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“Nunca deixei de dizer que sou judia”, afirma Mayana Zatz, nome de ponta da genética 

 

Mayana Zatz é bióloga molecular e geneticista brasileira, professora do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. É hoje um dos maiores nomes da genética no Brasil. Em entrevista à CONIB, ela lembra a infância passada na França, o deslumbramento quando chegou ao Brasil aos 7 anos, e fala das pesquisas em que vem trabalhando e de judaísmo.

Brasil 

Mayana nasceu em Israel, filha de pai romeno e mãe polonesa. Quando tinha pouco mais de um ano, a família mudou para França. Lá ela ficou até os sete anos, quando veio com os pais e a irmã para o Brasil. Chegou em março. “Março é inverno na França. Aquele tempo escuro e no Brasil tinha um sol lindo. Eu lembro do impacto que foi chegar no Brasil. Porque fui muito bem recebida. Logo em seguida fui para a escola e falavam: olha a francesinha. E achavam uma graça, a francesinha. Eu tinha tranças. Foi uma recepção muito grande e posso dizer que me apaixonei pelo Brasil desde então”.

Judaísmo e educação 

O judaísmo de Mayana reside na ética e nos valores judaicos que lhe foram passados pelos pais. “Minha família não era nada religiosa. Mas eles valorizavam muito aspectos éticos. A importância de ajudar os outros, a importância de se esforçar, de conseguir as coisas pelo esforço, e a educação. O mínimo do mínimo que meus pais queriam era que eu tivesse uma faculdade. Outra coisa era ter uma independência financeira, não depender de marido. Valores que me passaram muito fortes”.

A importância da educação, ela acredita, é tradição judaica. “O judeu foi muito perseguido por muitos séculos. É aquela coisa de que o que você tem na cabeça, ninguém te tira. Por isso acho que os judeus são tão ligados à educação”.

A paixão pela ciência começou cedo. “Tinha paixão desde pequena pela ciência. Eu adorava ler a biografia dos grandes cientistas e achava superinteressante. E eu também aprontava, porque eu destruía as coisas porque queria ver como eram (como funcionavam). Eu queria ser médica para cuidar dos outros. Mas no colegial, eu me apaixonei pela genética. E na época não tinha genética na medicina, então resolvi fazer biologia para estudar genética. E acho que dei muita sorte, era uma época em que ninguém sabia o que era genética.  A minha mãe não sabia explicar para as amigas o que era aquilo que a filha dela ia fazer. Eu não podia imaginar que a genética ia ser tão importante como é hoje. É uma sorte eu poder viver agora todos esses avanços. ”

Preconceito 

A bióloga diz que não sentiu o peso do preconceito. Ainda assim, destaca um episódio em que foi confrontada por ser judia.

“Eu nunca sofri. Meus pais sofreram muito. Meu avô foi morto durante o nazismo. Meus pais tinham medo. Quando alguém perguntava, eles tinham medo de dizer que eram judeus. Felizmente, eu nunca tive esse medo. Nunca deixei de dizer que sou judia, aqui no Brasil. Eu me lembro que eu defendi, em 2005, a pesquisa com células troco embrionárias. Queria aprovar no Brasil. Grupos religiosos, principalmente católicos, se posicionaram contra. A gente queria trabalhar células de embriões que são congeladas, trabalhadas e descartadas. São só um montinho de células. Na época, o procurador geral, Claudio Fonteles, disse que eu era a favor dessas pesquisas porque eu era judia”. Uma jornalista da Folha de SP me chamou e disse que ele tinha feito essa declaração e se podiam publicar. Eu disse que deviam publicar. Se fosse hoje, acho que ele não teria coragem de falar isso. Mas falou e eu recebi 50 mil e-mails de pessoas me apoiando.  Foi um negócio muito emocionante.”

Por seis votos contra cinco, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou as pesquisas científicas com células-tronco embrionárias sem nenhuma restrição.

Os projetos de pesquisa atuais 

Estou trabalhando em três projetos que podem ser uma revolução na medicina. Um é sobre xenotransplante ( o transplante de um órgão, ou tecido, ou células de um animal a outro de espécie distinta). Hoje com a tecnologia de alteração de genes eu consigo alterar genes de suínos para que não haja rejeição. Isto pode ajudar milhares de pessoas que não tem doador compatível.

O segundo tem a ver com vírus da zika. Durante a epidemia do Zika, mulheres grávidas infectadas tiveram filhos com microcefalia. Mas, a grande maioria das mulheres não tiveram filhos com microcefalia. Será que havia uma suscetibilidade genética associada a exposição ao Zika. Fui para o Nordeste. Estudamos e descobrimos que o zika infecta e destrói células que dão origem ao cérebro. Tumores cerebrais são ricos nestas células neuroprogrenitoras e por isso se desenvolvem tão rápido. Vimos que o vírus destruía os tumores. No laboratório, vimos que destruía linhagens de tumores cerebrais. Estes tumores foram injetados em camundongos. E depois inserimos o Zika e na maioria dos animais percebemos que os tumores reduziam de tamanho e, em um terço, sumiram completamente o tumor e metástases. Conseguimos testar dois cães, e tumores reduziram de tamanho. Os animais recuperaram parte clínica e neurológica que tinham perdido e aumentamos expectativa de vida com qualidade. A pesquisa segue. A gente acha que esta pesquisa pode ser um tratamento muito importante para tumores cerebrais que são 100 por cento letais.

Em uma terceira linha, distrofias musculares. Estamos identificando genes protetores. São pessoas que têm a mutação mas os genes protegem e elas desenvolvem formais mais brandas.

Continuidade da herança judaica 

Mayana conta sobre levar a herança judaica aos filhos e netos. Diz que passou a eles a herança ética e a importância educação também. “Meus filhos seguem mais a religião do que eu. Porque meu ex-marido era mais religioso. Mas tenho acendido as velas de shabat para as crianças (os netos). Por causa da tradição. Faço jantar de Pessach, festejamos Chanucá, porque acho importante as crianças terem essa tradição judaica. Minha filha é casada com um não judeu, então eu acho que fica mais forte, para ela como mãe, ter de passar  as tradições judaicas. Minha netinha de 6 anos disse: “Eu sou meia judia e meia paulista”. Mayana diz que se emociona quando ouve o hino de Israel. “Eu sou judia. Eu me identifico muito com o povo judaico e eu me identifico com Israel.