Israel e aliados árabes se posicionam em linha contra o Irã antes da posse de Biden

Israel e outros países árabes têm uma mensagem compartilhada antes da posse do presidente eleito dos EUA, Joe Biden, na próxima semana: ‘Não reduza a pressão sobre o Irã’.

Os países alinhados com Israel nessa questão não são apenas seus novos aliados no Golfo, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, mas também Egito e Jordânia, disse nesta quinta-feira uma autoridade envolvida no assunto.

“Nossa mensagem para Biden é que esperamos que ele leve em consideração as atitudes dos aliados do Oriente Médio antes de fazer qualquer coisa com o Irã”, disse o oficial, referindo-se à possibilidade de o presidente eleito retomar o acordo nuclear com Teerã, “Muitos Estados árabes estão juntos nesta questão”, pontuou o oficial.

Biden disse que pretende retomar o acordo nuclear de 2015 entre o Irã e as potências mundiais, se a República Islâmica voltar a cumpri-lo. O Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), como o acordo com o Irã é oficialmente conhecido, tinha como objetivo limitar o enriquecimento de urânio de forma a estender o tempo que levaria para Teerã desenvolver uma arma nuclear. Ao mesmo tempo, retirava gradualmente as sanções internacionais contra o Irã, de modo que em 2030 não haveria mais nenhuma.

O oficial negou relatos de que Israel está tentando fazer mudanças no JCPOA para que o pacto inclua o programa de mísseis balísticos da República Islâmica e limite suas ações na região e além.

“Não somos a favor de ajustes no JCPOA”, disse o funcionário. “Não deve haver retorno ao JCPOA, isso seria um erro histórico”, disse ele.

Há cerca de duas semanas, um alto funcionário do gabinete do primeiro-ministro disse da mesma forma que “sob nenhuma circunstância deve haver um retorno a esse mau negócio”. A observação veio em resposta a um artigo da AFP sob o título: “Israel está aberto aos esforços alemães para expandir o acordo nuclear com o Irã com mais restrições”.

O governo Trump abandonou o acordo com o Irã em 2018 e desde então promulgou uma série de sanções de “pressão máxima” ao país.

O oficial israelense disse que a posição de Jerusalém é manter a pressão sobre Teerã.

“A história provou que o único momento em que o Irã fará concessões é quando estiver sob pressão”, disse a autoridade. “Reduzir a pressão e abrir mão desse recurso seria um erro histórico”.

O funcionário também rebateu o argumento europeu de que as violações iranianas nos últimos dois anos e meio, como o anúncio da semana passada de que aumentaria o enriquecimento de urânio em até 20%, mostram que a saída dos EUA do acordo com o Irã era perigosa e que o país deveria retornar ao pacto.

“Isso é ignorar o fato importante de que o JCPOA deixou o Irã com a capacidade de tomar uma decisão política e voltar ao caminho da arma”, disse a fonte. O aumento do enriquecimento veio após uma votação parlamentar.

O acordo com o Irã “não removeu sua capacidade de desenvolver bombas nucleares”. “O enriquecimento de urânio a 20% é a prova de que o JCPOA não foi eficaz”, acrescentou.

Além disso, o influxo de fundos para Teerã após o acordo de 2015 “deu ao regime os recursos de que necessitava para aumentar a agressão na região”, disse o oficial.

Países de todo o mundo árabe concordam com esta forte postura em relação ao Irã, que ajudou a aproximá-los de Israel, disse o funcionário, citando recentes comentários do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu sobre a questão.

“Eles (os países árabes) são muito receptivos a essas ideias”, disse ele.

Mesmo que Biden tenha dito que quer que os EUA voltem ao acordo com o Irã, o embaixador na ONU Gilad Erdan, que também se tornará embaixador em Washington nas próximas semanas, destacou que o presidente eleito e seus assessores “definiram uma série de condições”, e que os EUA e Israel compartilham do objetivo de impedir o Irã de obter armas nucleares.

A melhor maneira de bloquear a ameaça nuclear iraniana é algo que Israel e o governo Biden abordarão em “discussões em salas fechadas e não na mídia”, disse o embaixador em entrevista à rádio Kan.

Erdan pediu ao Conselho de Segurança da ONU que reimponha imediatamente o embargo de armas e mísseis ao Irã, em uma carta que enviou ao conselho na quinta-feira. O embargo de armas anterior da ONU ao regime dos aiatolás expirou em outubro passado sob os termos do JCPOA.

A carta listou as “atividades ilícitas do Irã, incluindo a transferência de armas para organizações terroristas, violações sistemáticas do acordo nuclear e seus repetidos apelos pela destruição de Israel”.

Erdan também mencionou a resolução do Parlamento iraniano pedindo a destruição de Israel até o ano 2041.

“Não é nenhum segredo que o Irã se tornou o maior proliferador de tecnologias balísticas e outras de envios de mísseis para o Líbano, Iêmen, Síria, Iraque e Gaza, entregando essas capacidades nas mãos de atores não-estatais e terroristas e desestabilizando a região”, escreveu Erdan .

O embaixador disse à Kan que ainda não se reuniu com a equipe de Biden, já que o presidente eleito e seus assessores têm como política não se encontrar com nenhum governante ou representante estrangeiro antes da posse na próxima semana.

O funcionário em Jerusalém confirmou que não há “nenhum diálogo formal até agora” entre o governo israelense e a equipe de transição de Biden.

Foto: REUTERS/KEVIN LAMARQUE