Israel colhe os frutos do compromisso com a ciência, diz Claudio Lottenberg em artigo na Veja

A falta do abraço, de olhar diretamente nos olhos dos amigos e da família, está certamente entre os maiores danos que a pandemia de Covid-19 causou à vida e à saúde das pessoas. Esse pesadelo, no entanto, está mais perto do fim em Israel, que neste domingo 18 se tornou o primeiro país do mundo a autorizar a livre circulação em espaços abertos sem o uso de máscara. Isso porque está muito próximo da chamada imunidade de rebanho.

O país tem pouco menos de 837 mil casos e cerca de 6,3 mil óbitos. Mas já foram aplicadas 10,2 milhões de doses (ao menos uma) de vacina a 5,3 milhões de pessoas, o que corresponde a cerca de 56% da população do país. Se considerados os cerca de 15% da população que estão recuperados (ou seja, já têm ao menos os anticorpos), o total chega a 71%. A imunidade de rebanho fica entre os 65% e 70% da população imunizados contra a doença.

A vacinação foi um caso de particular excelência em Israel: em 31 de dezembro, o país já era o quarto em número de doses administradas (pouco mais de 949 mil), atrás de China, EUA e Reino Unido. Não apenas isso, o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, foi o primeiro vacinado no país.

Ressalte-se que a liberação se dá apenas para os espaços abertos: em espaços fechados – que favorecem a disseminação do vírus Sars-Cov-2 –, a máscara ainda é uma exigência. Mas nas ruas as pessoas já podem se aproximar, frequentar o comércio, museus, áreas públicas. Após um ano da mais grave crise sanitária global desde a gripe espanhola de 1918, a volta ao normal é motivo de alegria e alívio não só em Israel, mas no mundo todo.

Isso porque sinaliza que sim, protocolos orientados pela ciência funcionam. O primeiro caso de Covid-19 no país foi registrado em 21 de fevereiro do ano passado; em cerca de 30 dias, o total de casos confirmados passou de mil. O governo israelense implementou medidas de restrição de circulação e, entre abril de 2020 e fevereiro deste ano, adotou o lockdown por três vezes. Nesse período, o que se observou foi que as restrições impostas levavam efetivamente à redução de casos. Por exemplo, após chegar aos 4 mil, medidas restritivas foram adotadas e, do pico de mais de mil casos diários, chegou-se a pouco mais de 100 novos confirmados em 30 de abril do ano passado.

Uma restrição como um lockdown não é do tipo “one size fits all” (“tamanho que serve para todos”). Há que se levar em conta especificidades locais. No caso do Brasil, a mais óbvia, comparando-se com com Israel, é que o território deste é uma fração do brasileiro. Além disso, medidas restritivas, mesmo as mais brandas (comparando-se, de novo, com as que foram implementadas em Israel), têm efeitos econômicos que não podem ser relegados ao segundo plano. Mas, com coordenação nacional, seria possível conter a disseminação do vírus. Da forma como têm sido feitas por aqui, as restrições podem até ter efeitos positivos locais – mas a efetividade nacional continua distante.

Não foi sem reflexos em sua economia, claro, que Israel combateu o coronavírus. O PIB (Produto Interno Bruto) israelense sofreu contração de 2,6% – o que, se é relativamente pouco à luz de outros países (o Brasil, por exemplo, sofreu recuo de 4,1%), ainda assim é uma queda acentuada para uma economia que vinha crescendo acima de 3% já há algum tempo. O Banco de Israel (banco central do país) estima que o impacto foi bastante intenso sobre autônomos e pequenas empresas, que tiveram mais dificuldade no acesso ao crédito (o que só mudou um pouco depois das linhas oferecidas pelo governo). Ao menos 70 mil pequenas empresas fecharam ou estão em risco de fechar devido à pandemia no país (contra cerca de 43 mil em média em anos normais).

Mas a iniciativa de logo no início adotar medidas de contenção do contágio e o protagonismo na vacinação tornaram o país um exemplo no combate à Covid-19. O que se vê em Israel, portanto, é o resultado de esforços adotados já nos primeiros movimentos da pandemia. São muitas as lições que se pode tirar da experiência israelense. Mas um dos maiores ganhos talvez seja que agora amigos e familiares podem se rever e trocar os abraços de amor, amizade e alívio há tanto tempo adiados.
Foto: Mostafa Alkharouf/Getty Images