Então de dia eu fazia física e à noite filosofia. Tive uma vida estudantil intensa e cheguei a me envolver com movimentos que tentavam resgatar as atividades estudantis, como a UNE (União Nacional dos Estudantes), o DCE (Diretório Central dos Estudantes), que estavam proscritas pela ditadura. E foi nesse meio que conheci minha esposa, com a qual estou casado há 40 anos.

A vida de livreiro 

Naquela época estava surgindo um curso novo, de História e Filosofia da Ciência, que eu optei por me especializar. Logo que terminamos a graduação, eu consegui uma bolsa, através do governo de São Paulo, para estudar no Canadá. E formos para Montreal e lá ficamos por quatro anos até eu concluir a pós-graduação. Ao voltar, segui minha vida aqui, na PUC-SP, atuando na área de História e Filosofia da Ciência e História da Tecnologia. Essa era a minha praia inicial como profissional. Como eu sempre fui de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, acabei comprando a livraria Belas Artes, que era um local importante na avenida Paulista, perto da Livraria Cultura, região que era um centro de efervescência da intelectualidade de São Paulo. Foi um período em que o Brasil começava a se abrir, sair da ditadura. Foi então que, como livreiro, busquei um professor de hebraico, porque eu queria ler manuscritos do físico Isaac Newton, cuja obra foi uma descoberta tardia minha. Mas eu queria conhecer mais sobre aquele que foi um grande homem da ciência, matemático, experimentalista e que, para embasar suas teorias, se aprofundou na Cabala. Isso influenciou Newton em sua teoria da gravitação. Como físico, eu me interessei por essa descoberta e resolvi estudar a temática da influência cabalista na teoria de Newton. E foi com o Moré Simão Amar, de origem marroquina, que eu estudei e me aprofundei no hebraico. Isso foi em meados de 1992. Lembro bem porque foi nesse ano que teve o congresso organizado pela Anita Novinsky na USP e, mesmo eu sendo da PUC, eu e minha esposa, ela me convidou para eu cuidar da parte de História da Ciência. Eu acabei virando tesoureiro do congresso, que foi gigante e que fez com que eu me aproximasse muito dos intelectuais da comunidade, porque dentro do América 92, Anita fez um Confarad de 92. Foi quando ela começou a mostrar a presença judaica nas Américas.

Todas essas questões me influenciaram e, em dado momento, acabei fazendo a ponte entre o Moré Amar, que queria ser chazan na então nova sinagoga da Hebraica e a diretoria do clube. Foi então que, por meio de um acordo, eu também passei a frequentar a sinagoga aos sábados pela manhã junto com o Moré Amar. Após algumas semanas, ele conseguiu o emprego que queria, de chazan na nova sinagoga, e eu fui indicado para ser o novo diretor de cultura judaica da Hebraica a partir do ano de 1994. E isso já vai fazer 30 anos que estou nessa função. Acabei transformando aquele curso de hebraico para entender Isaac Newton num curso de judaísmo intensivo e isso incluía a abordagem de festas, costumes, Torá, Talmud etc. E aí a minha aula de hebraico acabou prejudicada, mas segui adiante.

A PUC e Mário Schenberg 

Na PUC a minha área é a História da Ciência. E tudo começou há cerca de doze anos: eu estava numa cerimônia de Natal, na reitoria, e o reitor, junto com os padres da Fundação São Paulo, que administram a universidade, me chamaram para dizer que gostariam que eu formasse um núcleo de estudos judaicos na instituição. Já tínhamos tido alguma coisa de cultura judaica através de Leon Fefer e a Associação Universitária de Cultura Judaica. O Leon patrocinava para que existisse o curso de hebraico e de cultura judaica em várias universidades. Em algumas a coisa deslanchou, como é o caso da USP. Na PUC teve, mas depois que o Leon saiu o curso acabou. Foi então que os padres e o reitor me disseram que era necessário formar um núcleo de estudos judaicos, porque todas as universidades católicas do mundo interagem com a Universidade Hebraica de Jerusalém, com os estudos judaicos. Portanto, disseram eles, a PUC precisa ter um núcleo de estudos que promova o judaísmo. Eu argumentei que não era um especialista no assunto, mas eles insistiram para eu ser o articulador. Foi então que eu fui designado o responsável pela cátedra de cultura judaica e através dessa cátedra até hoje promovemos cursos, como a recente parceria com a Unibes, ou através da Fundação Arymax, ou do Banco Daycoval, instituições que doam para Unibes e costumam dar uma pequena fatia também para a PUC. A Unibes então contrata professores para dar aulas de história judaica, cultura judaica, tradução bíblica, hebraico bíblico e também, de vez em quando, com o apoio de outras instituições como a CONIB e a Fisesp, fazemos grandes eventos comemorativos. Isso tem ajudado a elucidar algumas questões, como a do conflito israelo-palestino, tema muito questionado nos meios universitários. A cátedra procura fazer o contra-ponto nessas questões e expor a situação de forma mais equilibrada, mostrando aspectos da história pouco divulgados e que explicam a posição israelense no conflito. Hoje a cátedra de cultura judaica da PUC alcança em média 200 alunos por ano. E quando há determinados eventos específicos, como seminários, ou palestras, esse número chega a mais de cem em cada evento. Na aula de estudos bíblicos já tivemos de 40 a 60 alunos em sala de aula.

Após retornar da minha pós no Canadá decidi editar o Mário Schenberg. É um grande cientista e vi que ele tem centenas de pensamentos publicados, mas nunca escreveu um livro. Foi então que me interessei em gravar alguns de seus estudos, palestras e análises sobre história, religião, ciência, psicologia e transformá-los em livro. E essa foi a minha entrada para o mundo dos livros. A partir daí eu nunca mais me livrei dessa peste maravilhosa, que também é muito judaica.

Presença judaica 

A contribuição dos judeus ao Brasil é muito grande e cada vez descobrimos um alcance maior dessa presença, porque fomos colonizados, moldados, nesse país por uma população que, se não era totalmente judia, por causa da Inquisição, tinha alguma origem judaica. Portanto, a presença judaica no Brasil é muito forte e está impregnada em vários setores. No mundo a presença judaica chega a ser contraditória, porque, ao mesmo tempo em que desperta o apreço de muita gente, desperta também o ódio e o preconceito. O antissemitismo, nós, como povo judeu, conhecemos e vivenciamos desde o tempo da Babilônia.

Mas os judeus têm uma característica muito bonita que é a união. Apesar de divergirmos em muitos aspectos nós nos apoiamos e nos unimos quando há uma ameaça comum. E isso está na Torá: ajudar alguém que cai. Penso que esse é um grande exemplo judaico. Outra característica nossa é a capacidade de realizar, projetos, eventos. E isso também está na Torá.

Antissemitismo e antissionismo 

Não há como separar as duas coisas. Atacar, criticar, Israel é atacar os judeus. Hoje em dia, mesmo os mais ortodoxos têm uma ligação muito forte com Israel. E mesmo espalhados pelo mundo, nós judeus temos uma referência muito forte em Israel, diferentemente do que viveram os nossos antepassados na Europa durante a Segunda Guerra. A nossa sobrevivência passa pela sobrevivência de Israel. E aí entra o nosso papel de explicar os pontos de vista de Israel diante de conflitos. Já tive alunos que, no final de um curso, me disseram que tinham uma visão muito ruim de Israel e que mudaram de opinião no decorrer do aprendizado, do conhecimento.

O que vejo é que muitas vezes o antissemitismo ganha espaço pela ignorância das pessoas. Por isso a importância do nosso papel, de informar, mostrar o lado de Israel e o porquê de alguns posicionamentos.

Também o mito do judeu rico precisa ser desfeito. Temos entre nós, assim como em todas as demais comunidades, pessoas ricas, pobres, trabalhadores de diferentes segmentos. O que temos que mostrar é essa tradição de princípios, de ajuda mútua.

As pessoas de um modo geral têm muita curiosidade sobre os judeus. Na PUC, por exemplo, a grande maioria dos alunos de cursos de cultura judaica não são judeus. Às vezes aparece um ou outro judeu que está voltando a suas origens, fazendo teshuvá, mas são exceções.

Leitura e estudo 

Entrei nessa questão de incentivo à leitura por indicação da Claudia Costin. Ela me fez a proposta porque sabia que eu tinha tido livraria – a Belas Artes – localizada num local – a avenida Paulista – que, além de receber leitores assíduos também recebia pessoas que estavam se iniciando na leitura. Claudia me disse: ‘Você é um formador de leitores e é isso que preciso nas secretarias que vou atuar’. Ela atuou nas secretarias da Cultura de São Paulo, da Educação do Rio de Janeiro e através da Fundação Civita num projeto em quatro estados do Brasil. O objetivo de todos esses projetos era o de incentivar a leitura. E esse a meu ver é algo que precisamos investir para que seja um hábito brasileiro. Dizem que até mesmo Golda Meir, grande estadista de Israel, dizia quando havia escassez de recursos por causa de algum conflito: “Podemos até economizar em comida num determinado kibutz, mas a biblioteca daquele local tem que ser muito boa”. Isso mostra que a educação é uma prioridade para os judeus e Israel soube investir bem nessa área, por isso o pais se tornou referência em tecnologia e ciência. Essa entrega ao conhecimento é fundamental, inclusive para o desenvolvimento e riqueza de um país e leitura e estudo são as bases disso.

A Universidade Hebraica de Jerusalém, por exemplo, é de 1925, portanto anterior à criação do Estado de Israel, assim como o Instituto Weissman. E qual é o país que tem uma universidade muito antes da criação de seu Estado? Isso só mostra a importância que Israel dá à educação.

Aqui, no Brasil, tivemos um grande incentivador judeu à leitura que foi o José Mindlin, que tem uma linda biblioteca na USP, fruto de seu próprio acervo particular. Foi ele quem me apoiou para dar continuidade ao projeto de incentivo à leitura junto com a Claudia (Costin) dizendo: “Esse é um projeto de vida e um legado para as futuras gerações”. E esse é meu lema e meu recado aos jovens. Apesar de todos os conflitos que vivenciamos atualmente – guerra na Ucrânia, pandemia (de Covid), crise do clima –, a história judaica é um exemplo de superação que deve ser seguido sempre e sob quaisquer circunstâncias.