Manter a memória dos crimes do nazismo é inseparável da identidade alemã, diz Merkel em Auschwitz

Angela Merkel atravessou os portões do antigo campo de extermínio de Auschwitz na Polônia nesta sexta-feira pela primeira vez em 14 anos na função de chanceler, prometendo combater com rigor a nova onda de antissemitismo que atinge a Alemanha.

Ao lado do primeiro-ministro polonês Mateusz Morawiecki, do sobrevivente de Auscwitz Stanislaw Bartnikowski e de representantes da comunidade judaica, Merkel cruzou no início da manhã o portão do campo, no qual se lê o slogan nazista “O trabalho liberta”. Ela visitou também o Muro da Morte, onde dezenas de milhares de detidos foram executados, a maior parte deles prisioneiros políticos poloneses.

No campo adjacente de Birkenau, a cerca de três quilômetros de Auschwitz, a chanceler federal disse que o horror causado pelo Holocausto é “incompreensível”. Ela afirmou ainda que o Estado alemão tem uma obrigação com as vítimas e deve cumprir sua responsabilidade de “proteger os judeus”, afirmando que “o antissemitismo não será tolerado”. “Recordar os crimes, nomear seus autores e realizar uma homenagem digna às vítimas é uma responsabilidade que não acaba nunca. Não é negociável. É inseparável de nosso país. Ter consciência desta responsabilidade é parte inseparável de nossa identidade nacional”, disse a chanceler.

Sua viagem, que antecede o 75º aniversário da libertação do campo pelas tropas soviéticas em 27 de janeiro, está sendo vista como uma importante mensagem política.

Na véspera de sua visita, Merkel disse que “a luta contra o antissemitismo e contra todas as formas de ódio” é uma prioridade para seu governo.

Ela também saudou uma nova doação de 60 milhões de euros (US $ 66 milhões) para a Fundação Auschwitz-Birkenau, que foi aprovada pelos estados federais da Alemanha na quinta-feira.

Merkel começou sua visita caminhando sob o slogan nazista “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”) que ainda paira sobre os portões do campo.

Ela também observou um minuto de silêncio junto ao Muro da Morte, onde milhares de prisioneiros foram mortos a tiros e visitou o local de uma câmara de gás e um crematório.

A visita “é um sinal particularmente importante de atenção e solidariedade no momento em que os sobreviventes de Auschwitz são vítimas de insultos antissemitas e mensagens de e-mails cheios de ódio”, disse Christoph Heubner, vice-presidente do Comitê Internacional de Auschwitz.

Josef Schuster, chefe do Conselho Central de Judeus na Alemanha, e Ronald Lauder, chefe do Congresso Mundial Judaico, também participaram da visita.

No total, 1,1 milhão de pessoas foram mortas em Auschwitz-Birkenau, incluindo judeus, poloneses não judeus, prisioneiros de guerra soviéticos, ciganos e combatentes anti-nazistas.

Muitos foram mortos no mesmo dia em que chegaram ao campo.

“Não há outro local de memória que demonstre com tanta exatidão o que aconteceu durante a Shoah”, disse Schuster à AFP antes da visita.

Merkel segue os passos dos chanceleres alemães anteriores Helmut Schmidt, que visitou o local em 1977, e Helmut Kohl, em 1989 e 1995.

Ela já visitou vários campos na Alemanha e esteve no centro memorial do Holocausto Yad Vashem em Jerusalém cinco vezes.

Em 2008, ela se tornou a primeira líder alemã a se dirigir ao parlamento israelense. Nesse discurso, ela falou da “vergonha” que os alemães ainda sentem.

Merkel chamou o Holocausto de “ruptura com a civilização” e manifestou preocupação com a ascensão do antissemitismo na Alemanha.
Sua visita ocorre dois meses depois de um ataque contra uma sinagoga na cidade de Halle, na qual duas pessoas foram mortas – parte de uma tendência crescente.

Os números da polícia mostram que as ofensas antissemitas aumentaram quase 10% na Alemanha no ano passado, em relação ao ano anterior, para 1.646 – o nível mais alto em uma década.

O parlamentar sênior do AfD Bjoern Hoecke pediu uma “mudança de 180 graus” na cultura da expiação.

O momento da visita também é significativo por causa de perguntas sobre o futuro político de Merkel, à medida que as tensões persistem na coalizão governista.

Merkel pretende renunciar ao seu mandato em 2021, mas há uma chance de que a data possa ser antecipada se seus parceiros juniores da coalizão, os social-democratas, abandonarem o governo.