28.11.25 | Brasil
“A noite em que a universidade perdeu a palavra”
Em artigo no Estadão desta sexta-feira (28), a advogada e professora de Direito Internacional da USP Maristela Basso comenta o episódio em que alunos extremistas impediram o cientista político e presidente executivo da StandWithUs, Andre Lajst, de falar em evento sobre o Oriente Médio e o recente acordo de paz entre Israel e o grupo terrorista Hamas. “Quando protestos se transformam em ataque à pessoa, o campo das ideias desaparece”, diz ela. Leia a seguir a íntegra do texto:
Neste mês, a Faculdade de Direito da USP viveu um episódio que deveria inquietar profundamente todos aqueles que acreditam na universidade como um espaço de pensamento, pluralidade e coragem intelectual. Num evento do ciclo “Conversas sobre o mundo”, dedicado a discutir as perspectivas do Oriente Médio após o recente acordo de paz entre Israel e o grupo terrorista Hamas, a palavra foi literalmente interditada. O que deveria ter sido um debate transformou-se na noite em que a universidade perdeu a palavra.
O encontro buscava oferecer uma análise geopolítica com o cientista político André Lajst. Nos eventos anteriores do mesmo ciclo, especialistas com foco na Palestina haviam sido convidados, justamente para assegurar diversidade de perspectivas. Apesar disso, parte dos presentes decidiu que nenhuma análise deveria sequer começar — não por discordarem, mas porque o palestrante não deveria ser ouvido.
O que se viu não foram perguntas críticas, contrapontos sólidos ou manifestação madura. O que se viu foi a recusa antecipada do diálogo. Palavras de ordem abafaram a palavra acadêmica; gritos substituíram a escuta; o ato de pensar foi vencido pelo impulso de impedir. A direção da faculdade, presente ao evento, precisou lembrar o mínimo: discordar não obriga a permanecer, mas jamais autoriza impedir o outro de falar.
Quando protestos se transformam em ataque à pessoa, o campo das ideias desaparece. A hostilidade, ali, não se limitou ao salão. Estendeu-se a mim, como organizadora, por meio de ofensas misóginas e até pichação diante da minha casa. Quando a discordância ultrapassa o debate e se converte em agressão pessoal, já não estamos diante de política — mas de brutalidade.
O episódio não contribui para a causa palestina, nem para a israelense, nem para qualquer projeto sério de justiça. Apenas empobrece o ambiente universitário, restringe a formação crítica e dilui a tradição humanista do Largo de São Francisco, que sempre se orgulhou de acolher divergências. A recusa prévia do diálogo revela insegurança e isolamento intelectual e um empobrecimento preocupante do espírito crítico.
Falhou-se com o público que queria ouvir, com o convidado impedido de expor suas ideias e com a própria trajetória da Faculdade de Direito. A USP precisa reagir — não punindo por punir, mas reafirmando princípios éticos que não admitem negociação: liberdade de cátedra, pluralidade e responsabilidade formativa.
A noite em que a universidade perdeu a palavra não pode se repetir. Uma instituição que se curva ao grito perde sua missão. Uma universidade que sustenta a palavra, mesmo sob pressão, reafirma seu papel democrático e humanista.
Que este episódio sirva de alerta: não há verdadeira defesa de direitos humanos sem a disposição de ouvir o outro. E não haverá futuro para a universidade se ela permitir que a emoção substitua o pensamento e que a agressão silencie a palavra.