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Macron manifesta apoio à comunidade judaica e pede mudança na lei após tribunal inocentar assassino de judia

O presidente francês, Emanuel Macron, manifestou apoio neste domingo à comunidade judaica do país e a seus esforços para levar o assassino de Sarah Halimi a julgamento, após decisão da mais alta corte da França que considerou que Kobili Traore não poderia ser responsabilizado pelo crime por ter fumado maconha.

Macron disse que pretende buscar uma mudança nas leis para evitar que tal caso aconteça novamente.

Em uma crítica rara e controversa ao sistema de justiça da França, Macron disse que consumir drogas e “enlouquecer” não deve retirar a responsabilidade criminal de alguém.

“Não cabe a mim comentar uma decisão do tribunal, mas gostaria de expressar à família, aos parentes da vítima e a todos os nossos cidadãos judeus que esperavam por um julgamento, meu caloroso apoio e a determinação da República em protegê-los”, disse Macron ao Le Figaro.

Macron já havia criticado a decisão anterior de um tribunal de primeira instância, em janeiro do ano passado, obtendo uma forte resposta dos principais magistrados do país e, neste domingo, o presidente expressou apoio à luta para levar Traore a julgamento pelo assassinato de Sarah Halimi.

Macron disse que a França “não julga os cidadãos doentes, nós os tratamos”. “Mas decidir usar drogas e depois ‘enlouquecer’ não deve, em minha opinião, tirar sua responsabilidade criminal”.

Ele acrescentou: “Eu gostaria que o ministro da Justiça (Eric Dupond-Moretti) apresentasse uma mudança na lei o mais rápido possível”.

Sarah Halimi, uma judia ortodoxa na casa dos 60 anos, morreu em 2017 depois de ser espancada e jogada da janela de seu apartamento em Paris pelo vizinho Traore, que gritou “Allahu Akbar” (“Deus é grande”, em árabe).

Na quarta-feira, a Suprema Corte de Apelações manteve as decisões dos tribunais inferiores de que Traoré não poderia ser julgado porque estava sob o efeito da maconha quando cometeu o crime.

Traore está sob cuidados psiquiátricos desde a morte de Halimi. O tribunal considerou que ele cometeu o crime depois de sucumbir a um “surto delirante” e, portanto, não poderia ser responsabilizado por suas ações.

Entretanto, o tribunal reconheceu que Traore, agora com 30 e poucos anos, tinha preconceito antissemita e que o assassinato estaria ‘parcialmente’ relacionado a isso. Mas também aceitou as alegações da defesa de que Traore estava sob efeito de drogas e que não poderia ser julgado por suas ações e, por isso, foi colocado em uma clínica psiquiátrica.

Macron disse anteriormente que havia “necessidade de um julgamento”, mesmo que um juiz decidisse que não havia responsabilidade criminal.

A decisão do tribunal, que significa que Traore não pode mais ser julgado em nenhum tribunal francês, revoltou grupos judaicos e de direitos humanos, que afirmam que o veredicto coloca os judeus em risco.

Alimentando o debate sobre o surgimento de uma nova linha de antissemitismo entre jovens muçulmanos radicalizados em bairros predominantemente de imigrantes, o caso do assassinato de Halimi foi um divisor de águas para muitos judeus franceses, que dizem que isso demonstra as falhas do Estado francês em lidar com o antissemitismo.

Foto: Benoit Tessier/Pool/AFP