Presidente do Twitter diz que negar Holocausto não se encaixa em regra de desinformação da plataforma

O presidente do Twitter, Jack Dorsey, afirmou nesta quarta-feira (28) que a rede social não possui uma política específica contra publicações negacionistas sobre o Holocausto.

A declaração foi dada durante uma audiência virtual do Comitê de Comércio do Senado americano, que discutiu as políticas de moderação na internet e a seção 230 da Lei de Decência das Comunicações.

O dispositivo protege empresas de mídias sociais da responsabilidade por conteúdos publicados por usuários. Além de Dorsey, o presidente do Facebook, Mark Zuckerberg, e o presidente da Alphabet (dona do Google), Sundar Pichai, também foram convocados.

Ao ser questionado pelo senador republicano Cory Gardner sobre os motivos de o Twitter ter adicionado alertas de conteúdo incorreto em postagens do presidente Donald Trump, mas não ter feito o mesmo em publicações de outros líderes mundiais, Dorsey respondeu que as políticas contra desinformação na plataforma estão restritas a três categorias: mídia manipulada, saúde pública (relacionada exclusivamente à Covid-19) e integridade civil, interferência eleitoral e supressão de votos.

Em outro momento, Gardner perguntou se a negação do Holocausto, o genocídio de 6 milhões de judeus cometido pelos nazistas ao longo da Segunda Guerra, não seria desinformação – o congressista fazia referência às postagens do aiatolá iraniano Ali Khamenei, que relativiza a ocorrência da tragédia.

“Seria informação enganosa, mas não temos políticas contra esse tipo de informação enganosa”, declarou Dorsey. O responsável pelo Twitter informou que a companhia tem outras regras relacionadas à “incitação de violência” e sugeriu que algumas das publicações mencionadas pelo senador poderiam se enquadrar nessa categoria. A postagem do líder iraniano, publicada em 2014, não foi removida nem recebeu alertas.

Na mensagem, Khamenei afirma que o Holocausto é um evento cuja “realidade é incerta, e, se ocorreu, é incerto como ocorreu”. Nesta quarta, o líder iraniano voltou a tratar do assunto na plataforma.

“Por que é crime levantar dúvidas sobre o Holocausto? Por que alguém que escreve sobre tais dúvidas deve ser preso enquanto insultar o profeta é permitido?”, escreveu.

O aiatolá fazia críticas ao conflito em torno de caricaturas de Maomé, episódio que tem acirrado o clima entre países mulçumanos e europeus desde que um professor francês foi decapitado na França após exibir desenhos do profeta a alunos em uma aula de liberdade de expressão.

As declarações de Dorsey nesta quarta contradizem um anúncio feito pela empresa no início do mês.

Segundo declarou uma porta-voz da rede social ao site americano Bloomberg, o Twitter passaria a remover conteúdos que “tentassem negar ou minimizar” atos históricos de violência, incluindo o Holocausto, por violarem a política de conduta dos usuários. “Condenamos fortemente o antissemitismo, e a conduta odiosa não tem lugar na nossa plataforma”, disse a porta-voz.

A decisão seguiu resolução parecida do Facebook, também anunciada no início do mês, que decidiu bloquear posts negacionistas da tragédia. Durante a campanha de reeleição, Donald Trump tem travado uma batalha contra as gigantes da tecnologia. O republicano já ameaçou fechar as redes sociais e, em maio, assinou um decreto para reduzir as proteções legais de empresas de tecnologia.

Usuário assíduo do Twitter, Trump teve ao menos três publicações notificadas com alertas de desinformação, conteúdo incorreto e mídia manipulada.

As intervenções têm irritado o presidente e parlamentares republicanos – que acusam as empresas de tentarem silenciar vozes conservadoras nas redes e influenciar as eleições.