Por laços com EUA e por temor ao Irã, aliados árabes apoiam plano de Trump

Quando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu prometeu anexar o vale do Jordão em setembro passado, se vencesse a eleição, os governos árabes aliados dos EUA se uniram aos palestinos contra a iniciativa israelense.

A corte real da Arábia Saudita chamou a declaração de Netanyahu de “uma escalada muito perigosa contra o povo palestino” e acrescentou que a inciativa, se colocada em prática, representaria “uma clara violação da Carta das Nações Unidas e das normas internacionais”.

O Ministério das Relações Exteriores do Bahrein chamou a promessa do primeiro-ministro de “uma violação inaceitável dos direitos do povo palestino”. O ministro das Relações Exteriores da Jordânia, Ayman Safadi, disse que a iniciativa iria “destruir as bases do processo de paz”.

E o Ministério das Relações Exteriores do Catar disse que constitui “uma extensão da política da ocupação de violar leis internacionais e empregar métodos desprezíveis para atingir o povo palestino”.

Mas na terça e na quarta-feira, depois que o governo dos EUA divulgou seu plano para resolver o conflito entre israelenses e palestinos, que prevê a anexação do vale do Jordão por Israel, a maioria dos mesmos governos árabes emitiu declarações em tom bem diferente em relação às medidas anunciadas por Netanyahu em setembro.

Embora não tenham expressado total apoio ao plano, esses países também não o rejeitaram de imediato, nem fizeram observações críticas a ele.

Os palestinos, de sua parte, criticaram o plano americano, com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, chamando a proposta de “o tapa do século”, em referência ao chamado “acordo do século”, e prometendo arquivá-lo nas “lixeiras da história”.

O Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita disse que Riad “reitera seu apoio a todos os esforços destinados a alcançar uma solução justa e abrangente para a causa palestina” e “aprecia os esforços do governo do presidente (Donald) Trump para desenvolver um plano abrangente de paz”. O reino do Golfo “incentiva o início de negociações diretas de paz entre os lados palestino e israelense, sob os auspícios dos Estados Unidos, e para resolver desacordos com aspectos do plano por meio de negociações”.

O Ministério das Relações Exteriores do Bahrein disse que Manama “reafirma seu apoio a todos os esforços destinados a alcançar uma solução justa e abrangente para o conflito, o que leva à restauração de todos os direitos legítimos do povo palestino e ao estabelecimento de um Estado palestino independente”.

Os Emirados Árabes Unidos foram mais claros em seu apoio, chamando o plano de “uma iniciativa séria” e afirmando que a proposta americana “oferece um importante ponto de partida para o retorno às negociações dentro de uma estrutura internacional liderada pelos EUA”.

Enquanto isso, Catar e Jordânia emitiram declarações mais fortes, mas também se abstiveram de condenar o plano.

O Catar disse que congratula-se com “todos os esforços visando uma paz justa e duradoura” e “aprecia os esforços do presidente Trump e do atual governo dos EUA para encontrar soluções para o conflito israelo-palestino”. O emirado do Golfo também disse que “a paz não pode ser sustentável se não forem preservados os direitos dos palestinos em ter seu estado soberano dentro das fronteiras de 1967, incluindo Jerusalém Oriental, e o retorno de refugiados”.

Safadi, o ministro das Relações Exteriores da Jordânia, expressou apoio ao estabelecimento de um Estado palestino ao longo das linhas de 1967 com Jerusalém Oriental como sua capital e alertou contra “as perigosas consequências de medidas israelenses unilaterais, como anexação de terras palestinas, construção e expansão ilegal de assentamentos e invasões em locais sagrados em Jerusalém”.

Na terça-feira, alguns países árabes, incluindo Bahrain, Emirados Árabes Unidos e Omã, também enviaram representantes para Washington para participarem da cerimônia de lançamento do plano na Casa Branca.

Eldad Shavit, pesquisador sênior do instituto de estudos de segurança nacional em Tel Aviv, disse que muitos dos países árabes optaram por não criticar diretamente o plano porque não viram vantagem em fazer isso.

“Eles certamente querem manter boas relações com os EUA”, afirmou Shavit, ex-oficial de alto escalão da Inteligência Militar das IDFs e do gabinete do primeiro-ministro. “Eles também sabem que esse plano pode permanecer na prateleira e nunca ser implementado. Portanto, eles não acham que há muito a ganhar com a crítica explícita agora”.

Além de colocar o Vale do Jordão sob soberania israelense, o plano prevê a criação de um Estado palestino em cerca de 70% da Cisjordânia, que reuniria um punhado de bairros em Jerusalém Oriental, a maior parte da Faixa de Gaza e algumas áreas do sul de Israel – com a condição de que os palestinos reconheçam Israel como um Estado judeu e que o Hamas e outros grupos terroristas na Faixa de Gaza se desarmem.

O plano também permite a Israel anexar assentamentos, concedendo ao Estado judeu o controle de segurança a oeste do rio Jordão e impedindo que os palestinos entrem em Israel como refugiados.

Shavit, no entanto, observou que acredita que vários países árabes mudariam sua retórica sobre o plano, se Israel decidisse anexar unilateralmente partes da Cisjordânia. “Acredito que os EUA prometeram a esses países que Israel não tomaria medidas unilaterais e que haveria negociações”, disse ele. “Se isso mudar e Israel anexar, por exemplo, acho que veremos esses países tomando posições diferentes”.

Netanyahu disse na terça-feira que pretendia submeter a anexação dos assentamentos na Cisjordânia ao gabinete no próximo domingo, mas o ministro do Turismo, Yariv Levin, sugeriu na quarta-feira que isso não aconteceria.

Levin disse que ainda há vários obstáculos burocráticos a serem superados, incluindo “submeter o plano ao procurador-geral para que analise o conteúdo”.

Questionado sobre a possibilidade de Israel anexar unilateralmente os assentamentos na Cisjordânia, Jared Kushner, assessor e genro de Trump e autor do plano, disse: “A previsão é de que eles esperem até depois da eleição – em 2 de março – e então trabalharemos juntos para analisar os passos”.