“O interesse em combater a discriminação não é só das minorias, é de interesse do Brasil”, diz Lottenberg em live sobre discurso de ódio

O encontro online sobre “Os Limites do Discurso de Ódio nas Redes Sociais” realizado na sexta-feira (30) reuniu o ministro Luíz Roberto Barroso, presidente do TSE, Fernando Lottenberg, presidente da Conib, Petria Chaves, jornalista e apresentadora do programa Revista CBN (rádio CBN), do podcast Revisteen CBN Joca e apresentadora do documentário “A Verdade da Mentira”, com a mediação de Débora Freitas. O encontro pode ser assistido no Youtube, Facebook, Twitter e site do canal HISTORY. O evento foi resultado da parceria entre a produtora e distribuidora ELO Company, o Instituto de Tecnologia e Equidade (IT&E), a Agência Lupa e o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), e faz parte da campanha de lançamento do documentário “A Verdade da Mentira”, coproduzido pela ELO, canal HISTORY e IT&E.

O ministro Barroso falou sobre a necessidade de educação básica para combater a desinformação. “É necessário um choque de iluminismo para as pessoas terem a capacidade de assimilar informações e fazerem juízos esclarecidos, caso contrário viram presas fáceis de qualquer líder de qualquer tendência. Divergência de opinião é normal e a sociedade se alinhar mais com um lado do que com outro também é normal. A única coisa que precisa ser coibida é o discurso de ódio, a difusão deliberada da mentira e o discurso destrutivo das instituições, porque tudo isso compromete a democracia”.

“A internet trouxe muitas coisas boas, mas ela também gerou alguns subprodutos muito danosos, especialmente para a democracia, que são as campanhas de desinformação, os discursos de ódio, de desqualificação de pessoas, seja pelo gênero, raça, religião, origem demográfica, ou pela orientação sexual. É deplorável que a internet tenha dado voz e relevância para pessoas que disseminam esse tipo de discurso”.

Lottenberg disse: “Para sairmos da retórica, pela nossa experiência como vitimas desse tipo de ataque, nós fizemos um guia com a Fundação Getulio Vargas (FGV) sobre o discurso de ódio. Nesse guia, procuramos conceituar, educar e orientar quem trabalha nessa área, como advogados, promotores, juízes, delegados para que, ao se defrontarem com essas questões, saibam identificá-las. O grupo de pesquisa concluiu que discurso de ódio é uma manifestação que avalia negativamente um grupo vulnerável, ou individuo, enquanto membro desse grupo, a fim de estabelecer que ele é menos digno de direitos, oportunidades ou recursos, e outros grupos, ou indivíduos membros de outros grupos e, com isso, visam legitimar a prática de discriminação, ou de violência”.

“Gostaria de lembrar que a luta contra as discriminações a minorias não é apenas interesse de uma comunidade, ou de um grupo. E o art IV da Constituição brasileira diz que é um dos objetivos fundamentais promover o bem de todos sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade, ou quaisquer outras formas de discriminação. Ou seja, o interesse em combater discriminação não é só da parte de minorias, é interesse do Brasil”.

A jornalista Petria Chaves falou sobre o documentário “A Verdade da Mentira” gravado em 2018, em meio às eleições presidenciais. “O objetivo foi analisar o comportamento humano, o que são discursos de ódio. O queríamos investigar era não apenas o comportamento politico, jornalístico, mas o nosso comportamento humano que faz com que a gente caia nessa onda de ódio, que é uma onda global. Isso, claro, vai se refletir na politica, mas não é só politica. O que tentamos mostrar é o fenômeno que pode levar a linchamentos virtuais. No documentário pegamos jornalistas, agencias de checagem de informação, analistas e especialistas em comportamento humano. O ódio é um comportamento humano e se conseguirmos trazer luz para o que nos move, para tentar destruir um palco de pluralidade, vamos ter uma vacina contra esse ódio, seja de qual lado ele vier. O ódio não vem da esquerda, nem da direita, ele vem de pessoas de mau caráter e de industrias que lucram com isso. A mentira sempre existiu. A novidade é a escala que isso atinge quando ela vai para as redes sociais”.

O documentário A verdade da mentira estreou no dia 26 de outubro nas plataformas digitais NET NOW, Looke e Vivo Play, e também pode ser assistido no site oficial do filme. O canal HISTORY lança a produção com exclusividade em PayTV no dia 8 de novembro, às 20h45.

O segundo painel, “A experiência de grupos minoritários que sofrem com discursos de ódio”, teve a participação do Alexandre Pacheco da Silva, coordenador do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) da FGV Direito SP; Rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista (CIP) e representante da Conib para o diálogo inter-religioso; Djamila Ribeiro, filósofa e escritora; Cristina Naumovs, consultora de criatividade e inovação; e Rodney William, babalorixá e antropólogo.

Em sua explanação, Schlesinger disse “Tenho orgulho de pertencer a uma religião que sempre estimulou o debate, a pluralidade de ideias e de opiniões; O Talmud traz uma série de opiniões diferentes sobre um mesmo assunto. Mas quando essa diversidade deixa de ser construtiva, ela passa a ser discurso de ódio. Aquela pessoa que diz só entro (nesse lugar) se outra sair é o tipo de pessoa que discrimina e não estamos dispostos a recebe-la. No mundo virtual é parecido. Para a comunidade judaica esse discurso se apresenta de varias formas, uma delas a negação do Holocausto. Qualquer discurso de ódio nos afeta como comunidade: o discurso racista, homofóbico. Defendemos o pluralismo através do debate”, completou.

Do terceiro painel, “Como prevenir os linchamentos virtuais na eleição de 2020”?, participaram Cristina Tardáguila, fundadora e sócia da Agência Lupa; Thiago Rondon, Coordenador digital de combate à desinformação no TSE; Luciano Santos, Diretor do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), e Marco Aurélio Ruediger, Diretor da FGV DAPP.