“Seguir em frente é essencial” 

Leia o artigo do presidente da Conib,  Claudio Lottenberg, publicado na Revista Veja:

Na última semana, Albert Bourla, CEO da Pfizer, participou da cerimônia das velas da festa de Chanuká, que na tradição judaica é a Festa das Luzes, a Festa da Esperança. Bourla é filho de sobrevivente do Holocausto e agora, com sua companhia, luta para salvar vidas. Poderia ter parado na história e ficado a lamentar as milhões de almas humanas que se foram. Mas preferiu lutar de forma global, a favor de bilhões de vidas. Preferiu olhar adiante.
Já se falou muito dos efeitos nefastos da pandemia de Covid-19. Temos, no entanto, que passar a falar o quanto antes sobre o que fazer daqui para frente, dos ganhos (e houve ganhos, apesar de tudo) e de como recuperar o que se perdeu. Embora, claro, a perda de familiares e pessoas próximas seja irreparável, temos um bocado a resgatar.
Por exemplo: temos que recuperar (e rápido) terreno nas questões da educação. Nesta frente, a perda não significa a simples estagnação, mas sim retrocesso. Ainda mais para um país como o Brasil, que mesmo antes da pandemia já carecia imensamente de pesado investimento para qualificar pessoas e em especial as gerações futuras. Indicadores internacionais, como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), mostram repetidamente o desempenho brasileiro em posições muito baixas. O Brasil não pode ficar sem um plano para a educação – um plano que não só a coloque efetivamente em marcha, mas que prepare crianças, jovens e mesmo adultos para as mecânicas de comunicação digital (que não deixam de ser um processo contínuo de educação).
Aprendemos com a pandemia, sim. Nos deparamos com as questões de pesquisa, do rigor imprescindível no processo do desenvolvimento das vacinas. Conhecemos nossas inconsistências e verificamos a importância de se desenvolver uma indústria nacional independentemente de liberalismo ou intervencionismo. Aprendemos a olhar de forma crítica a classe política – e esperemos que isso repercuta nos próximos períodos eleitorais. Certamente aprendemos não só a ouvir, mas também a entender a diferença entre discurso e atitude. Nosso país precisa de um serviço de vigilância epidemiológica do mais alto padrão e tem que investir seriamente em redes de comunicação e em bancos de dados. A inteligência artificial tem que ser trabalhada com consistência e os cientistas de dados devem passar a fazer parte dos grupos de assessoria dos governantes responsáveis.
Mas será que saímos diminuídos? Se compararmos nossa situação nesta pandemia justamente ao Holocausto, resistimos a quê? Afinal, estivemos dentro de casa, providos do necessário, com acesso à internet. Bem diferente de nossos antepassados, que morriam de fome ou frio (ou ambos). Nossos contatos e reuniões deixaram de ser presenciais e passaram a ser digitais e, é verdade, nossos filhos sofreram muito com essa virtualização das relações. Mas esses mesmos filhos aprenderam por plataformas que mais cedo ou mais tarde a eles chegariam. Não foi uma perda absoluta, então.
Sobrevivemos e estamos sobrevivendo. Também sofremos o impacto econômico que a pandemia causou. Vimos mesmo o desemprego afetar muitas pessoas, empreendedores encerrarem atividades – mas nada que não possa ser reconstruído. Esta não é uma desaceleração econômica comum: mudanças fundamentais no comportamento do consumidor e nas cadeias de suprimentos estão derrubando empresas. Houve mudanças definitivas, isso é certo. Algumas, no entanto, serão temporárias, com impactos mais ou menos duradouros. Mas, afinal, quais coisas se mantêm inalteradas ao longo dos anos? A comunicação de Graham Bell? A matriz energética do petróleo? As ‘tendências’ agora aflorando não são novas: são caminhos que foram acelerados por causa da pandemia, numa via sem volta. Sim, aceleramos.
Na medicina, finalmente, o autocuidado passa a ser central, a telemedicina ficará como algo que nos levará à equidade e a pesquisa será encarada de forma séria e responsável. As pessoas pensarão duas vezes (ao menos) na forma de cuidar de sua saúde, a adesão a tratamentos será levada a sério e a alocação de recursos passará por uma reengenharia de lucidez.
Por fim, uma pergunta que cala, mas que não quer (e não deve) calar: o que será dos políticos? Esta análise, leitor, deixo a você.

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