Anas Baba/AFP

“O dia em que Agualusa promoveu o Hamas”

 Com surpresa e tristeza, lemos o artigo de José Eduardo Agualusa sábado em O Globo. Esperávamos análise sensível, densa, sem desinformação ou preconceitos do premiado escritor. E encontramos, com verniz de intelectualidade, um texto alinhado com a propaganda do Hamas.

O autor, em sete parágrafos, demoniza Israel, mas não reserva uma linha para criticar a organização responsável por incontáveis ataques terroristas e pelo disparo, em dez dias, de mais de 4.300 foguetes e morteiros contra a população civil israelense.

A ofensiva ceifou a vida de duas crianças judias. Agualusa prefere ignorar o fato de que esse saldo trágico poderia ter sido maior, se a sociedade israelense não tivesse investido muito na construção de abrigos antibomba e em sistemas de defesa antimísseis.

Como escreve Agualusa, não podemos silenciar diante do que ocorre em Gaza. Em 10 de maio, o Hamas disparou foguetes contra Jerusalém. O Estado de Israel, exercendo legítimo direito de defesa, respondeu à agressão.

Agualusa carrega lentes ideológicas que o fazem ignorar o fato, repetido há anos, de o Hamas usar civis, hospitais, escolas e mesquitas como escudo para suas bases de lançamento de foguetes contra civis israelenses. Ou, na sua visão, tal prática não merece crítica?

Como brasileiros e judeus, acompanhamos com muita consternação os ciclos de violência na região e lamentamos, e muito, as mortes. Dos dois lados. Palestinos e israelenses merecem paz. Agualusa, no entanto, mostra-se seletivo ao falar em vítimas.

Perguntamos o motivo de Agualusa poupar de críticas o Hamas e seu principal patrocinador, a teocracia do Irã. E ficamos impressionados com o desconhecimento histórico do autor.

O ficcionista ignora os laços do povo judeu com sua terra ancestral e tenta comparar o movimento sionista ao colonialismo europeu. Ignora a formação da diáspora judaica, resultado de expulsões e tentativas de controle de um território estratégico para conquistadores babilônios, persas, romanos, otomanos e árabes, que chegaram à região no século VII.

Agualusa talvez desconheça o fato de, ao longo de séculos, judeus forçosamente espalhados pelo mundo jamais terem abandonado vínculos com sua terra ancestral. Parece também ignorar que o sionismo, durante décadas capitaneado por socialistas refratários à religião, não se baseia em crenças, mas no vínculo histórico de um povo com sua origem e tradições e nas atrocidades que esse povo sofreu na diáspora.

Equivocado, ele tenta descrever o sionismo como um movimento religioso, critica a mistura de fé e política, mas não reserva uma linha para criticar o fundamentalismo do Hamas, que recheia sua carta de fundação com expressões antissemitas e prega abertamente a destruição de Israel.

Mas isso não importa a Agualusa. O escritor ignora a história, os esforços de Israel pela paz, seus acordos com seis ex-inimigos, entre eles Egito, Jordânia e Emirados Árabes Unidos, e tenta aplicar o carimbo de apartheid à sociedade israelense. Sem cuidado com definições ou com a história, Agualusa prefere, mais uma vez de forma seletiva, ignorar a presença da comunidade árabe-israelense no Parlamento, na Suprema Corte, nas forças policiais, no corpo diplomático. Nada disso havia na estrutura abjeta do apartheid.

Agualusa mostra preferir ideologia à realidade e claramente se alinha à cartilha de quem gasta em foguetes e não em vacinas, de quem prefere investir na guerra e não na ciência e no desenvolvimento humano.

O Hamas não prioriza recursos para saúde ou educação da sofrida população de Gaza. Investe em mísseis e túneis militares. Mantém um regime policial, persegue letalmente opositores e minorias religiosas e sexuais. Ao final do conflito atual, Ismail Haniyeh, líder do grupo terrorista, celebrou:

“Destruímos o projeto de coexistência com Israel, de normalização com Israel”.

Quem deseja a paz no Oriente Médio não pode endossar ou ignorar grupos promotores do terrorismo, do fundamentalismo religioso e da intolerância. Muito menos assumir discursos eivados de desinformação e preconceito.

Claudio Lottenberg é presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib).

Foto: Anas Baba/AFP