Novo embaixador de Israel no Brasil fala sobre os objetivos de sua missão 

Em sua primeira entrevista como novo embaixador de Israel no Brasil, Daniel Zohar-Zonshine falou sobre os principais objetivos de sua missão. “Manter a abertura e o vínculo entre Israel e Brasil, e buscar, como meu antecessor (Yossi Shelley), mas com meu estilo, trabalhar nessa combinação de necessidades e interesses de ambos os países. As relações entre Brasil e Israel sempre foram boas, mas vinham se fortalecendo nos últimos anos, quero dar prosseguimento a isso”, disse ele em entrevista a Eugenio Goussinsky, no Pletz.
No caso de Brasil e Israel, assim que o embaixador Daniel Zohar-Zonshine, de 63 anos, for oficialmente nomeado para o cargo no Brasil, uma de suas primeiras missões será dar prosseguimento ao entendimento com o País, após, no último dia o governo brasileiro não ter seguido a recomendação de Israel de boicotar a Conferência de Durban, promovida pela ONU (Organização das Nações Unidas), cujo tema é o combate ao racismo.
Assim como em sua primeira edição, em 2001, a conferência manteve algumas diretrizes que o governo israelense considera antissemitas. A última conferência, no entanto, não fez menção a Israel, mas, já na primeira edição, o governo israelense se queixou do clima hostil ao país, citando discursos inflamados e até caricaturas discriminatórias contra judeus, impulsionadas pelos conflitos entre Israel e os palestinos. Na conversa com o Pletz, o novo embaixador mostrou um jeito ponderado e simples, bem ao estilo de um homem ligado à agricultura, nascido no moshav Avigdor. Falou tranquilamente, sentado na poltrona do lobby de um hotel em São Paulo, sem os trajes formais que seu cargo exige. Apenas como um cidadão comum, um servidor de seu país à espera de sua formalização, para se tornar oficialmente um representante de um Estado. Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
Pletz – Quais os seus objetivos nesta sua nova função de embaixador de Israel no Brasil?
Daniel Zonshine – Manter a abertura e o vínculo entre Israel e Brasil, e buscar, como meu antecessor (Yossi Shelley), mas com meu estilo, trabalhar nessa combinação de necessidades e interesses de ambos os países. As relações entre Brasil e Israel sempre foram boas, mas vinham se fortalecendo nos últimos anos, quero dar prosseguimento a isso.
P – Pelo menos 10 acordos já foram estabelecidos entre os países. O que você pretende fazer a partir destas parcerias?
DZ – Temos feito vários acordos e vamos ampliar, em áreas como agricultura, agronomia, técnicas de irrigação, cibersegurança e cibertecnologia, de uma maneira geral. Também iremos buscar parcerias em áreas como Ciências da Vida e Saúde, em setores como tecnologia e equipamentos médicos. O que iremos fazer é buscar cada vez mais valor agregado a esse intercâmbio. Por eu ter crescido em um moshav, tenho muita ligação com a agricultura. As técnicas de gotejamento me fascinam. Aprendi com meu pai. A base é importante, mas agora as técnicas modernas vieram para aprimorá-la. Vou me dedicar para que possam estar ainda mais presentes nesta nossa parceria com o Brasil. Também temos tecnologia com drones, para monitorar grandes plantações, detectando necessidade de água, pragas, necessidades de fertilização.
P – Como Israel vê a comunidade judaica no Brasil?
DZ – A comunidade judaica brasileira é considerada muito importante por Israel. Trata-se de uma comunidade com grande relevância e influência no Brasil e queremos contribuir com ela e reforçar as relações desta comunidade com Israel, por meio da embaixada e do consulado-geral em São Paulo. Tenho também a tarefa de reforçar os laços com a comunidade evangélica. É uma comunidade amiga de Israel e tem crescido muito no Brasil, a ponto de o País já ser composto por cerca de 40% de evangélicos, segundo informações que recebi. É um grande número e esse apoio deles a Israel é importante.
P – Como Israel vê a postura do presidente Jair Bolsonaro de não respeitar os protocolos contra a covid-19. Em Israel, isso gera punição, e tal comportamento do governo brasileiro é totalmente contrário à política sanitária israelense. Isso pode atrapalhar de alguma maneira o entendimento ou Israel se baseia na tese de que o mais importante é manter boas relações com um aliado?
DZ – Cada governo decide o que é bom para ele. Estou vacinado, com três doses, mantenho o isolamento, uso máscara e sigo todos os protocolos. Tenho no entanto de respeitar as decisões do governo brasileiro, sou visitante, não tenho como interferir nas regras e tenho de respeitar as decisões locais.
P – A mudança de governo em Israel de alguma maneira altera a postura do país em relação Brasil?
DZ – A mudança de governo não altera a necessidade de manter as boas relações com o Brasil. É um interesse de Estado e não de governo.
P – Como você está vendo o novo governo em Israel, formado por diferentes espectros, muitos deles opostos?
DZ – Até agora está dando certo, a aliança está indo bem. O novo governo de Israel está fazendo as coisas certas, priorizando o que tem de ser feito. Tanto do ponto de vista interno como externo. Nosso ministério está voltando a ter maior espaço no orçamento de Israel. Isso vai aumentar a possibilidade de o Ministério das Relações Exteriores, por meio de embaixadas, ampliar atividades culturais, econômicas, capacitações com funcionários. Minha ideia é aproveitar essa oportunidade e, principalmente no pós-pandemia, promover essa integração, também por meio da cultura e das artes em geral. Conto também com a participação de instituições como a Hebraica, um clube judaico de grande força, que tem sempre feito eventos culturais que promovam o intercâmbio com Israel.
P – Você atuou como conselheiro na embaixada do Brasil entre 1998 e 2002. E também como cônsul-geral na Índia em Mumbai (antiga Bombaim), entre 2005 e 2008, e embaixador em Myanmar (2014-2018). Qual a diferença entre trabalhar nestes países e no Brasil?
DZ – É totalmente diferente, em termos de cultura, língua, geografia, economia e situação política (Myanmar tem uma instabilidade política grande, com sucessivos golpes de estado – o último ocorrido em fevereiro de 2021 – e desavenças entre grupos étnicos desde sua independência, em 1948). Uma vantagem que tenho no Brasil é falar o idioma, a língua em Myanmar é tonal, muito mais difícil de aprender. Na Índia, trabalhei em Mumbai, uma metrópole similar a São Paulo, sendo um centro comercial e cultural do país.
P – Como você vê a importância diplomática e cultural de São Paulo no atual cenário mundial?
DZ – É uma cidade importantíssima, um núcleo na América Latina. Antes, o Rio de janeiro era a cidade com maior repercussão internacional do Brasil. Mas, agora, com a globalização, São Paulo divide este posto, com uma importância econômica e também turística.
P – Em Israel, Tel Aviv é a principal cidade, neste sentido. Como compara essa cidade que funciona como uma metrópole em Israel, com outras no mundo?
DZ – Tel Aviv tem uma população de cerca de 400 mil habitantes, bem menos do que a de grandes metrópoles como São Paulo, Nova York, Tóquio. Sua região metropolitana abarca cerca de 1,2 milhão de habitantes, nas cidades mais próximas. No entanto, a energia que está presente nesta cidade a faz se equiparar às grandes metrópoles, em termos de importância. Tel Aviv é uma cidade que se tornou referência em cultura, gastronomia, diversidade, no aspecto de defesa às causas LGBTs do mundo. Tem um magnetismo muito grande.
P – Voltando à questão das relações com o Brasil, o governo brasileiro não seguiu as determinações de Israel de boicotar a última Conferência de Durban, realizada em 22 de setembro deste ano. Como Israel viu a situação?
DZ – Passamos a nossa posição para o Brasil, para que o País não participasse dessa conferência. Em 2001, na sua primeira edição, Israel foi apresentado como um país racista e isso é inverídico e inadmissível. Nesta última conferência, foram mantidas as bases da primeira. Havíamos alertado o Brasil quanto a essa posição. Outros 34 países boicotaram a conferência, mas o Brasil acabou participando. Não foi com funcionários de alto escalão, mas optou pela decisão de participar.