Na vitória de Johnson, repúdio a Corbyn e ao antissemitismo

Por volta da 1h30 desta sexta-feira, quando os resultados das eleições para os distritos eleitorais de Workington e Darlington foram anunciados em rápida sucessão, ficou claro que uma pesquisa prevendo uma vitória esmagadora dos conservadores era bastante precisa. Essas são duas partes da Inglaterra que votaram no Partido Trabalhista por décadas; agora os dois haviam abandonado o partido liderado por Jeremy Corbyn e seguiam atrás de Boris Johnson.

À medida que a noite avançava, o fluxo de resultados confirmou a extensão da derrota de Corbyn e o que Johnson descreveu na sexta-feira como uma vitória “histórica”. Devastado, Corbyn anunciou rapidamente, não sua demissão imediata, mas que “não lideraria o partido em nenhuma eleição futura”.

Uma vitória desse tamanho pode ser atribuída a muitos fatores. E dado que a eleição foi focada na promessa de Johnson de implementar o Brexit e tirar a Grã-Bretanha da Europa, o resultado marca um enfático apoio a essa postura – o que Johnson chamou de um poderoso mandato para “fazer o Brexit”. Mas também sinaliza um repúdio pessoal a Corbyn.

A grande maioria dos judeus britânicos celebrou cautelosamente os números das pesquisas de opinião pública e assistiu com crescente alívio à medida que foram amplamente confirmados no decorrer da noite e na manhã de sexta-feira. O perigo de a Grã-Bretanha ser liderada por um oponente ao longo da vida de Israel, um líder de partido que permitiu que o antissemitismo prosperasse em seu interior, havia sido evitado.

Se os trabalhistas tivessem sido derrotados por pouco, alguns dos apoiadores de Corbyn poderiam ter procurado culpar a comunidade judaica, que eles acusaram de inflar o problema do antissemitismo do Partido Trabalhista. Na verdade, Ken Livingstone, o ex-prefeito trabalhista de Londres que insiste que Hitler era inicialmente sionista e que denominou a crise antissemita do Trabalhista de “mentiras”, tentou fazer exatamente isso, zombando de que “o voto judaico não foi muito útil”.

Mas a maioria dos partidários mais fervorosos de Corbyn sabe que a responsabilidade por uma derrota tão esmagadora só pode ser atribuída ao próprio líder do partido.

Johnson está entre os políticos mais carismáticos, mas não dos mais críveis. Notoriamente, antes do referendo do Brexit de 2016, ele escreveu dois artigos opostos – um a favor de deixar a Europa e outro a favor de permanecer – e publicou a versão que ele determinou que melhor atendia a seus interesses políticos. Ele conseguiu brevemente suspender o Parlamento no início deste ano para tentar rever sua versão da legislação do Brexit, apenas para ser humilhado pelo tribunal superior da Grã-Bretanha de que suas ações eram ilegais. Ele dirigiu uma campanha nada sutil, focada no Brexit, cheia de afirmações financeiras questionáveis, pegou o telefone de um repórter e o colocou no bolso, em vez de olhar para a fotografia que lhe estava sendo mostrada de um garoto no chão de um hospital no problemático serviço de saúde da Grã-Bretanha e desapareceu em um freezer para evitar uma solicitação de entrevista indesejada.

O fato de ele ter vencido essas eleições de forma tão dramática, em uma Grã-Bretanha tão profundamente dividida sobre o Brexit, sublinha que pelo menos parte do eleitorado votou no Conservador porque, acima de tudo, estava tão alienado e temeroso pelo possível primeiro-ministro Corbyn. Muitas das promessas de Corbyn de resolver as desigualdades na Grã-Bretanha, principalmente para realocar recursos nacionais para causas ressonantes, como o Serviço Nacional de Saúde e a Educação, eram boas ao olhar da população, mas ele claramente não era confiável, mesmo por muitos daqueles que compartilhavam grande parte de sua agenda.

Horrorizado com as evidências em andamento de que o Partido Trabalhista estava cheio de antissemitismo e de que as promessas de Corbyn de lidar com ele eram vazias, o rabino-chefe da Grã-Bretanha, Ephraim Mirvis, foi ao extremo de escrever um artigo que fazia de tudo para convencer aos britânicos a não votar no Partido Trabalhista. Evidentemente, Mirvis agiu porque sabia que não seria capaz de se enfrentar na manhã seguinte, se não tivesse feito tudo ao seu alcance para ajudar a evitar uma vitória de Corbyn.

A derrota do líder agora dá aos trabalhistas, que já foram o partido tradicional dos judeus da classe trabalhadora, a oportunidade de se refazer como uma força política palatável e crível. Para isso ocorrer, vai depender se os muitos dos radicais que invadiram o Partido Trabalhista mantêm ou não suas posições de poder.

Em uma entrevista ao Sky News na manhã de sexta-feira, a apresentadora Kay Burley discutiu os motivos da derrota do Partido Trabalhista com o líder da bancada do partido no parlamento, o deputado Ian Lavery. Interrompendo suas tentativas de explicação, Burley perguntou sem rodeios se tudo se resumia à crença dos eleitores de que “seu líder é um antissemita e, como resultado, eles não confiavam nele para a segurança do país”.

Lavery tentou responder, negando essa avaliação, mas Sky teve que cortá-lo para transmitir a fala de Boris Johnson, que estava fazendo o discurso da vitória.

Como destacou Burley, o fator que contribuiu para a derrota foi a rejeição dos britânicos por esse antissemitismo e a preocupação do que se dizia sobre Corbyn e o tipo de governo que ele poderia liderar.