“União das minorias”

Há pouco, o mundo assistiu ao brutal assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos.

A imagem do policial comprimindo o pescoço de Floyd, sob o olhar cúmplice de outros policiais, chocou a todos, provocando um luto global. Por toda parte, denunciou-se o racismo estrutural, que não se pode mais aceitar.

Na tradição judaica, o período do luto, para a família, é feito em casa, num primeiro momento denominado Shivá, ou luto fechado, de sete dias, após o que, trata-se de restabelecer aos poucos o contato com o mundo, até que se completem 30 dias de luto.

Pela experiência vivida de sofrimento e genocídio, para expressar a solidariedade da comunidade judaica no Brasil a Floyd e sua família – manifestada aqui na adesão a um manifesto do movimento negro – bem como a todos os que sofrem aqui a mesma realidade do racismo, é preciso trazer à reflexão o tema do antissemitismo, que historiadores indicam como sendo a base para o racismo mais amplo. Porque se trata, em um e outro, da rejeição daqueles considerados “diferentes” e, por isso, “inferiores”, “não humanos?, “cidadãos de segunda categoria”. Como ensinou o filósofo Emmanuel Levinas, é a negação do Outro: rejeita-se, por tomar como base apenas a si mesmo, e assim, ao menosprezar o Outro, menospreza-se a si mesmo.

Procurar anular as diferenças, que se processam de modo plural, múltiplo, pela sociedade e pelo mundo, medir tudo exclusivamente a partir de si mesmo – esse é o modo mesquinho, que inferioriza o ser humano que discrimina, reduzindo-o a ser infinitamente menos do que suas possibilidades permitiram. É a base do antissemitismo e do racismo.

Nos Estados Unidos, lideranças judaicas e afro-americanas lutam juntas contra o racismo desde o início dos anos 1950, e não está sendo diferente no caso Floyd. No Brasil, igualmente, temos uma história de atuação conjunta, como no episódios havidos em São Paulo, de ataques a judeus, negros e nordestinos, no início dos anos 1990. Existem ainda parcerias acadêmicas e institucionais diversas, assim como no campo do diálogo inter-religioso entre o judaísmo e religiões de matriz africana.

É tempo, agora, de fechar o luta marcando um compromisso de construção constante e solidária de igualdade e de respeito mútuo, pois somente com a união das minorias é que podemos combater as desigualdades estruturais.

O texto acima, publicado no jornal Zero Hora, é de autoria de Fernando Lottenberg, presidente da Conib e Sebastian Watenberg, presidente da Federação Israelita do RS.