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Isaac Karabtchevsky: dono de uma alma judaica como as sinfonias de  Mahler

Impossível dissociar o maestro Isaac Karabtchevsky da música. Um dos maiores expoentes da regência no Brasil, em sua conversa com a CONIB ele fala justamente desta relação da música com o judaísmo. Uma relação historicamente evidente, já que a presença de intérpretes e compositores judeus no campo da música clássica é significativa. “É claro que a minha herança (musical) veio do judaísmo”, diz ele sem titubear. “O judaísmo, enquanto cultura e tradição, impregna a todos nós que vivemos sob o seu signo”.

O maestro elege Gustav Mahler como o maior compositor judeu: “ Um grande compositor judeu. E se você ouvir, você se impregna dessa atmosfera do judaísmo, presente até na reprodução melódica de alguns cantos do folclore judaico da baixa Áustria”, explica. Para Karabtchevsky, a música judaica é muito particular.

Ao longo da conversa ele cita os pais que vieram da Rússia e se conheceram e casaram em São Paulo. Da relação com a mãe, que cantava, da família, pais e irmãos, que imigraram para Israel. Fala que se iniciou tocando piano, mas a família não tinha meios para comprar o instrumento. E ele adotou o oboé, que o fascinava. Ainda mantém um em casa, ao qual recorre vez ou outra. Conta que a família nunca foi religiosa, mas lembra das festas passadas na casa de familiares no bairro do Bom Retiro. “O judaísmo sempre esteve presente”. Tanto assim que abriu caminho para o sentido político de ter Israel como ponto de fixação do povo judeu disperso pelo mundo.

Aos 20 anos, viveu um dilema. Ganhou uma bolsa para estudar na Alemanha. Era 1957. “Pensei com muita relutância em aceitar o convite de um país recém saído da Segunda Guerra Mundial onde a tônica era o antissemitismo feroz que resultou nos campos de concentração e na morte de tantos patrícios”.  Mas, foi com o sentimento de que ele tiraria dos alemães o que de bom eles tivessem a oferecer. Ele sabia também que boa parte dos professores do conservatório não era nazista. Pelo contrário, tinha sido afastada e retornado às funções após a guerra. Mas foi lá que sentiu o preconceito. “No Brasil nunca senti de forma tão evidente como fora. Havia manifestações de antissemitismo explícito que eu via na rua.”. Ele ficava revoltado. Mas decidiu ficar e continuar os estudos. Neste aspecto, uma experiência muito rica, que o leva a crer que fez a escolha correta.

Perto dos 40 anos, foi convidado para ser o regente titular de uma orquestra em Viena. Sim, a terra de Mozart, de Mahler. Era a primeira vez que seria o maestro principal de um conjunto europeu. Lá também viu manifestações antissemitas nas ruas. Mas, apesar deste desconforto, a experiência foi mais suave do que a da juventude. Ele foi bem recebido pelos músicos e pelo público.

Quando pensa em como definir o seu judaísmo, o maestro fica mais filosófico e cita o escritor Stefen Zweig: “Como diz o escritor, o  judaísmo é a forma de abordagem e a consciência do todo”. “É a consciência de tudo que nos cerca, do passado que herdamos, nem sempre glorioso, mas cercado de desafios que nos mantiveram unidos” ele diz. “O todo a que se refere Zweig é o nosso passado, aquele refletimos sem nos dar conta”. “O judaísmo é essa inconsciência e consciência”.

E se ele pudesse traduzir seu judaísmo em música? O maestro aponta duas sinfonias. De Mahler. A Primeira e o adagio da Nona. “A primeira, uma exaltação de alegria, de construir, do homem tocando o seu destino. A outra, Mahler já tendo sido afrontado pelas primeiras manifestações de doença cardíaca que o levaria à morte meses mais tarde”.