AP Photo/Michel Euler

Para a comunidade judaica da França, o caso Halimi representa um divisor de águas na história dos judeus franceses

Mais de 20.000 membros da comunidade judaica francesa participaram da grande manifestação de protesto neste domingo em Paris para demonstrar sua indignação contra a decisão da Corte de Apelações de inocentar o assassino da judia Sarah Halimi. Outras manifestações foram realizadas no domingo em Israel, EUA e Reino Unido em protesto contra a decisão da justiça francesa, que decidiu inocentar o assassino de Halimi, o muçulmano Kobili Traore, de 27 anos, por ele ter fumado maconha antes de cometer o crime.
Os eventos judaicos franceses costumam terminar muitas vezes com o canto da Marselhesa – o hino nacional francês. Mas na manifestação de domingo – evento que teve a maior participação da comunidade judaica francesa em pelo menos uma década – o sentimento era de revolta e incerteza sobre o futuro dos judeus na França.
O protesto, que teve ramificações em outras cidades como Tel Aviv, Miami, Londres e Haia, foi desencadeado pela decisão de 14 de abril da Corte de Apelações francesa no caso Halimi.
Sarah Halimi, de 65 anos, foi assinada em 2017 por seu vizinho, Kobili Traoré, que invadiu seu apartamento, a espancou e depois atirou-a pela janela. O caso chocou a França.
Desde então, Traoré está internado num hospital psiquiátrico. A Corte de Apelações confirmou sentença de tribunais inferiores que consideraram que Traoré não poderia ser responsabilizado pelo crime porque estava sob surto psicótico pelo efeito da maconha.
Na manifestação de domingo, muitos viram o episódio como a gota d’água no relacionamento tenso entre os judeus da França e seu sistema de justiça, e em sua posição tênue em um país conhecido por suas altas taxas de incidentes antissemitas.
Alguns manifestantes seguraram cartazes com os dizeres “estupefaciente”, a palavra francesa que também pode se referir a “droga”. Outros carregavam faixas com frases contra o antissemitismo.
Cartazes diziam “Na França, a vida de uma judia vale menos do que a de um cachorro, referindo-se a outro caso ocorrido em 2017 em que um homem que jogou um cachorro pela janela não conseguiu convencer os juízes de que estava completamente sob efeito de drogas.
“Digo isso com tristeza: estamos chegando a um ponto grave”, disse Joel Mergui, presidente da Consistoire, o órgão do judaísmo francês responsável por oferecer serviços religiosos ortodoxos. “Sim, gritem sua fúria!”, disse ele falando em um microfone montado num palco. “Essa foi uma decisão que é um divisor de águas, uma mancha negra na confiança dos judeus franceses em seu país”.
Allyana Levy, 20, uma estudante de Paris no meio da multidão e líder de um grupo juvenil judaico, admitiu que não tinha certeza sobre seu futuro na França.
“Às vezes penso em ficar aqui, mas agora, depois do caso de Sarah Halimi, não tenho tanta certeza”, disse ela. “Quando tenho medo de andar na rua porque sou mulher, porque sou judia, fica difícil. Minhas sobrinhas em Israel se sentem seguras a qualquer hora da noite. Então começo a pensar nessa possibilidade”.
Levy mora no 11º distrito de Paris, onde fica a rua tranquila onde Halimi morava. Antes um bairro de imigrantes pobres, seus açougues halal e mesquitas agora funcionam ao lado de bares elegantes e lojas de produtos orgânicos – o que tornou o distrito um local preferido para estudantes e famílias jovens.

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