Os possíveis cenários das eleições israelenses

Faltando apenas poucos dias para as eleições em Israel, o Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, parece estar emparelhado nas pesquisas de intenção de voto com seu principal rival, a Aliança Azul e Branco, o que estaria levando o premier a fazer movimentos desesperados, como o anúncio de anexação de assentamentos na Cisjordânia e do Vale do Jordão.

A pergunta que fica é: valerão a pena todos esses esforços, ou o reinado de uma década de Netanyahu terminará após serem conhecidos os resultados das eleições do dia 17?

Os israelenses votam pela segunda vez em menos de seis meses em uma eleição que pode levar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a ganhar um quinto mandato – fato inédito – ou encerrar sua liderança de uma década na política israelense.

Ele enfrenta novos e fortes opositores ao seu reinado e, após a votação, possíveis acusações criminais em três casos de corrupção. Pesquisas recentes mostraram o partido Likud de direita de Netanyahu empatado com o centrista Azul e Branco. Elas também mostram que nenhuma das partes garantirá uma maioria absoluta.

Veja abaixo alguns cenários possíveis para o desenrolar das eleições de 17 de setembro:

1. Netanyahu vence e alcança maioria no Knesset:
O Likud, juntamente com os três partidos de direita e religiosos que já declararam seu apoio a ele, conquistam a maioria. Com pelo menos 61 legisladores, Netanyahu teria relativamente poucos problemas para montar uma coalizão semelhante ao seu atual gabinete, que apoiou suas posições firmes sobre o Irã e seu acordo nuclear de 2015 e a linha dura sobre o conflito israelense-palestino. Às vésperas da eleição, Netanyahu prometeu anexar os assentamentos que Israel construiu na Cisjordânia, enfatizando a área do Vale do Jordão. Tal movimento encantaria os aliados de extrema direita de Netanyahu.

2. Nenhum partido consegue maioria
Após ser divulgado o resultado das eleições e se nenhum partido obtiver a maioria de votos, o presidente Reuven Rivlin deve consultar os líderes dos partidos para perguntar quem eles apoiariam para primeiro-ministro. Se não houver consenso, o presidente Reuven Rivlin pedirá que forme um governo ao candidato que ele acredita ter a melhor chance para isso. Netanyahu teve sua oportunidade após a eleição anterior, em abril, mas falhou nos 42 dias seguintes, conforme determina a regra. Em vez de correr o risco de Rivlin nomear outra pessoa para tentar, Netanyahu optou por convocar uma segunda eleição.

Se ele for novamente escolhido e de novo enfrentar um impasse, Netanyahu poderia sair do seu bloco de partidos religiosos de direita para formar o chamado governo de “unidade nacional” com aqueles que não são seus aliados naturais.

Isso provavelmente incluiria seu rival mais forte, Benny Gantz, líder do centrista Azul e Branco. Mas Gantz já disse que não se juntaria a um governo liderado por Netanyahu, alegando as possíveis acusações de corrupção contra o premier. Mas a política israelense é conhecida por sua fluidez, sempre em constante mudança. Portanto, tudo pode acontecer.

3. Se não houver vencedor e o novo governo tiver que ser formado sem Netanyahu
Se Netanyahu falhar novamente em formar um novo governo, seu próprio partido poderá derrubá-lo para abrir caminho para uma coalizão governista entre o Likud e o Azul e Branco de Gantz, deixando o premier isolado no meio político. Até agora, ninguém no Likud admitiu publicamente essa possibilidade. Mas isso pode mudar se Netanyahu novamente falhar nas negociações para formar uma coalizão.

4. Se os partidos de centro e de esquerda vencerem
Se os partidos de centro e de esquerda obtiverem maioria no Parlamento, Gantz chefiaria um governo que poderia incluir seu próprio ex-partido, o Partido Trabalhista, e o recém-formado, ambientalista e secularista Campo Democrático, sem precisar de uma aliança com a direita. Seria a primeira vez desde a década de 1990 que a esquerda controlaria o Parlamento, embora, com um eleitorado se posicionando mais à direita, as pesquisas não mostrem essa possibilidade. No entanto, se uma coalizão de esquerda for formada, ela provavelmente iniciará conversações de paz com os palestinos e estará mais aberta a concessões em relação a eles como parte de um acordo de paz duradouro. Também poderia ser mais aceitável o acordo nuclear firmado entre as potências e o Irã.

5. Se não houver vencedor e se novas eleições tiverem que ser convocadas
Se nenhum candidato for capaz de formar um governo, Israel seguirá para outra eleição de forma imediata. Mas é pouco provável que aconteça, já que os legisladores farão o possível para evitar uma terceira votação neste ano.
Como funciona a eleição israelense?

Os 120 assentos do Knesset são alocados por representação proporcional às listas de partidos. Para ganhar assentos, um partido deve receber pelo menos 3,25% dos votos nacionais, o equivalente a 4 assentos. Nas eleições de abril, o Likud e o Azul e Branco saíram empatados com 35 cadeiras cada. Nenhum partido jamais conquistou a maioria absoluta do Knesset (Parlamento) de 120 lugares em 71 anos. Isso faz das coalizões pós-eleitorais a chave para a vitória, e as negociações podem durar semanas.

Quem definirá o jogo?

Segundo as pesquisas, será Avigdor Liberman, o ex-ministro da Defesa de Israel. Pesquisas sugerem que o colono ultra-nacionalista dobrará seus assentos de cinco para dez. Liberman, chefe do partido Yisrael Beytenu, disse que se uniria apenas a um governo de unidade composto por Likud e Azul e Branco.

No entanto, Liberman é uma espécie de curinga e já fez movimentos imprevisíveis no passado.

E quanto às denúncias de corrupção contra Netanyahu?
O procurador-geral Avichai Mandelblit já anunciou sua intenção de indiciar Netanyahu em três investigações de corrupção. Ele deve decidir se o acusará formalmente até o final deste ano de 2019, após uma audiência preliminar em outubro, durante a qual Netanyahu, que nega irregularidades, pode argumentar contra as acusações.

A maioria no Knesset poderia conceder a Netanyahu imunidade para evitar que ele responda a processo até o final de seu mandato. Alguns de seus possíveis aliados sinalizaram que apoiariam tal movimento, mas isso provavelmente atrairia protestos públicos e enfrentaria desafios legais na Suprema Corte. No entanto, mesmo se indiciado, Netanyahu não estaria sob a obrigação legal de renunciar. Seus aliados de direita e religiosos não devem pressioná-lo a renunciar, mesmo que ele seja acusado.

E quanto ao “acordo do século” de Trump?
Netanyahu disse que espera que o presidente dos EUA, Donald Trump, libere seu plano – há muito esperado – de paz entre israelenses e palestinos logo após a eleição. Se Netanyahu vencer e formar um gabinete de direita, dificilmente conseguiria que seus aliados de extrema-direita assinem qualquer plano de paz que envolva concessões aos palestinos. Isso poderia desestabilizar o governo ou enterrar de vez o plano de Trump. Um gabinete com Gantz provavelmente seria mais aberto a negociações com os palestinos.