Divulgação - CONIB

Os professores têm hoje um desafio maior do que apenas ensinar: o de descobrir onde estão as dores dos seus alunos, diz Vera Bobrow

Ex-presidente da Federação Israelita do Estado de S.Paulo (Fisesp) em duas gestões (1995-1997 e 1997-1998) e responsável por programas de referência na área educacional e de apoio à mulher, Vera Mindlin Bobrow falou à CONIB sobre a sua origem, o desafio dos professores para detectar o bullying sofrido por seus alunos, o lançamento bem sucedido – e reeditado pelo escritor Mauricio de Souza – da cartilha dirigida a professores, jovens e crianças para promover relacionamentos saudáveis e o ELF (Grupo de Empoderamento e Liderança Feminina) para prevenir a violência doméstica contra mulheres.

Origem:  

A família do meu pai é de origem ucraniana. No momento estou tocada com o que se passa lá. Meu pai, junto com outros irmãos e seus pais, vieram de Odessa. Já a família da minha mãe veio do que é hoje a Moldávia, Vieram de pequenas vilas – Securon e Edelitz.

Cartilha para crianças e jovens: 

Essa cartilha teve como objetivo reduzir a incidência de agressividade entre os jovens por meio de mudanças de normas sociais, práticas e comportamentos. A Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) desenvolveu essa cartilha que pode ser usada como um guia de prevenção contra a violência e que já foi distribuída para todas as escolas judaicas e movimentos juvenis.

Essa cartilha é recente – não foi feita no período em que estive à frente da Fisesp. Eu saí da Fisesp há 20 anos. Depois que eu terminei minhas duas gestões – na presidência e no conselho – eu voltei para a federação. E é nessa segunda fase, agora, que eu entrei num movimento feminino da federação que se chama ELF (Grupo de Empoderamento e Liderança Feminina). Esse grupo foi criado como forma de combater a violência contra mulheres e crianças – violência doméstica. Eu assisti algumas atividades desse grupo e me ofereci para o caso de o grupo abrir um outro espaço para um programa de prevenção em educação. Esse grupo chama-se Relacionamentos Saudáveis. Estamos atuando há dois anos e o nosso público alvo são as crianças das escolas judaicas e jovens de movimentos juvenis.

A nossa cartilha foi feita depois de um ano e meio de trabalho. É resultado de uma pesquisa criteriosa, cuidadosa e tendo como alvo os profissionais que lidam com essas crianças e jovens. É uma cartilha com um vocabulário muito cuidadoso. Abordamos o lado positivo e evitamos os aspectos negativos. Reforçamos o lado bom, dos bons relacionamentos, saudáveis e respeitosos, os inclusivos, gentis e alertamos as crianças para procurarem a ajuda de um adulto, quando se sentirem incomodadas, inseguras, constrangidas, desconfortáveis com alguma situação. Esse é o teor principal de nossa cartilha. A cartilha aborda tópicos como: como identificar um relacionamento abusivo, como um educador deve abordar uma vítima de violência, por que relacionamentos abusivos existem e como orientar os alunos, entre outros tópicos.

Essa primeira cartilha está voltada para crianças e jovens dos 12 aos 17 anos. E, no momento, estamos desenvolvendo outro tipo de material para ser direcionado aos pais, porque o foco serão as crianças pequenas, dos seis aos doze anos.

Uma coisa interessante é o fato de nossa cartilha ter sido elogiada e apoiada pelo Instituto Mauricio de Souza, que fez uma releitura da nossa cartilha e a ilustrou com os personagens da Turma da Mônica. Esta versão nova do Mauricio de Souza foi para o Brasil inteiro. O conteúdo é nosso, apoiado por ele, mas a nossa versão está ilustrada de outra forma, mais simples – não temos um profissionalismo dentro dessa área, de ilustrações. Fizemos uma abordagem cuidadosa com o pessoal da área de educação e dos movimentos juvenis e as crianças. E o Mauricio de Souza aproveitou a ideia e deu um olhar próprio à cartilha.

O nosso conteúdo, base da cartilha do Mauricio de Souza, é só para escolas judaicas e movimentos juvenis. A cartilha do Mauricio foi divulgada no Brasil inteiro pelas redes sociais dele para estados e municípios. Nós não estamos cuidando da divulgação da cartilha editada pelo Mauricio de Souza.

A volta ao ensino presencial 

Tenho netos pequenos. E nas duas escolas particulares em que estão tiveram um acompanhamento muito bom em ambas. Conseguiram se manter adequadamente e bem adaptados socialmente juntos aos colegas e professores. Tinham muita vontade de voltar para a escola. Ouvi uma das minhas netas – a que está terminando o ensino médio (colegial) – dizer que está estudando melhor agora porque se distrai menos com a conversa dos colegas e está produzindo melhor. Penso que cada criança buscou se adaptar à sua maneira. Já o meu neto de dez anos exigiu muito da mãe para mantê-lo atento na frente do computador. Penso que essa adaptação de volta ao ensino presencial vai depender do modelo da casa, se os pais estiveram mais disponíveis, ou não, no acompanhamento online. Acho que (a volta às aulas presenciais) vai ser um processo trabalhoso e difícil para os professores. Mas esta não é a primeira crise que enfrentamos e não será a última. E os pais podem contribuir na adaptação das crianças. Adaptação é um mecanismo que todos nós, crianças, jovens e adultos temos que aprender.

O ELF 

O ELF é resultado de uma postura nova de mulheres, na faixa dos 30 aos 50 e 60, extremamente capacitadas, com expertise em vários assuntos e frustradas na sua vontade de participar de conselhos, de diretorias, de estar no espaço que elas acham que lhes convém, porque têm capacidade e não encontram esse espaço liberado. Esse grupo começou com essa vontade de mulheres de assumir novos espaços, não por benevolência, ou boa vontade, mas porque querem participar de grupos de liderança, com base no conhecimento que têm. Essas mulheres não buscam favorecimento. Elas querem assumir o que lhes é devido, o que lhes é de direito. E dentro do ELF há um grupo muito significativo de mulheres que estão nessa ‘onda’, nessa ‘vibe’, como elas costumam dizer.

Há quatro anos nós entramos num programa de acolhimento a mulheres vítimas de violência doméstica – contra elas e seus filhos. Desse grupo fazem parte psicólogas, advogados, assistentes sociais. E as mulheres que necessitam desse apoio têm uma ‘hot line’ permanente. Apenas no shabat esse canal direto é interrompido, mas, dependendo da urgência da situação, esse contato pode ser retomado também nesse período numa linha dentro da Fisesp. Logo no começo recebemos muitas ligações de mulheres buscando mais informações do que levando seus problemas. Em quatro anos atendemos 80 mulheres. Embora tenhamos esse atendimento disponível ainda é muito difícil para as mulheres buscarem essa ajuda e muitas vezes quando procuram acabam voltando atrás e quando recebem algum encaminhamento, ou alguma sugestão, acabam desistindo. É fácil imaginar as razões: vergonha de se expor, questões financeiras graves. Por isso acabam se submetendo a situações que acreditam ser por amor, misturado com responsabilidades, culpa e cuidados com os filhos. São mulheres que não conseguiram trabalhar por motivos próprios, ou porque foram impossibilitadas pelos maridos de se libertarem pelo menos financeiramente. São situações difíceis, mas nós não desistimos. Estamos presentes e elas sabem disso, Esse grupo é ativo, sério e trata todos os casos com a maior confidencialidade. As pessoas que buscam ajuda recebem um apelido e as que atendem também se apresentam por codinomes. E entre as voluntárias há ortodoxas e quando as que buscam ajuda se identificam como religiosas elas são encaminhadas a quem pode entendê-las melhor. Posso dizer que temos um ninho de acolhimento, mas entendemos a dificuldade dessas mulheres de buscarem ajuda. Mas acabarão chegando. Não que a gente queira ver o sofrimento dessas pessoas, ao contrário, queremos vê-las saindo do sofrimento. Não há por que viver aprisionada numa situação que faz mal para essas mulheres e suas crianças. E com relação a esses maridos, a nossa ideia é abrir espaço e trazê-los para a discussão, para que também eles possam expor seus problemas e os motivos que os levam a ter comportamentos violentos.

É importante dizer que uma mulher machucada, maltratada, violentada não tem culpa da situação em que vive. Ela é vítima. E por ser vítima ela merece todo o apoio, reconhecimento e ajuda de toda a comunidade. O nosso programa é uma porta de entrada, mas temos muita gente ao redor disposta a ajudar, seja oferecendo emprego e outras condições para facilitar a vida delas. Essas mulheres não devem sofrer porque não está escrito em lugar nenhum que o casamento é prisão. Casamento é para compartilhar amor, criar filhos saudáveis, ser feliz e ter realização pessoal. O casamento nunca deveria inibir a felicidade, nem a realização pessoal de ninguém. Meu recado a essas mulheres é: sejam corajosas, sabemos que é difícil. E se derem um passo à frente e dois atrás iremos entender e continuaremos aqui para ajudá-las. Não vamos abandonar quem voltar atrás. Vamos estar sempre disponíveis.

Bullying

O tema bullying também está presente no nosso dia a dia do ELF. Infelizmente vivemos uma fase da sociedade em que esses comportamentos nocivos acontecem com muita facilidade via internet. A quantidade enorme de sites onde as pessoas entram seja por descuido ou mera curiosidade, ou irresponsabilidade, tem suas consequências. O mal não constrói. E bullying machuca os dois lados: a vítima e quem ofende. Bullyng é desmontar a personalidade do outro. E nenhum de nós tem esse direito. E as crianças mais bonitas, menos bonitas, mais altas, mais baixas, de óculos, sem óculos, todas merecem respeito. E os mais bonitos, mais altos, mais inteligentes devem ter a maior responsabilidade para com os mais frágeis. Não há justificativa para maltratar o outro. E isso um dia vai ser cobrado através de nossa própria consciência. Então minha mensagem é: não façam o que parece ser uma brincadeira. Isso não é brincadeira. Brincadeira é quando os dois se divertem. Quando apenas um se diverte é uma maldade que muitas vezes não tem volta. Há casos que levam a vítima de bullying ao suicídio, porque não aguentam a pressão de gente que não tem empatia, que não respeita o ser humano. As crianças precisam ser informadas da seriedade que o bullying representa na vida de qualquer um. E os professores precisam estar atentos a essas situações. Não adianta só dar aula. É preciso estar próximo das crianças, ver além do que simplesmente conferir as lições de casa. É deve do professor observar se a criança está feliz, se brinca no recreio, se tem amigos, se chegou na escola com os olhos marejados. Ser professor hoje em dia exige muito mais do que simplesmente dar aula. Deveriam ser como os de minha época de criança, em que os professores eram carinhosos, nos recebiam de braços abertos. Depois a relação professor-aluno entrou numa fase de distanciamento, Mas hoje, mais do que nunca, os professores devem exercer, inclusive, a função dos pais, que trabalham e passam a maior parte do tempo longe de seus filhos. Hoje a criança fica muito sozinha, livre diante da tela da TV e do computador, brincando com jogos agressivos de luta – os games. Por isso os professores têm uma responsabilidade maior do que a de ensinar. Eles têm o desafio de descobrir onde estão as dores dos seus alunos. Como avó e bisavó de alunos eu faço um apelo aos professores: cuidem dos meus netos e bisnetos, porque os pais deles, meus filhos, estão trabalhando e não veem o que está acontecendo com seus filhos. Temos que formar um círculo de proteção. Uma comunidade deve representar um enorme abraço: todos responsáveis por todos. Os professores, os madrichim dos movimentos juvenis, o professor de natação, de inglês, e até o zelador do prédio. Precisamos abrir os braços para essa população mais sensível e abraçar não apenas as crianças, mas também os idosos. Quantos idosos ficam trancados dentro de casa? Por que o zelador não poderia, por exemplo, ligar para o morador idoso e perguntar se ele está bem e se quer ajuda para descer no prédio e andar no pátio. Somos responsáveis por todos, não podemos abandonar ninguém. A faixa dos que estão firmes e fortes é menor do que a faixa das crianças e dos idosos, que são pessoas que ficam um tanto à deriva. Então, todos nós somos responsáveis por todos.