Às vésperas da COP-30, secretária de Bioeconomia do Pará destaca a contribuição dos judeus na Amazônia - Fundada em 1948, a CONIB – Confederação Israelita do Brasil é o órgão de representação e coordenação política da comunidade judaica brasileira.
Foto: Divulgação CONIB

29.10.25 | Brasil

Às vésperas da COP-30, secretária de Bioeconomia do Pará destaca a contribuição dos judeus na Amazônia

Com o foco em sustentabilidade e inovação, a trigésima Conferência das Partes (COP-30), que acontecerá em novembro, em Belém, traz os holofotes mundiais para o Brasil e para a importância do chamado “pulmão do mundo” – a Amazônia - nas negociações climáticas. Para abordar esse e outros temas, a CONIB entrevistou Camille Bendahan Bemerguy - Secretária Adjunta de Bioeconomia na Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Estado do Pará. Camille falou sobre a sua origem judaica marroquina, a chegada à região amazônica dos primeiros judeus, vindos do Marrocos, e a contribuição dos judeus à biodiversidade da região. Leia a seguir a íntegra da entrevista:

Origem

Sou paraense, nasci em Belém do Pará. Meu pai e minha mãe são de origem marroquina. A família da minha mãe veio de Casablanca, se estabeleceu em Belém e daqui foi para Xapuri, onde meu avô atuou como seringalista. Ele tinha um seringal do qual retirava a borracha. Esse é um lado da família. E o lado do meu pai também atuou no ciclo da borracha, mas ainda em 1890, meu avô, por parte do meu pai, veio para Belém e trabalhou esse tempo todo como regatão. Ele levava os produtos da cidade para as ilhas ao redor, tanto de Belém quanto do Marajó, e voltava com produto das ilhas para vender na capital.

E esse foi um processo que, tanto pelo lado da família da minha mãe como do meu pai, eles foram acolhidos pelos judeus que já estavam aqui, que já trabalhavam, tanto na exploração da borracha, como no comércio, ou com castanha, e que recebiam os judeus que vinham do Marrocos. Nesse período e, por circunstâncias típicas das comunidades judaicas, os judeus se apoiavam recebendo as novas famílias que chegavam dando trabalho e alugando barcos para isso, para que eles pudessem se estabelecer com as famílias. Alguns chegavam já trazendo as famílias e outros vinham primeiro para depois trazer suas famílias ou, como no caso dos meus avós, vinham solteiros e constituíam família aqui, casando com mulheres da comunidade judaica local. Então, em termos de acolhimento sempre houve apoio da comunidade na recepção àqueles que chegavam.

Porque, imagina chegar em 1890, 1900, vindo do Marrocos para uma região como a Amazônia, onde a língua é outra. Apesar de eles falarem espanhol quando chegavam aqui, eles tinham que se adaptar aos costumes locais. Mas esse foi um processo em que a comunidade toda se fortaleceu, se manteve muito unida e foi acolhendo todos os que chegavam com as suas famílias.

Polêmica

A imprensa tem trazido muito essa questão, dos preços da acomodação e de uma possível falta de infraestrutura da cidade. Mas esse assunto já está definido. O próprio embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, deixou muito claro que o encontro vai acontecer em Belém nas datas que estavam marcadas. A previsão é de que os chefes de Estado cheguem uma semana antes.

Alguns eventos pré-COP devem acontecer no Rio, São Paulo, Bahia, mas isso não significa uma desmobilização da conferência que vai acontecer aqui e que será um momento histórico para o Brasil, para a Amazônia, porque esse evento significa trazer os olhares para quem nós somos com realidade. Existe muito imaginário sobre a Amazônia, e isso não acontece só no exterior.

Muitas vezes, no próprio sul, sudeste do Brasil, pouco se conhece da Amazônia. Muitos têm noções distorcidas do que é a Amazônia, como se aqui só tivesse floresta e animais selvagens. E não é isso. 70% da população da Amazônia vive em cidades, ou seja, 70% da população amazônica é urbana, com universidades de ponta, com pesquisas de ponta. Então, ter uma conferência que vem para cá é algo histórico, não só pelo fato simbólico de ser da

Amazônia, mas por ser um momento de mostrar a realidade e a potencialidade do que é a Amazônia e para que nós, enquanto brasileiros e amazonenses possamos efetivamente ser parte da construção do que virá a seguir com o olhar e a contribuição daqueles que aqui estão e que por tanto tempo já trabalham, já entendem das potencialidades, das dificuldades etc.

Difícil imaginar que uma cidade com a população que Belém tem não tenha problemas, assim como São Paulo, Rio Fortaleza, Maceió, ou Cuiabá. Todas as cidades têm problemas e isso não é algo que impede uma COP de ser realizada.

Se fala muito da falta de infraestrutura e da hospedagem, mas os números mostram que as ofertas são maiores do que era o previsto.

É que as pessoas criaram uma ansiedade em torno desses temas, mas isso, na verdade, é um desserviço ao que efetivamente poderia ser visto como um momento de virada de chave importante para a agenda de clima no mundo como um todo e, principalmente, para nós, quando o Brasil pode assumir um papel protagonista e de liderança nessa agenda de uma forma bem consistente e substanciosa.

Legado da COP

Eu diria que a COP já está trazendo contribuições para Belém. A cidade obteve recursos fluindo para a infraestrutura, para a logística e isso fica como um legado. Uma coisa interessante que aconteceu nesse processo é que os recursos que vieram para cá vieram para serem um legado para pós-COP. Então, isso envolve tanto a agenda climática como a agenda urbanística da cidade e, especialmente, em termos de bioeconomia. A gente vai ter um parque de bioeconomia e inovação que já estava previsto antes como uma ação estruturante do Estado no plano de bioeconomia estadual, mas que ganhou força e celeridade pelo fato de sediarmos a COP. Então, a gente tem a possibilidade de, com tantos atores que vão estar aqui, poder conhecer as ações tanto em termos de bioeconomia como em termos de restauração, de uma agricultura sustentável para captar ainda mais recursos para a transformação que a Amazônia precisa em sua agenda de desenvolvimento econômico de baixo carbono.

Então, acho que Belém já tem, a gente já está vivendo essa realidade e uma coisa muito importante que a gente vê acontecer é o orgulho de ser paraense, o orgulho de ser da Amazônia, algo que foi resgatado quando foi decidido que a conferência iria acontecer aqui. Houve investimentos, inclusive dos microempresários nos seus negócios para se estruturarem para receber dentro de um clima muito característico do Norte, o da hospitalidade, que também acontece no Nordeste.

Tudo isso representa uma valorização da nossa culinária, da nossa gastronomia, da nossa cultura. Pela primeira vez serão conhecidos mais a fundo elementos de nossa cultura e da nossa gastronomia, que já ganham mais relevância no mundo do que no Brasil. Acho que, com a COP, isso vai mudar e se fortalecer.

Por tudo isso, acredito que a COP vai estimular o desejo nas pessoas de quererem conhecer a Amazônia como um todo - os rios, a sua gente, a sua hospitalidade, a sua comida. E em termos de Brasil, eu acho que esse é um momento de extrema beleza e importância, porque atrai o olhar para a agenda do clima, em que a gente pode efetivamente ser protagonista, mostrando as ações que estão sendo feitas e podendo contribuir para essa transformação da agenda climática, atraindo investimentos.

Vivemos um momento geopolítico no mundo bastante difícil, com guerras na Europa e no Oriente Médio e com muitos países canalizando recursos para ações de defesa, o que é natural. Mas com isso, a agenda climática acaba ficando em segundo plano. E esse é um momento delicado em que a gente também tem que ter esse olhar para a agenda climática para poder gerar a mudança necessária e captar 1,3 trilhões de dólares, que é o que se estima para podermos promover uma virada nessa questão com a urgência necessária.

Porque essa necessidade de discutir a agenda climática na Amazônia não é mais para o futuro, é para agora. As secas e inundações já sinalizam essa necessidade. E a COP30, traz essa consciência, da necessidade dessa captação de recursos nesse momento, com a celeridade que se faz necessária e de um olhar para uma política de ação no presente.

A contribuição dos judeus

Quando a gente olha todos os ciclos da Amazônia, a gente vê como foi importante essa imigração judaica na região no ciclo da borracha. Os judeus que aqui chegaram foram atores importantes, tanto na extração como no comércio da borracha. Eu brinco que cheguei na bioeconomia - hoje eu sou secretária de bioeconomia no estado do Pará - porque lá atrás meu pai e meus avós estavam trabalhando, já atuando em bioeconomia.

E como dizem que nada acontece por acaso, eu devo estar fazendo algum resgaste também nesse sentido, como uma sequência do trabalho que meus antepassados desenvolveram no comércio de castanha e na área financeira, como parte de uma família judia que foi a primeira a criar uma corretora de câmbio no Pará. Isso fez com que eu começasse a trabalhar com produtos de exportação. Essas e outras iniciativas mostram que a comunidade judaica é muito ativa. Também em Manaus a contribuição judaica foi enorme. Lá tem a Bemol, da família Benchimol, que é sempre muito ativa e atuante, tanto na comunidade como na economia da Amazônia. É uma comunidade que, desde a sua chegada ao País, já trabalhava com elementos bem fortes dessa transformação econômica, do que hoje a gente chama de desenvolvimento sustentável de baixo carbono em alguma medida, seja pelo lado da produção, da comercialização, ou em termos financeiros.

Gastronomia

Esse é um tema que atrai sempre muito interesse, pelo sabor e pelas cores da nossa culinária. Temos até um livro publicado sobre a gastronomia marroquina e amazônica, em que as mulheres da comunidade compartilham suas receitas locais, algumas trazidas do Marrocos, com as especiarias características desse país, e são facilmente aceitas e inseridas na culinária local, já que aqui todos usam sempre muito tempero, muita cor, muito sabor.

Creio que essas semelhanças também ajudaram na integração dos primeiros judeus marroquinos que aqui chegaram. E ter uma memória afetiva de onde você veio é algo muito importante para se sentir acolhido nesse novo lugar, nesse novo espaço.

Eu falo porque ouvi o meu pai comentar sobre isso, sobre o quanto ele se sentiu acolhido ao chegar aqui e ver a comunidade judaica que já estava aqui mantendo os mesmos costumes, a mesma culinária que ele conhecia em seu país de origem. As adaptações de ingredientes também foram bem recebidas a partir de ingredientes locais, como o peixe de escama feito no tucupi.

Então, todo esse processo de adaptação foi facilitado a partir da culinária, uma vez havia semelhanças entre os aromas, os sabores, as especiarias, o colorido, que caracterizam a culinária sefaradim.

E até hoje, desde o ciclo da Borracha, as famílias que vivem aqui ainda fazem os mesmos pratos. A gente tem a Addafina, que é uma receita de Shabat judaica marroquina muito comum, as saladas marroquinas, os frangos temperados, seja com berinjela, com grão-de-bico. São tradições muito fortes que aos poucos foram adaptadas com a culinária local. Aqui é muito comum a gente fazer um vatapá com pirarucu, que é o bacalhau da Amazônia, ao invés de incluir o tradicional camarão.

Preconceito e discriminação

Por ser mulher, a gente às vezes enfrenta alguns desafios, porque tem lugares que são muito masculinos. Na minha área de atuação, que é a bioeconomia, eu não tive esse problema, até porque, como eu costumo dizer, a bioeconomia é feminina. Na minha equipe, a maioria é mulher, mas eu já trabalhei com finanças também, em bancos, onde os homens são maioria. Mas atualmente, acho que o mundo também está em um novo momento, em que a participação feminina no mercado de trabalho está num ritmo crescente.

Mas acredito que, na área de clima e que une tanto o econômico como o social, a presença feminina é mais forte e mais transformadora. E aí, se me permitem dizer, eu acho que as mulheres conseguem conciliar mais o econômico com o social de uma forma mais potente, sem pender mais para um lado, ou outro.

Quanto ao preconceito por ser judia, eu sei que isso existe em muitos lugares. Eu, pessoalmente, talvez tenha sido agraciada, porque nos meios em que trabalhei tinham muitos judeus. Então, isso não se mostrou um impeditivo ou algo que tenha me trazido algum incômodo.

E a bioeconomia, por ser uma agenda aqui da Amazônia, boa parte dela é sefaradita. O enviado da COP30 para a bioeconomia é de origem sefaradi, em Manaus tem a família Benchimol, tem o Denis Minev, que é o enviado para o setor privado.

Então, costumamos dizer que a bioeconomia na Amazônia tem uma raiz sefaradi profunda e que está ajudando a contribuir e a construir esse momento de discussão dessa nova agenda econômica.

Mensagem

Vejo que esse é um momento muito importante para todos nós. A agenda de clima assumiu uma liderança e um protagonismo para o qual não tem volta. Então, acho que essa nova geração tem que estar bem envolvida com essa questão e seus desdobramentos. Ninguém sabe exatamente como isso vai evoluir. Mas vejo que esse é um momento de todos estarmos unidos em torno desse tema. Por isso que às vezes eu não entendo essa disputa, sobre se a COP deveria ou não ser em Belém.

A questão principal é saber como vamos construir uma nova agenda que concilie os desafios ambientais e climáticos com os desafios econômicos e que gere prosperidade e contribua para diminuir as desigualdades sociais. Esses são os desafios para as novas gerações e os jovens de hoje têm que estar cada vez mais envolvidos nessas discussões. Com a chegada da COP foram abertos vários serviços voluntários para que jovens possam participar e se envolver mais com a questão ambiental. Eles precisam estar envolvidos com esse novo momento, com esse olhar para a floresta, para a conservação, para a prosperidade e, sobretudo, para a inovação, que é um elemento extremamente importante nesse contexto. E quando falamos em economia, em reduzir desigualdades e, em inovação, não tem como não olhar para o passado e tirar exemplos das grandes contribuições que os judeus deram em todas as áreas. Temos que aproveitar esse legado e investir na educação, que é um tema prioritário sempre, em todas as famílias, para que a gente use esse momento para ajudar a construir essa nova agenda, não só para a Amazônia, mas para o Brasil e para o mundo como um todo.

Camille Bendahan Bemerguy - Secretaria Adjunta de bioeconomia na Secretaria estadual de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Estado do Pará; Possui graduação em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1983), mestrado em Planejamento do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Pará(1998) e mestrado-profissionalizante em Administração pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais(2001). Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Economia do Bem-Estar Social.


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