Imagem: Museu Judaico

“Judeus não têm candidato oficial”

O jornal Correio Braziliense publicou nesta sexta-feira (17) artigo do presidente da CONIB, Claudio Lottenberg, em que ele destaca o pluralismo da comunidade judaica brasileira em tempos de polarização e com a proximidade das eleições de outubro no País. Veja a seguir:

Quem visita o Museu Judaico de São Paulo, inaugurado no final de 2021, se depara logo na primeira sala com um telão que reproduz depoimentos de vários judeus brasileiros. Todos ali tentam responder à mesma pergunta: o que é ser judeu? As respostas variam muito. Há quem mencione o senso de comunidade, ou a herança histórica compartilhada, ou ainda a ascendência familiar. Alguns falam de sua conexão com Israel. O sentimento religioso, central para uns, aparece como lateral ou inexistente para outros.

A instalação demonstra que um dos traços da comunidade judaica, no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo, é precisamente seu pluralismo. Em tempos de polarização política aguda e com a proximidade das eleições em nosso país, é fundamental reafirmar essa ideia. Judeus são de direita, de esquerda, de todos os lados. Não há uma vertente político-ideológica característica dos judeus porque inexiste pensamento em bloco. Pelo contrário, a variedade de posições ideológicas no interior da comunidade judaica reflete a diversidade de opiniões presente na própria sociedade brasileira.

Tampouco há um partido ou candidato que represente os interesses de todos os judeus. No pleito de 2018, tentou-se criar uma associação entre as comunicações judaicas e o candidato eleito, mas isso é falso. Aliás, o que todos nós, em tese, deveríamos fazer, afora votar em nossos candidatos, é apoiar quem venha a ocupar uma posição na estrutura de Estado sem um alinhamento automático no momento político. Há judeus que votaram e não votaram no atual presidente, que aprovam e desaprovam seu governo. Novamente, prevalece a pluralidade. O voto é uma decisão individual, secreta, e os judeus brasileiros — bem como suas instituições representativas — não têm candidatos oficiais.

Os elementos que, de fato, unificam a comunidade judaica nacional não são de ordem político-partidária. Refiro-me aqui à luta contra o antissemitismo, a defesa da legitimidade do Estado de Israel e a repulsa à banalização do Holocausto. Quanto ao último ponto, cabem algumas observações.

Durante a pandemia, vimos comparações absurdas entre as práticas totalitárias nazistas e as ações de combate ao coronavírus — adotadas, por sinal, no mundo todo. Em uma sociedade democrática, pode-se elogiar ou criticar medidas como o lockdown, a obrigatoriedade do uso de máscaras, o distanciamento social ou as campanhas de vacinação, mas não há equivalência alguma entre essas medidas e a perseguição que resultou no assassinato de 6 milhões de judeus pelo Estado nazista.

Frente à atual onda de desinformação e revisionismo, é preciso reafirmar o caráter singular do Holocausto. Igualmente importante é relembrar o compromisso assumido por todo o mundo democrático em impedir que tal tragédia se repita.

Com isso, a Confederação Israelita do Brasil (Conib) julgou pertinente lançar um manifesto para destacar a pluralidade política da comunidade judaica brasileira e o caráter apartidário de suas instituições representativas. Ao longo de oito pontos, a Conib reforça seu compromisso com a construção de um país democrático, livre, multiétnico, multirreligioso e culturalmente diverso, bem como sua disposição para dialogar com todos os segmentos da sociedade, independentemente de preferências político-ideológicas. A instituição também reforça seu compromisso no combate à desinformação e ao discurso de ódio, lembrando que a liberdade de expressão, um valor sagrado na democracia, não abarca a prática de crimes previstos em lei.

Assim como não há uma resposta única à pergunta “o que é ser judeu?”, não se pode encaixar esse grupo inteiro em uma única caixinha ideológica. Ao valorizar e defender o pluralismo político, a comunidade judaica reafirma sua confiança na própria democracia.