“Para gigantes das mídias sociais, citações antissemitas significam liberdade de expressão, e não discurso de ódio”

A celebridade Attila Hildmann, chefe de cozinha e autor alemão, pergunta em uma pesquisa em seu canal do Telegram com mais de 60.000 assinantes: “Quem financiou o Holocausto? A. os japoneses B. Os sionistas C. Os árabes” – e 87% dos quase 6.000 votos foram para “os sionistas”. Um certo clérigo xiita (Ali Khamenei, do Irã) posta no Twitter que meu país (Israel) é um “câncer mortal que precisa ser destruído”.

O mundo hoje está infectado com duas pandemias: Covid-19, infectando pessoas, e ódio e antissemitismo online, como nos exemplos acima, infectando todas as principais plataformas de mídia social. Como a Covid-19, o ódio online começa com alguns indivíduos infectados e se espalha, muitas vezes despercebido, para o mainstream. Às vezes, seus sintomas são leves ou inócuos; e em alguns casos, são mortais.

Juntamente com outras minorias, os judeus vêm se manifestando e alertando sobre esse vírus do ódio há mais de uma década, assim como outras comunidades LGBT, negros, asiáticos e muçulmanos, suportam esse peso há anos. Apenas medir o escopo do discurso de ódio online já assustou os pesquisadores. Segundo a Liga Anti-Difamação (ADL), em 2017, foram postados no Twitter cerca de 4,2 milhões de tuites antissemitas – um mar de ódio. No início de julho, o YouTube removeu 25.000 páginas de discurso de ódio, incluindo as do comediante antissemita francês Dieudonne e os neonazistas norte-americanos Richard Spencer e David Duke.

Mas aqui está a parte realmente preocupante. Se a história do antissemitismo nos ensinou uma coisa, é que o que começa como uma retórica odiosa pode rapidamente se transformar em violência, assédio físico e coisa pior. Muitos dos crimes de ódio atuais – onde quer que ocorram – começaram com o discurso de ódio online, especialmente nas plataformas de mídia social. É por isso que nossa preocupação vai além do mundo dos laptops e dispositivos móveis das pessoas ou de argumentos legítimos sobre liberdade de expressão. Isso decorre de uma determinação em evitar futuras violências.

Durante anos, apesar de reconhecer que havia um problema e dizer que eles têm mais o que fazer, os gigantes das mídias sociais deixaram o problema crescer e tomaram poucas medidas proativas para lidar com o ódio online. Seus termos de uso são detalhados e sujeitos a interpretação quando se trata de implementá-los. Embora haja sinais de que eles finalmente começaram a levar o problema a sério, só acreditaremos quando o virmos – através de ações colocadas em prática.

A primeira coisa a ser feita no combate ao incitamento e ao antissemitismo online, como no mundo real, é defini-lo. Embora apelar pelo assassinato de judeus seja obviamente um discurso de ódio antissemita, o que dizer de outras formas importantes, ainda que um pouco menos óbvias, como dizer que “os judeus controlam as finanças mundiais” ou “os israelenses são nazistas” ou “o Holocausto foi algo exagerado”.

É necessário definir claramente o que constitui o antissemitismo nas mídias sociais. Para combatê-lo, é preciso, antes, defini-lo. Felizmente, existe uma definição. A Aliança International para a Memória do Holocausto (IHRA) formulou a Definição de Trabalho de antissemitismo em 2016, que desde então foi oficialmente adotada por duas dúzias de países e pela União Europeia. Se tantos países adotaram a Definição de Trabalho, espero que as “entidades soberanas” do Facebook, Twitter, Google e TikTok possam fazer o mesmo. Críticas a minorias ou ao Estado de Israel não são discursos de ódio ou antissemitismo; a definição afirma explicitamente que a crítica a Israel não é antissemitismo.

Um segundo passo é a transparência. A Alemanha exige que as empresas de mídia social publiquem relatórios regulares sobre as denúncias que recebem, inclusive sobre discurso de ódio e quais ações foram tomadas. No ano passado, a Alemanha multou o Facebook em dois milhões de euros por apresentar relatórios insuficientes. Uma política de relatórios abertos deve ser adotada pelas empresas de mídia social, e esses relatórios devem ser produzidos por um auditor externo imparcial.

Essa é uma maneira clara de entender o que compreende o antissemitismo e uma política de denúncia independente e transparente. Sem exceções. O exemplo do clérigo que mencionei no início deste texto não é outro senão o Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei.

Apesar da política clara do Twitter, o post está online, intocado. A empresa se recusa veementemente a remover ou até rotular a postagem, observando em sua resposta a uma carta que enviei chamando-o por isso, que os líderes mundiais são respeitados por um conjunto diferente de regras. Mas pergunto: se pedir que um país seja destruído não está incitando a violência ou discurso de ódio, então o que é? Incitamento é incitamento, e quando vem de líderes dominantes é ainda mais grave. Referir-se ao Estado judeu, como um “crescimento canceroso”, é uma retórica antissemita clássica e indesculpável.

Mark Zuckerberg anunciou recentemente a intenção do Facebook de impedir tentativas de supressão e violência de eleitores nas próximas eleições nos EUA; depois disso, Sheryl Sandberg admitiu que “o Facebook precisa melhorar a remoção do discurso de ódio”. Bem, já é hora de todos os líderes de mídia social começarem a agir sobre isso em relação ao discurso de ódio. São as plataformas de mídia social que controlam a percepção e a opinião pública de hoje. Essa imensa influência deve ser acompanhada de prestação de contas. Liberdade de expressão não é a liberdade de espalhar o ódio.

Esta é uma pandemia da própria criação da sociedade e, se não for tratada, piorará e custará vidas.

Orit-Farkash-Hacohen é ministra de Assuntos Estratégicos de Israel e membro do Gabinete de Segurança Nacional do país.