Leila Sterenberg dá um mergulho em sua história judaica e conta como foi visitar a terra de seus antepassados, a Bessarábia

Em entrevista à CONIB, a jornalista Leila Sterenberg falou sobre a sua herança judaica, família, antissemitismo, sua participação na Marcha da Vida, a visita à terra de seus antepassados, a Bessarábia, e uma história ‘triste e ao mesmo tempo bonita’ que aconteceu durante o Holocausto com sua bisavó e sua tia avó, Marli. Ela conta que sua bisavó, numa atitude desesperada, teve que se matar para salvar a vida da filha durante a chamada marcha da morte – o percurso imposto em que muitos não aguentavam a caminhada sob um inverno rigoroso e acabavam morrendo de frio, ou executados pelos soldados que matavam os que não conseguiam acompanhar o grupo. Veja a seguir a entrevista: 

 A origem: 

Sou de uma família mista. Como várias famílias que têm ligação ou pertencem à comunidade judaica no Brasil e acho que esta é uma das belezas do judaísmo e uma das singularidades da comunidade judaica brasileira. Minha mãe não é judia e a família dela é de cristãos novos, talvez de origem judaica, e meu pai é judeu, baiano, bessarabiano. Meus avós vieram da Bessarábia nos anos de 1930: meu avô primeiro, em 1932, e depois minha avó com meus tios em 1939. Meu paí nasceu em Salvador, em 1941. Meus pais se conheceram na faculdade de arquitetura, atual UFRJ, nos anos de 1960. Os dois de esquerda, artistas, se apaixonaram e minha mãe acabou terminando um noivado para se casar com meu pai. Foi um choque na família do meu paí, mas aos poucos minha mãe acabou fazendo parte da família dele e aceitando o judaísmo. Assim, eu e meu irmão crescemos participando das festividades e datas religiosas judaicas e eu sempre gostei muito das comidas, das rezas, dos rituais.

Estudei em uma escola laica, num colégio da UERJ. Era uma escola que não tinha nenhum vínculo religioso e lá pelos meus 10 anos fiquei muito amiga de duas meninas judias que estudavam no então colégio Scholem (Aleichem) e que mais tarde se juntou ao Liessin. Fomos juntas à Disney, à Kinderland, colônia de férias da comunidade judaica do Rio de Janeiro, e agora também minhas filhas estão indo à Kinderland. Outros elementos também foram me aproximando da comunidade judaica; morei em Nova York nos anos 90 e, nem preciso dizer que Nova York é uma cidade muito judaica, e lá, nos EUA, éramos sempre rotulados de acordo com a origem: latina, negra, caucasiana etc. E eu era judia e me senti muito bem definida dessa forma: judia brasileira. Lá tinha amigos judeus e uma prima e chegamos a comemorar juntos Pessach, Rosh Hashaná, longe de nossas famílias.

Ao voltar ao Brasil e começar a trabalhar, sobretudo em televisão, vários projetos foram surgindo. Em 2009, propus fazer um projeto para a Globo News que virou uma série documental chamada ‘Além da guerra’, com sobreviventes do Holocausto, porque eram os 70 anos do fim da Segunda Guerra.  Mas, antes disso – e penso que foi algo natural – acabei entrevistando personalidades da comunidade judaica que por ventura estavam no Brasil. Em 2011, fui convidada pelo Colégio Liessin para participar da Marcha da Vida. Fui à Polônia, mas infelizmente não pude participar da segunda parte, que é a chegada em Israel. 

Penso que acabei desempenhando um papel importante ao trazer para a comunidade não judaica a história dos judeus no Brasil, o Holocausto, questões do pensamento judaico e figuras proeminentes de Israel, como ganhadores de prêmios Nobel que entrevistei para diferentes programas da Globo News. Penso que fiz essa ponte, porque quando dialogamos temos uma interação muito mais rica, mais democrática e com mais aceitação, mais compreensão. Me propus a estudar hebraico e esse é um projeto que ainda almejo. Outra coisa que me aproximou muito da comunidade judaica foi um documentário que fiz em 2016 chamado Cartas da Bessarábia, que está no Globoplay. Isso foi depois de ter ido à Bessarábia, passando pela Romênia, no momento em que descobri que eu tinha direito à cidadania romena por causa dos meus avós, que vieram para o Brasil como judeus romenos, embora tenham nascido na Rússia. Hoje, quando revejo o filme, penso que ele poderia ser mais judeu, porque eu fiquei envolvida com todas essas outras minorias, como húngaros, ciganos. Hoje, eu daria mais ênfase à presença da comunidade judaica lá.  Eu diria que a minha relação com o judaísmo é uma obra em progresso e que à medida que o tempo vai passando eu vou me aproximando cada vez mais, celebrando cada vez mais e tendo um entendimento cada vez maior.

A Marcha da Vida: 

A Marcha da Vida é uma experiência muito intensa e quem tiver a oportunidade de fazer essa viagem é algo que recomendo, porque lá você imagina como deve ter sido estar em Auschwitz naquele período através da visita a pavilhões, onde as pessoas morriam aos poucos, ou de uma vez. Visitar uma câmara de gás é algo muito violento, que nos faz pensar: poderia ter sido comigo; meus avós poderiam ter sido enviados para esse local e eu poderia nem existir. São tantos questionamentos que nos fazemos ao estar num local como esse. Sei que muitos Sterenbergs morreram no Holocausto. Não sei exatamente quem seria parente ou não porque esse é um sobrenome relativamente comum, tanto na Bessarábia como em outros países. O que sei é que minha bisavó, Raica, morreu no Holocausto, não exatamente na Polônia, mas na Bessarábia na marcha da morte, assim chamada porque os judeus eram obrigados a andar sob um frio intenso e muitos não sobreviviam a essa caminhada. Essa é uma história triste e bonita ao mesmo tempo, porque ela estava com minha tia avó, Marli, sua filha, que a ajudava na caminhada porque era manca. Durante o percurso, os guardas faziam constantes ameaças de executar os que não conseguissem acompanhar o grupo. Vendo que não ia conseguir caminhar por mais tempo e diante da possibilidade de ser executada junto com sua filha ela teve uma atitude desesperada e se atirou num poço, que havia no caminho. Assim, ela conseguiu salvar Marli que mais tarde foi para Israel. Não tem como não lembrarmos dessas histórias familiares, ao participarmos da Marcha da Vida. E foi muito emocionante ver jovens de diferentes países, judeus e não judeus, participando dessa experiência. Foi uma experiência muito forte. 

Antissemitismo: 

Já sofri antissemitismo sim. Em tom de brincadeira, durante situações de conflito em Israel, quando um ou outro colega comentava sobre ataques a judeus, dizendo ‘um judeu a menos’ e depois me olhava dizendo ‘é brincadeira’. Isso é muito ruim. Essas ‘brincadeirinhas’ talvez fossem toleradas a uns tempos atrás, mas hoje em dia não são mais, felizmente. 

É muito preocupante ver o crescimento do antissemitismo no mundo. Me parece que o ser humano tem memória curta, infelizmente. Estamos vivendo um período muito estranho, com essas formas de nacionalismo identitário, quase um tribalismo que busca apoio em formas fictícias de um nacionalismo que já vimos ao longo da história. Felizmente hoje já temos uma compreensão maior sobre isso e meios legais de deter esse avanço através de mobilização da própria comunidade judaica, qua está atenta, denunciando, coibindo e cobrando punições. Não há mais ingenuidade quanto a essa questão e as atitudes antissemitas que vimos têm sido punidas. Felizmente, governos não compactuam com atitudes desse tipo. Penso que também iniciativas como a Marcha da Vida e outras promovidas por instituições judaicas e Israel são formas de combater o antissemitismo e evitar que esse mal cresça. Acho que a cultura judaica deveria ser ensinada também em escolhas não judaicas. Vejo que outras formas de extermínio, ou degradação, acontecem por falta de conhecimento. 

Família: 

Tenho duas filhas que sempre manifestam a vontade de celebrar as datas judaicas e isso é interessante porque os pais das minhas filhas – elas são frutos de dois casamentos – não são judeus, apesar de terem ligações com o judaísmo por diferentes razões. Meu primeiro marido tinha avô judeu e minhas filhas adoram as celebrações judaicas – Pessach, Rosh Hashaná, Yom Kipur – e a convivência com os primos judeus. Elas não estudam em escola judaica, mas temos mezuzá na porta; não comemos kasher, mas elas sabem o que representa esse tipo de alimentação, e uma delas já manifestou vontade de estudar em Israel e se converter. Essa morou por um ano na Lituânia, em intercâmbio estudantil, onde conviveu com a comunidade judaica local e isso a aproximou ainda mais do judaísmo. Vejo que as duas se sentem pertencentes à comunidade judaica dessa forma misturada, com pais não judeus, mas com mãe meio judia, com sobrenome judeu, raízes e uma herança judaica. Vejo que ambas tem consciência e muito orgulho de sua herança judaica. 

Legado judaico: 

O rabino Nilton Bonder costuma dizer que não estamos aqui por acaso e nem a passeio e que fazemos parte de algo maior, que podemos chamar de Deus, Universo, natureza. E isso está implícito na fé judaica. E a liga que o judaísmo dá com a família é algo precioso, que eu cultivo muito. Tenho uma tia, viúva de um dos irmãos do meu pai, que é a matriarca, teve cinco filhos e costuma reunir a família em ocasiões especiais. Ela acaba trazendo o judaísmo para o núcleo familiar e esse é um motivo de felicidade muito grande para mim e minhas filhas. Penso que de alguma maneira eu não deixei o judaísmo morrer na minha geração e perante as minhas filhas. E o judaísmo tem uma característica que me encanta que é a capacidade de pensar diferente, de questionar, de criticar. E isso é muito importante para mim e para minha profissão. E não é à toa que haja tantos prêmios Nobel entre os judeus. E essa capacidade de questionar explica as diferentes formas de ser judeu. Você pode ser judeu ortodoxo e só comer kasher, você pode ser judeu liberal, conservador, reformista. Essa pluralidade é incrível, é muito especial no judaísmo e eu prezo muito e trago dentro de mim. Essa capacidade de pensar diferente, de mudar de opinião, de ouvir o outro, e estar aberta a essas possibilidades tem muito a ver comigo e com o meu judaísmo. Tem algo sensorial que me cativa muito no judaísmo que são as rezas na sinagoga, a música judaica, os sabores da comida. Tudo isso desperta em mim sentimentos que remontam à minha infância, como, por exemplo, o jazz, que eu adoro e que é uma mistura de música negra com música judaica. E o Brasil é muito mais judeu do que imagina. Tem um documentário que eu recomendo que se chama A Estrela Oculta do Sertão, que mostra como esse judaísmo foi penetrando no Brasil com a imigração oriunda da Inquisição. Esse documentário mostra uma série de costumes e tradições brasileiras que têm muito a ver com o judaísmo, como a forma de costurar a mortalha, de varrer a casa e a recomendação de não apontar a primeira estrela ao cair da noite. E temos uma ligação com o judaísmo que não é racional, que é mais sensorial trazida pelo som, pela música, pelo sabor, e que é muito forte. O judaísmo é atávico: quando percebemos estamos envolvidos e um filme, um sabor, um som podem despertar em nós emoções que nos remetem à nossa história, ao nosso passado judaico e encher nossos olhos de lágrimas.