12.01.26 | Mundo
“Quando as vítimas não servem às narrativas”
O jurista, professor e escritor William Douglas critica em artigo publicado em sua página no Instagram a omissão da grande mídia e de governos diante da repressão no Irã. “A grande mídia, tão vocal em outros contextos, evita o tema ou o trata de forma lateral. Artistas, influenciadores e formadores de opinião — sempre prontos a se pronunciar quando o alvo é previsível — simplesmente desaparecem. Não há indignação performática. Não há pressão simbólica. Não há clamor global”. Leia a seguir a íntegra do texto:
Enquanto mulheres são mortas nas ruas do Irã, crianças são agredidas, casas são incendiadas e inúmeros civis executados em meio a protestos, o silêncio internacional é ensurdecedor.
Não há capas; Não há mobilização artística; Não há passeatas; Não há pedidos de boicote; Não há shows “pela liberdade”.
Não há manifestações de feministas, universidades, nem partidos.
A grande mídia, tão vocal em outros contextos, evita o tema ou o trata de forma lateral. Artistas, influenciadores e formadores de opinião — sempre prontos a se pronunciar quando o alvo é previsível — simplesmente desaparecem. Não há indignação performática. Não há pressão simbólica. Não há clamor global.
Governos que costumam emitir notas duras permanecem cautelosos. O Ministério das Relações Exteriores não convoca embaixadores, não lidera condenações claras, não articula pressão diplomática relevante. O regime iraniano segue reprimindo, matando e aterrorizando sua própria população praticamente sem custo reputacional.
Esse silêncio não é neutro.
Ele é seletivo.
Quando violações graves de direitos humanos não geram reação proporcional, não estamos diante de prudência diplomática, mas de escolha política. Quando mortes não viram manchetes e protestos não merecem solidariedade internacional, algo está profundamente errado.
O contraste é evidente: em outros cenários, denúncias são amplificadas mesmo quando baseadas em versões frágeis ou disputadas. Aqui, diante de um regime teocrático repressivo, violento e misógino, prevalece a omissão.
Ao final, o que isso revela é uma seletividade indecorosa — e os indícios são veementes de que essa seletividade não é apenas ideológica, mas também atravessada por antissemitismo, explícito ou disfarçado.