Foto: Capa do Dicionário Brasileiro de Comunicação e Religiões

Professora destaca a importância do recém-lançado Dicionário Brasileiro de Comunicação e Religiões

A professora Roseli Fischmann, da USP, fala à CONIB sobre a importância do recém-lançado Dicionário Brasileiro de Comunicação e Religiões, fruto de parceria entre o Grupo de Pesquisa Comunicação e Religiões da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e o Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). A professora, que representou a CONIB na audiência pública que, em junho de 2015, discutiu no Supremo Tribunal Federal a questão da constitucionalidade do ensino religioso nas escolas públicas, assina o verbete “Intolerância Religiosa” na obra. “Tal gravidade do tema discurso de ódio no Brasil levou a CONIB a desenvolver, junto com a FGV, de São Paulo, o Guia de Análise de Discurso de Ódio. São recursos de instituições que se somaram para promover a reflexão, a elaboração conceitual e a oferta de materiais para quem esteja interessado em sua própria e constante formação”, diz ela. Participaram do comitê inter-religioso a professora Patricia Tolmasquin e o rabino Alexandre Leone, que escreveu no Dicionário um verbete sobre judaísmo. A obra impressa, com mais de 60 verbetes e mais de 700 páginas, estará disponível nas livrarias a partir de junho próximo.

Qual o significado do lançamento dessa obra, no presente momento?

A iniciativa dos coordenadores do Dicionário, Profa. Dra. Magali Cunha (ISER), coordenadora do GP da Intercom, mencionado por você, e pelo Prof. Dr. Allan Novaes (UNASP), tem relevância especial pela seriedade com que foi proposto e elaborado. A Intercom tem papel destacado no mundo acadêmico, reunindo os programas de pós-graduação em comunicação de todo o Brasil que formam doutores e mestres em comunicação. É claro que a Intercom tem destaque também na sociedade em geral, e serviu de sede para os estudos e seminários que levaram à configuração do Dicionário, em diversas seções. Fiquei honrada com o convite da coordenação da obra para escrever o verbete sobre intolerância religiosa, num momento crítico como o que vivemos, de tanta discriminação e de crescimento e intensificação do discurso de ódio.

Como vê a propagação do discurso de ódio, tema a que a CONIB tem dado grande atenção?

Sim, tenho acompanhado as iniciativas da CONIB nesse sentido, todas muito meritórias, criando uma expertise própria da instituição que se constitui em contribuição para a sociedade. Para ficar no tema do Dicionário, inevitavelmente teria que tratar do discurso de ódio no âmbito da intolerância religiosa. Mencionei o papel pioneiro do Professor Celso Lafer tratando do tema, em especial em seu relevantíssimo parecer como amicus curiae para o STF, no caso Ellwanger, antissemita e negacionista do Holocausto. Foi o Professor Celso Lafer também que me indicou o trabalho do prof. dr. Daniel Sarmento sobre o que, em 2006, era ainda denominado em inglês, hate speech. De lá para cá, o assunto vem ganhando cada vez mais atenção e a CONIB tem grande responsabilidade na ampliação e divulgação desse tema.

O discurso de ódio e intolerância são questões recorrentes que levaram a CONIB a desenvolver, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, o “Guia para Análise de Discurso de Ódio”, um relatório de 350 páginas, que tem como objetivo definir e ajudar na identificação dos temas. Como vê essa iniciativa?

É a esse tipo de trabalho da mais alta relevância que me refiro, ao dizer que a CONIB tem grande responsabilidade no modo como o tem se disseminado o estudo e o debate sobre o discurso de ódio na sociedade em geral. Tal é a relevância, que fiz questão de incluir no verbete do Dicionário a menção especificamente a essa iniciativa pioneira da CONIB, pois o “Guia para Análise de Discurso de Ódio” é um instrumento prático e de fácil uso para tratar fenômeno cuja complexidade é indiscutível. Considero que somente foi possível o “Guia” ser tão acessível, por ter sólida fundamentação teórica, como também pela decisão firme da CONIB de oferecer à sociedade um instrumento que todos pudessem ter à mão, sem rodeios.

Como vê a propagação do discurso de ódio pela internet através das redes sociais?

Infelizmente o ódio gerado por intolerância religiosa, para ficar em nosso tema, existe historicamente. A intensificação e aumento da virulência do discurso de ódio, contudo, é um fenômeno muito ligado às redes sociais que, por sua vez, oscilam entre um certo espontaneísmo descontrolado e uma estruturação intencional, programada. Um dos problemas está em como é ainda relativamente pouco conhecido o modo e recursos com que contam aqueles que se valem dessa estruturação intencional. Os usuários das redes sociais precisam conhecer esses mecanismos para se defender em diversos níveis e sentidos. Penso também que gradativamente vamos assistindo um movimento de maior consciência da questão. Mas é preciso avançar.

Como vê a abordagem da mídia em questões de intolerância e discurso de ódio?

Justamente o lançamento do “Dicionário” vai na direção de oferecer à sociedade em geral e aos profissionais de mídia, em especial, conhecimentos sobre as religiões e estruturas em torno das quais se organizam os grupos religiosos. Penso que a mídia profissional, de qualidade, tem estado cada vez mais atenta e crítica a tudo que se refere a intolerância e discurso de ódio. Coordenei com a Profa. Dra. Margarida Krohling Kunsch, em 2001, o livro Mídia e Tolerância, publicado pela EDUSP, com apoio da UNESCO e do Ministério das Relações Exteriores, resultado de seminário internacional da UNESCO, Paris, em colaboração com a USP, do qual fui coordenadora geral, e já ali sentimos a recepção muito positiva da mídia. Vejo com otimismo, portanto.

Como vê o crescimento do antissemitismo no Brasil e no mundo?

Esse tema é dos mais urgentes e complexos. As tentativas de recrudescimento do autoritarismo e totalitarismo em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil, têm se constituído em solo fértil para o crescimento do antissemitismo. Como ensinou Hannah Arendt, o enfraquecimento da pluralidade humana é ameaça à democracia e à própria humanidade, que não se pode ignorar – e não é ameaça apenas aos grupos visados pelo ódio. Lutar contra o antissetismo com as armas do diálogo, do trabalho de esclarecimento, e do fortalecimento da identidade que não se pode curvar ao ódio é obra permanente, para todos e todas.