Sofia Débora Levy fala sobre como preservar a história e a memória do Holocausto

Em entrevista à CONIB, a psicóloga e professora Sofia Débora Levy – Diretora do Memorial às Vitimas do Holocausto do Rio de Janeiro, pesquisadora com formação pelo Yad Vashem e com pós-doutoramento em Memória Social (UNIRIO) – falou sobre o seu trabalho como representante do Congresso Judaico Latino-Americano para a Memória do Holocausto e no Memorial às Vitimas do Holocausto no Rio e sobre o relançamento pela Editora Sextante do livro A Noite, do jornalista, escritor, sobrevivente do Holocausto e ativista pelos direitos humanos Elie Wiesel, agraciado com o Nobel da Paz em 1986 por sua luta para educar e criar uma memória coletiva sobre a Shoá (Holocausto).
Sofia Débora Levy começou falando sobre o recente artigo que publicou em O Globo em parceria com Sabrina Abreu, Diretora de Comunicação e Cultura do StandWithUs Brasil. No artigo – “‘A noite’, uma leitura para o nosso tempo” -, Sofia Debora Levy destacou o relançamento do primeiro livro publicado por Elie Wiesel, em 1958. “Entre os mais de 50 livros que Wiesel escreveu, em “A noite” ele narra a sua experiência como prisioneiro do sistema concentracionário nazista, onde perdeu a mãe, Sarah, o pai, Shlomo, e a irmã caçula, Tzipora. Fora de catálogo no Brasil até setembro deste ano, o livro voltou a ser publicado no país pela Editora Sextante e é uma leitura para o nosso tempo”, diz Sofia Débora Levy. “Numa época em que negacionistas colocam em xeque os registros históricos, e notícias falsas se multiplicam na velocidade da internet, o relato de Wiesel segue como um farol para os que, como ele, acreditam que a educação é parte fundamental contra o extremismo”, acrescentou.
A pesquisadora fez questão de destacar uma entrevista, de 2008, citada no artigo, em que Wiesel afirma: “Se o mundo tivesse aprendido, não haveria Ruanda, nem Bósnia, nem a tragédia do Tibet”. “Wiesel morreu em 2016, mas suas obras ainda nos alertam sobre os perigos da desumanização de comunidades e indivíduos, num mundo onde o antissemitismo recrudesce, e a violência de Estado é realidade em dezenas de países, lembra Sofia. A iniciativa da editora Sextante é importante por manter viva a memória do Holocausto pelo testemunho de uma figura das mais proeminentes em prol da paz, da consideração do ser humano uns pelos outros, tanto individual quanto coletivamente”, pontuou a pesquisadora.
Segundo afirmou, o relato da sobrevivência de Elie Wiesel em “A Noite” é feito numa linguagem bastante acessível, “ainda que com um conteúdo forte e muito contundente”. “O título alude ao abalo que Wiesel teve ao chegar ao primeiro campo, após a deportação, da cidade de Sighet, na Romênia, na época sob domínio húngaro, em 1944, quando ele e o pai, Shlomo, foram levados para Birkenau, após descerem do vagão de um trem de carga e passarem pela primeira seleção. Naquela primeira noite, eles presenciaram barbaridades que marcaram profundamente o jovem adolescente. Ao ver dezenas de pessoas serem queimadas às dezenas à sua frente, Elie pensou que aquele seria o seu fim. Salvos por uma repentina ordem de mudança de direção da fila em que estavam, Elie e seu pai passaram à despersonalização imposta pelos nazistas sobre os prisioneiros. No dia seguinte, ambos são levados para o campo anexo de Auschwitz, onde passam três semanas antes de serem levados para o campo de trabalhos forçados de Buna, no complexo de Monowitz, também anexo a Auschwitz”.
“O livro é importante como trabalho memorialístico, de forte impacto no combate que devemos fazer permanentemente ao negacionismo e ao revisionismo do Holocausto e que requer a contínua necessidade de preservação da memória contra o esquecimento que o passar do tempo fatalmente nos traz”, diz a pesquisadora.
Sobre a banalização do Holocausto:
“Cada evento sócio-histórico tem uma singularidade própria e devemos ter cuidado com o uso indiscriminado da palavra Holocausto, que, pelo seu impacto, muitos aplicam como sinônimo de outros genocídios, sendo que este termo sim se aplica ao extermínio intencional de grupos específicos na sua origem, como nos indica a etimologia da palavra, advinda do termo grego genos (nascimento, gênero, espécie) e do verbo latino caedere (matar). Já o termo Holocausto, grafado com “H” maiúsculo, se refere ao trágico episódio de planejamento de extermínio sistemático proposto como política de governo pelos nazistas, com aplicações de recursos tecnológicos disponíveis na primeira metade do século XX, levando à exclusão social e à morte de milhões de pessoas com requintes de crueldade e hoje, com a compreensão que temos sobre as estratégias de manipulação das massas que foram utilizadas ali, tentamos combater a reincidência das violentas manifestações nazistas de em âmbito formal pelas vias educacionais e jurídicas para que isso jamais se repita”.

Sobre o papel do CJL e do Memorial:
“Tanto o Congresso Judaico Latino-Americano como o Memorial às Vítimas do Holocausto aqui no Rio de Janeiro se empenham em preservar a história e a memória do Holocausto, lembrando com todo respeito as vítimas desse trágico evento, que se abatem sobre 6 milhões de judeus, mas também sobre milhares de ciganos, homossexuais (termo da época), negros, Testemunhas de Jeová, deficientes físicos e mentais rechaçados pela política eugênica nazista. Todos merecem o nosso respeito, a nossa lembrança. Como nos diz Elie Wiesel, devemos honrar os mortos e não deixar acontecer o memoricídio, isto é, o assassinato da história e memória das vítimas e, sim, nos mantermos fiéis aos relatos de tantos testemunhos acerca do Holocausto.
“Esta também é a nossa missão, tanto no Memorial às Vítimas do Holocausto quanto no Congresso Judaico Latino-Americano, integrante do Congresso Judaico Mundial e empenhado também no combate ao antissemitismo em suas diversas formas de manifestação, bem como na promoção de diálogos inter-religiosos e ações em prol das comunidades judaicas em diversos países do mundo”.

Sobre o Discurso de ódio:
“Discurso de ódio é um indício de intolerância, de posturas extremadas e exacerbadas que vêm acontecendo num mundo em que a globalização contribuiu para o fenômeno de comunicação de massa crescente e em que as subcategorias de grupos de pessoas tomaram muita força, com cada um olhando para os direitos próprios ao invés de priorizarem os direitos universais – conforme preconizada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948 – e que deveria reger as nossas relações”, disse a pesquisadora.
“O combate ao discurso de ódio deve ser um trabalho permanente nas escolas, nos lares, nas instituições para conscientizar cada vez mais um maior número de pessoas desde a mais tenra idade do que não devemos fazer uns aos outros, lembrando sempre a máxima judaica ‘não faça com o outro o que você não gostaria que fizessem com você’. Penso que essa máxima é uma linha-mestra para as melhores convivências sociais”, concluiu Sofia Debora.
Nesta quinta-feira (21) Sofia Debora Levy vai falar às 19h sobre o livro A Noite. Para assistir, acesse o link: https://www.youtube.com/watch?v=TqAe1t26zuM

Foto: Arquivo pessoal