“O movimento PinForPeace deu voz ao que sentimos após o 7 de outubro”, diz a empresária Natalie Klein - Fundada em 1948, a CONIB – Confederação Israelita do Brasil é o órgão de representação e coordenação política da comunidade judaica brasileira.
Foto: Divulgação CONIB

25.11.25 | Brasil

“O movimento PinForPeace deu voz ao que sentimos após o 7 de outubro”, diz a empresária Natalie Klein

Em entrevista ao Histórias Reais da CONIB, a empresária de moda e ativista Natalie Klein fala sobre sua origem, sua trajetória na vida comunitária e sobre o movimento que criou, o PinForPeace, uma iniciativa pela paz, contra o terrorismo e o antissemitismo. “Assim como a moda é uma forma de linguagem, uma expressão, o pin representou e deu voz ao que estávamos sentindo após ao ataques sofridos por Israel em 7 de outubro de 2023”. Falou também sobre a importância da atividade comunitária: “Eu faço parte disso e me estimulo muito para deixar um mundo melhor do que encontrei. E para viver plenamente a nossa religião e nossa tradição essa parte filantrópica tem que estar alimentada, senão a gente não vive plenamente o judaísmo”, diz ela. Leia a seguir a íntegra da entrevista:

Origem

Tenho avós europeus, sobreviventes de campos de concentração, tanto por parte de pai quanto de mãe, vindos da Bielorussia e da Romênia. Então, sou uma mistura de várias culturas, de diferentes origens, e casei com um sefaradi para dar um pouco mais de tempero para meus filhos. Essas são as minha raízes, das quais tenho muito orgulho e muita honra de carregar comigo.

Ações comunitárias

Acho que nós, judeus, já viemos, de alguma maneira, com um chip de ajuda ao próximo. Acho que isso já vem embutido em todas as nossas ações, tanto no trabalho como em ações filantrópicas. Então, eu vejo que na comunidade judaica nós nos enxergamos como um todo, como se todos fossem um. A comunidade judaica não mede esforços para contribuir para o mundo. E eu faço parte disso e me estimulo muito para deixar um mundo melhor do que encontrei e pelos meus filhos, para que eles tenham essa noção de corresponsabilidade de que também têm que passar adiante e deixar um mundo melhor do que encontraram. E para viver plenamente a nossa religião e nossa tradição essa parte filantrópica tem que estar alimentada, senão a gente não vive plenamente o judaísmo.

A linguagem da moda

Eu sempre acreditei que moda é uma expressão, uma forma de linguagem, e não apenas a roupa que vestimos. Se pesquisarmos as roupas usadas nos anos 1920, 30 e 40, somos capazes de identificar socialmente o que acontecia naquela época. E a moda de hoje também é uma fotografia dos tempos em que vivemos. Então o que usamos hoje está muito relacionado com o mundo em que vivemos. Então, como a moda é uma forma de expressão, ela é também uma linguagem e tem um papel muito ativo em causas que se queira comunicar sem ser verbalmente.

Então, em causas sociais, ativismo, ou qualquer forma de se comunicar que não seja verbal, a moda tem um papel fundamental. E nesse ambiente, nesse cruzamento de dados, de informações que eu tinha, é onde eu coloco minha voz para falar sobre o ativismo judaico que eu tanto carrego.

Movimento PinForPeace

Esse movimento nasceu um mês e meio após os atentados de 7 de outubro de 2023, quando o mundo voltou os olhos para Israel e os judeus se voltaram para as suas comunidades. Esse movimento nasceu porque eu faço muitas palestras, dou muitas aulas, atuo ativamente em workshops de moda. E toda vez que eu ia dar alguma palestra após os atentados, eu tinha que falar por que eu estava lá, trabalhando, cumprindo o meu papel, mas meu coração estava em Israel.

Dizia que meus parentes, meus familiares, meus amigos estavam em Israel passando por um momento muito delicado. Em todo lugar que ia eu fazia essa ressalva: de que eu estava fazendo o meu trabalho, assim como os soldados de Israel estavam fazendo o trabalho deles, mas que meu coração estava lá, com eles. E, com isso, muitas vezes as pessoas vinham falar comigo para perguntar como podiam ajudar. Então pensei sobre como fazer algum tipo de ação muito simples para que as pessoas pudessem se manifestar. E aí nasceu esse movimento, simbolizado por um pin (um broche), que logo se tornou uma voz, uma expressão de um sentimento, assim como a moda. E isso foi ótimo, porque teve uma adesão enorme e, assim, criamos um canal de comunicação, despertando nas pessoas a vontade de se manifestar, em apoio ao movimento e aos valores judaicos. É um movimento que gera conhecimento e educação sobre o que é o antissemitismo e as formas de combatê-lo. Assim, quando damos palestras em escolas, orientamos os educadores, e quando fazemos capacitação em empresas recorremos a grupos especializados. Então o PinforPreace virou um movimento articulador, com um alcance digital muito grande, porque as pessoas postavam fotos em suas redes sociais usando o pin, que também podia ser usado de forma digital. E isso gerou milhares de fotos publicadas nas redes por pessoas que aderiram a nossa causa.

Momentos marcantes

Quando começamos com o movimento do pin não sabíamos até onde ele iria chegar. Eu lembro que cheguei a fazer mil cento e vinte e sete ligações, convidando amigos para fazerem a foto usando o pin. Foram dois dias em estúdio e estávamos preparados para fotografar uma 30 pessoas por dia, mas tivemos mais de mil pessoas lá querendo se manifestar, fazendo fila para tirar foto. E a maioria era de pessoas de fora da comunidade e incluía desde personalidades de destaque e celebridades a pessoas comuns. Isso me emocionou muito. Tivemos muitas manifestações de carinho e também algumas de ódio. Mas abrimos um canal para receber apoio e carinho, tanto no Brasil como de fora do País. Distribuímos o pin em mais de sete países e isso nos trouxe, além do conhecimento, uma sensação de unificação, com muitas pessoas querendo saber mais sobre Israel, antissemitismo e sobre o que é ser judeu no Brasil e suas dificuldades. Isso, porque até então, muitas pessoas não tinham olhado para essa questão. Além de estarmos abertos para receber esse carinho, percebemos que, com esse movimento, conseguimos encurtar a distância entre as pessoas e o conhecimento do que é o antissemitismo contemporâneo. Porque quando uma pessoa se dispõe a ouvir você já abre um canal de informação importante. E aproveitamos esse canal para mostrar que o caminho da paz só é aberto quando ele é plantado, semeado. E acredito que fizemos o plantio dessa semente e espero que nossos filhos e netos colham no futuro.

Antissemitismo

Penso que todos nós ficamos mais sensíveis após o 7 de outubro. Coisas que antes passavam batido para nós, passaram a nos incomodar. É como se tivéssemos um machucado na pele, onde tudo que cai ali dói. Quando antes eu ouvia coisas do tipo ‘não vamos negociar com a Natalie, porque ela é judia e difícil para negociar’ eu via isso como elogio. Mas, depois do 7 de outubro, ficamos mais sensíveis e frases como essa passaram a cair de forma diferente. E, nas minhas redes sociais, já tive muitos ataques de antissemitismo graves. E quando acontecem casos como esses eu costumo encaminhar para os setores de comunicação responsáveis e bloqueio essas pessoas. Mas isso de alguma maneira nos fortalece, nos torna cada vez mais unidos e cada vez mais preparados para responder à altura e de uma forma que fique claro que nós, judeus, não estamos dispostos a ficar nesse lugar de humilhação e aceitar coisas que, infelizmente, nossos antepassados já aceitaram.

A maioria do povo brasileiro tem uma consciência cristã, ou evangélica, e acho que isso nos ajuda nessa luta contra o antissemitismo, porque temos que começar de novo explicando por que estamos aqui, mas nossos atos falam por nós. E a contribuição dos judeus para o Brasil e para o mundo é grande em diferentes áreas. Talvez demore para que o antissemitismo comece a cair, mas, infelizmente, nossos filhos e netos ainda vão conviver com isso.

Mensagem aos jovens

Acho que todo jovem judeu deve se engajar na vida comunitária. Isso traz sentido, traz propósito, traz realização. Todo jovem é um ativista em potencial e, para desenvolver essa habilidade, basta despertar para esse momento. Aliás, todo mundo pode ser ativista, ter essa voz e dar sua contribuição e o serviço comunitário faz parte da nossa vida plena judaica. Penso que se você não adere ao tikun olam (justiça social) você não vive um judaísmo pleno. E entre nossas inúmeras tarefas, sem dúvida alguma, uma fatia muito importante é o nosso dever comunitário. E essa para mim tem sido a mais saborosa das fatias.


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