Liderança rotativa pode ser solução para impasse em Israel

Depois das eleições parlamentares que não coroaram um vencedor imediato, Israel enfrenta uma espécie de ressaca política, tentando decifrar o recado das urnas e, principalmente, os possíveis cenários políticos.

Resultados oficiais apontam que o partido de centro-esquerda Azul e Branco, do ex-comandante do exército Benny Gantz, foi o mais votado, conquistando 33 das 120 cadeiras do Knesset (Parlamento israelense).

Ele é seguido de perto pelo partido conservador Likud, do atual primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, que conseguiu abocanhar 31 assentos.

Nenhuma das duas forças políticas têm chance de formar uma coalizão com maioria no Knesset (61 cadeiras).

Diante do impasse, a fábrica de rumores e conjecturas políticas funciona com força máxima, enquanto analistas esperam os próximos passos dos jogadores. Netanyahu anunciou que não irá discursar na Assembleia Geral da ONU, que ocorre na próxima semana, em Nova York, justamente para tentar resolver o imbróglio político.

Ele também convocou uma reunião de emergência entre Likud e aliados pertencentes a partidos religiosos e à direita radical. A decisão foi formar um bloco de direita único, com 55 cadeiras, para tentar dar base a um governo, mesmo sem maioria no Knesset.

Se tiver êxito, Netanyahu espera receber do presidente israelense, Reuven Rivlin, a incumbência de formar o novo governo, o que lhe daria vantagem nas negociações futuras.

Gantz pode, em tese, formar um bloco unindo o Azul e Branco com siglas de esquerda e com a Lista Árabe Unida, que representa a minoria árabe e que ficou em terceiro lugar nas eleições.

Essa coalizão, porém, ficaria com 56 cadeiras, incapaz de formar o governo. Os líderes árabes também já indicaram que não pretendem entrar em um bloco e que preferem seguir independentes.

O consenso, no entanto, é que, antes tido como ‘mago político’, Netanyahu perdeu o dom pela primeira vez em dez anos.

Mesmo sabendo de sua capacidade de tirar coelhos da cartola quando se trata de sobrevivência política, a maior parte dos analistas afirma acreditar que o único cenário real seria a formação de um governo de união nacional entre Azul e Branco e Likud.

Nesse caso, Gantz serviria como primeiro-ministro por dois anos, e Netanyahu o substituiria nos dois anos seguintes.

“Realisticamente, não há outro cenário, porque, por mais que você olhe para os números, ninguém tem maioria. Portanto, a única opção é um governo de união nacional”, diz o professor e cientista político Emmanuel Navon, da Universidade de Tel Aviv e do Centro Interdisciplinar de Herzliya.

“Acho que, na verdade, é isso que a maioria dos israelenses quer: um governo centrista, estável e com pessoas em quem confiam, sem radicais e extremistas”, afirma.

Já houve um precedente. Em 1984, o Likud e o Partido Trabalhista se viram em impasse similar e decidiram formar governo em conjunto, com cada legenda liderando por dois anos.

O líder trabalhista Shimon Peres assumiu o cargo de primeiro-ministro antes, substituído, em 1986, por Yitzhak Shamir, do Likud.

Mas, agora, parece que essa costura é mais complicada. Um dos motivos é a promessa de campanha de Gantz de que não integraria uma coalizão com o Likud sob liderança de Netanyahu, que pode ser indiciado a qualquer momento em casos de corrupção.