Museu do Holocausto de Curitiba condena analogias ao nazismo

Em longa nota, o Museu do Holocausto de Curitiba se manifestou contra o uso da frase “O trabalho liberta”, para divulgar as ações que o governo federal vem tomando para conter o avanço do novo coronavírus no País. No texto, o Museu do Holocausto de Curitiba afirma que “repudiamos, em tom de alerta à sociedade, a peça publicitária da Secom e demandamos deste órgão imediata retratação e correção – não apenas pela escolha de palavras, mas por seu sentido que, infelizmente, ratifica a presença atual de elementos que, décadas atrás, constituíram o nazismo”.

Veja abaixo o texto completo:

As diferentes formas estéreis de analogia ao nazismo – e a preocupação com cada uma delas

Nos últimos dias (e quiçá horas), o Museu do Holocausto de Curitiba tem sido cobrado a posicionar-se perante declarações de setores do governo brasileiro, notas jornalísticas e publicações pessoais em redes sociais que se valem de referências ligadas ao nazismo e a Shoá. Em primeiro lugar, tal exigência denota a relevância social deste museu no que diz respeito à construção e à preservação da memória da Shoá. Estamos convictos de que todos os posicionamentos do Museu do Holocausto de Curitiba devem ser minuciosos e possuírem teor historiográfico, tomando a cautela necessária para que nossos pareceres não sejam utilizados para fins partidários. Visando não somente posicionarmos como instituição, mas contribuir com conteúdo sério e fundamentado para o debate em torno dos legados éticos da Shoá, torna-se importante distinguir as inúmeras situações que, por mais problemáticas que sejam, são ofensivas em graus distintos. Em alguns casos, as menções ao nazismo são como analogias com situações às quais os próprios emissores das mensagens consideram negativas. Estas comparações hiperbólicas e estéreis baseiam-se no uso genérico e simplório da figura de Hitler e do nazismo para atacar o espectro político ‘rival’. Nesses casos, os elementos históricos são usados pelo público como meros recursos retóricos para reforçar um ponto de vista. Por um prisma científico, fazer comparações entre fenômenos históricos (e humanos) não se constitui, em si, um problema metodológico. Devemos evitar a ideia de que comparar eventos ao nazismo, apesar de tarefa complexa, seja proibido, o que contribuiria para uma sacralização do Holocausto. Por outro lado, é necessário também cuidar para que essas comparações não sejam histórica e eticamente rasas ou incoerentes. É o caso, para citar exemplos recentes, da nota do jornalista Ancelmo Gois, do tuíte do publicitário Felipe Cruz Pedri e dos posts da jornalista Mariana Brito Soares, entre outros. O uso banalizado do nazismo como metonímia do mal deve ser evitado e seu crescimento, sim, nos causa preocupação. Além de improdutivas e estéreis, em nada contribuem para a missão educativa do Museu do Holocausto de Curitiba, que defende que a memória da Shoá sirva a fortalecer valores como tolerância, democracia e combata os autoritarismos e discriminações. Apesar de incômodas, condenáveis e que desnecessariamente elevam o nível de agressividade e de polarização do debate público, não se configuram, entretanto, como apologia elogiosa ao nazismo ou suas concepções políticas. Nesse sentido, tais casos se diferenciam substancialmente de outros, que mereceram notas de repúdio do Museu: as falas da empresária Cristiane Deyse Oppitz e do jornalista Marcão do Povo e, mais recentemente, o material divulgado pela Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), órgão da Presidência da República, que faz uma mistura entre um versículo bíblico já utilizado em campanha eleitoral e o infame dizer do portão do complexo de extermínio de Auschwitz-Birkenau – “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta) – para promover políticas governamentais. Nesses casos, utilizaram-se de referências e analogias (implícitas ou explícitas) elogiosas e positivas ao nazismo. Diferentemente de menções ao nazismo como metonímia do mal, estes discursos enaltecem ideologicamente políticas análogas às nazistas, demonstrando a continuidade de aspectos de tal doutrina no presente, merecendo posicionamentos firmes por parte do Museu. A inconveniente frase “O trabalho liberta” converteu-se em símbolo da estratégia nazista para enganar suas vítimas com a falsa sensação de liberdade e sobrevivência por meio do trabalho. Em função do discernimento entre as formas de analogia ao nazismo, enquanto manifestamos preocupação com os primeiros casos citados, ligados a comparações superficiais de mau gosto, as situações do segundo tipo, muito mais graves, causam indignação e repulsa. Continuaremos nos posicionando, de forma sóbria e categórica, todas as vezes que a memória do Holocausto seja ameaçada ou prejudicada. Tal como fizemos em relação a Cristiane e a Marcão, repudiamos, em tom de alerta à sociedade, a peça publicitária da Secom e demandamos deste órgão imediata retratação e correção – não apenas pela escolha de palavras, mas por seu sentido que, infelizmente, ratifica a presença atual de elementos que, décadas atrás, constituíram o nazismo.