29.10.25 | Brasil
“USP se dobra à intolerância”
Editorial de O Estado de S.Paulo desta quarta (29) critica a decisão da Universidade de São Paulo de suspender a cooperação com uma universidade de Israel, afirmando que “os ‘humanistas’ da USP rompem com o pluralismo em favor da performance ideológica”. “E boicotam o saber com pose de heroísmo”. “Num tempo em que o antissemitismo se espalha como gás venenoso sob a capa de causas nobres, a universidade que se cala – ou, pior, que aplaude – repete o erro sinistro dos que julgam estar do lado certo da História enquanto ajudam a apagá-la. Se a missão da USP nesse caso era educar, fracassou”. Leia a seguir a íntegra do texto:
Em nome da “ética institucional”, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP rompeu relações com a Universidade de Haifa, de Israel. O gesto escancara uma subversão de propósitos: taras ideológicas ditam os termos da política acadêmica, em detrimento da produção e transmissão do conhecimento.
A FFLCH se autoinfligiu um dano duplo – simbólico e material. Simbólico, por negar legitimidade a uma universidade com destacado protagonismo científico, cultural e humanista. Material, porque depaupera canais de cooperação intelectual, justamente em áreas – como os estudos judaicos ou a língua hebraica – que a própria faculdade deveria cultivar.
A justificativa oficial? As “práticas sádicas” de Israel em Gaza. A verdadeira razão? O triunfo de um espírito cada vez mais dominante nos câmpus: o da intolerância disfarçada de virtude, o da hostilidade seletiva a Israel mascarada de compaixão pelos palestinos.
Se o critério foi a defesa dos direitos humanos, por que só Israel foi punido? A mesma USP que cancela Haifa mantém convênios com universidades da Rússia, que assassina opositores, iniciou a guerra mais perigosa para a paz mundial desde a invasão da Polônia pela Alemanha nazista, bombardeia civis e sequestra crianças ucranianas. Também mantém acordos com universidades da Venezuela e de Cuba, governados por infames ditaduras. Além disso, há acordo de cooperação com uma universidade do Irã, o maior patrocinador dos terroristas do Hamas, responsáveis não só pelo maior massacre de judeus desde o Holocausto, mas por décadas de opressão sangrenta dos próprios palestinos.
A Universidade de Haifa é, por sinal, tudo o que seus detratores fingem ser. É plural, multicultural, uma das mais integradas entre árabes e judeus em Israel. Seu câmpus abriga pesquisas avançadas em linguística, neurociência, história e direito humanitário. Romper com Haifa não é um ato de “resistência”, mas de violência ao conhecimento.
Mas coerência nunca foi o forte da militância progressista que domina departamentos inteiros de humanidades. A Unicamp rompeu um acordo de cooperação com o Instituto de Tecnologia de Israel. A Universidade de Brasília cancelou o curso de um professor israelense porque alunos pró-Hamas vasculharam suas redes e encontraram postagens favoráveis às Forças de Defesa de Israel – de 2017. Palestrantes judeus são alvos de difamações, cancelamentos e ameaças. Nos EUA e na Europa, universidades registram uma escalada de antissemitismo disfarçado de antissionismo. E por aqui, como de hábito, a vanguarda “decolonial” corre para copiar os modismos das elites intelectuais das metrópoles.
O problema não está só nas manifestações – está na covardia institucional. Ao invés de defender o princípio basilar da universidade – o pluralismo de ideias –, as administrações dobram-se à gritaria. A da FFLCH não pode sequer alegar ignorância. Alunos do curso de Hebraico alertaram para o prejuízo. Foram ignorados. Estudos judaicos, história do Oriente Médio, literatura israelense, tudo isso sai perdendo. Mas o que são línguas e bibliotecas para quem só quer gritar “genocídio” no megafone do centro acadêmico?
A universidade pública brasileira – bancada com o dinheiro do contribuinte – vive um momento difícil. Em alguns casos, em vez de formar cidadãos livres, fabrica militantes biônicos, em vez de promover a dúvida, cultiva certezas dogmáticas e em vez de oferecer abrigo à diversidade intelectual, reprime tudo o que desafia o credo dominante.
Ao romper com Haifa, a FFLCH não fez um gesto de coragem. Fez um gesto de rendição. Rendeu-se ao anti-intelectualismo, ao sectarismo, ao linchamento performático. Em nome da “ética”, sacrifica a integridade. Em nome da “paz”, sufoca o diálogo. Em nome dos “direitos humanos”, glamouriza seus mais brutais violadores.
Num tempo em que o antissemitismo se espalha como gás venenoso sob a capa de causas nobres, a universidade que se cala – ou, pior, que aplaude – repete o erro sinistro dos que julgam estar do lado certo da História enquanto ajudam a apagá-la. Se a missão da USP nesse caso era educar, fracassou.