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Arnaldo Cohen: “A música e a capacidade de fantasiar são o combustível que me move, não saberia viver sem isso”

Em entrevista à Conib, Arnaldo Cohen falou sobre a sua origem, a importância que a educação judaica teve na sua formação e na carreira de pianista e a música como forma de libertação. Contou episódios emocionantes de sua carreira, as dificuldades que seu pai enfrentou no Brasil, recém-chegado como imigrante, e o preconceito que sofreu durante um jantar na Itália.

 A origem 

Meu pai nasceu na Palestina, no que é hoje o Estado de Israel, e os pais dele, meu avós, emigraram para a Palestina saindo da Pérsia (Irã). Pelo que sei, meu avós eram primos e a história deles é curiosa: eram dois irmãos, um foi para a Palestina e o outro ficou na Pérsia. Este último morreu e tinha uma filha e o que foi para Israel tinha um filho. Após a morte do pai, essa filha foi para a Palestina morar com o tio e, depois, acabou se casando com o primo. Essa é a história dos meus avós. E meu pai nasceu na Palestina, em Sfat, uma cidade tradicional, religiosa hoje em dia e que reunia intelectuais na época. Meu pai veio para o Brasil aos 11 anos, falando hebraico e árabe e talvez também o farsi (idioma persa). Chegando ao Brasil, ele estudou num colégio hebraico na Tijuca, que foi onde eu também estudei. Minha mãe nasceu na Ucrânia, mas chegou ao Brasil aos dois, ou três anos, de idade. Foi registrada como brasileira, porque naquele tempo não havia controle, e perdeu o pai muito cedo, aos sete anos de idade, e falava iídiche com a mãe dela. Enfim, sou produto de uma mistura incomum de ashkenazi com sefaradi.

Tudo isso me influenciou, sobretudo vivendo no Brasil, um país livre, progressista em muitos aspectos, e eu pude ver de uma maneira mais positiva as minhas origens. Eu morei em Madureira e estudei em colégio judaico. Meus pais não tinham muitas posses. Meu pai foi um homem que trabalhou muito na vida: começou do zero, trabalhou em uma loja de móveis e casou-se com minha mãe enquanto fazia faculdade de odontologia à noite, em Niterói. Foram morar em Madureira e depois dos primeiros anos de casados, meu pai conseguiu um empréstimo do dono dessa loja em que ele trabalhava e acabou abrindo uma loja de móveis própria. Eles moravam no que meu pai chamava de uma ‘meia água’, que era sob um telhado de zinco que ficava nos fundos dessa loja. Depois de formado em odontologia, meu pai passou a atender na parte de cima desse sobrado onde funcionava a loja de móveis. Em resumo, ele trabalhava como dentista, das 18h às 22h, depois que encerrava o expediente como comerciante na loja. Aos poucos ele foi progredindo e comprou uma casa, onde morei até os sete ou oito anos e depois passamos a morar na Tijuca, onde estudei num colégio hebraico-brasileiro por quatro anos.

É difícil em pouco tempo descrever uma vida permeada pela influência judaica e, quando que eu digo judaica, não falo apenas de religião e fé, ou mesmo da política do Estado de Israel, com suas diversas correntes, mas o meu judaísmo é calcado sobre as pilastras da cultura de um modo geral, na sua essência, ou seja, meu pai não tinha dinheiro para comprar brinquedos caros, mas dizia que não iria faltar dinheiro para a minha educação.

A opção pela música 

O fato de eu ter estudado música tem muito a ver com a educação e cultura judaicas. Um paciente de meu pai no consultório o convenceu de que seria bom para seus filhos estudarem música. Foi então que ele decidiu que eu, como homem, iria aprender a tocar violino e a Míriam, minha irmã, piano, que era considerado um instrumento para mulher. Eu comecei estuando violino, mas diante de meu interesse pelo piano a professora argumentou: por que eu não poderia estudar os dois? Foi assim que eu passei a estudar violino e piano e meu pai via isso com muito orgulho. E mesmo na escola, quando eu tirava um dez minha mãe dizia: Merece um beijo! E isso me fazia pensar sobre como seria em Israel, com tantas mães judias e onde todos os filhos para ganhar um beijo têm que tirar dez na escola.

O humor judaico 

Penso que o humor judaico, em que você não se leva a sério, talvez tenha me influenciado muito. E isso torna a vida um pouco mais leve e pode aparar algumas arestas, que vem da ansiedade, sofrimento, do que passamos na vida. Eu sou muito grato a esse ensinamento do humor judaico, de se olhar e não se levar muito a sério. Tem uma frase, com humor, que sempre me guiou desde garoto e que virou lema para mim que é: ‘o cemitério é o lugar para onde vão todos os indispensáveis’. Essa consciência da finitude é algo que nos ajuda a avaliar melhor a forma como levamos a vida. E a música, para mim e sob o prisma judaico, é uma linguagem, onde há um código em que as pessoas não têm acesso, ou seja, quando dizemos alguma coisa através da música ninguém tem acesso à origem desse sentimento, da mesma forma que a pessoa que ouve a música entende o que ela quiser, certamente influenciada pela sua história emocional. Então a música para mim é uma linguagem em que podemos dizer o que quisermos e as pessoas entendem também o que quiserem. E todos saem felizes assim. E qual a relação disso com o judaísmo? Meu pai dizia que o que aprendemos ninguém pode nos tirar e o que sabemos através da música pode até salvar a nossa vida, como aconteceu com judeus que tocavam algum instrumento no período do nazismo na Alemanha.

A música e a fantasia 

A música e a fantasia nos dão uma liberdade que ninguém pode nos tirar. Se alguém me perguntasse sobre o que poderia me acontecer para que a vida não tivesse mais sentido para mim. Eu diria que independentemente de qualquer limitação física seria perder o direito de pensar, ou de fantasiar, imaginar. A fantasia é o combustível que me move, é a esperança, o amanhã, o hoje. E isso tem a ver com a possibilidade de fazermos o que gostamos. Temos como exemplo a nossa história, em que os judeus foram perseguidos de uma forma ou de outra, até mesmo pelas suas atividades profissionais. Sou muito grato à vida por ter nascido num contexto em que posso usufruir dessa liberdade e lutar para que não passemos de novo pelo que já passamos.

Preconceito 

Sim, já passei por momentos em que me senti discriminado. Tem um episódio que aconteceu comigo na Itália. Depois de eu ter me apresentado num concerto com orquestra em Bari, no sul da Itália, fui convidado para um jantar na casa de um amigo que tocava na orquestra e, em dado momento, um senhor que estava sentado a meu lado – o sogro desse amigo – me disse: ‘Meu filho, se algum dia alguém disser a você que existe um judeu bom não acredite, porque não há nenhum’. Fiquei muito constrangido, disse que não estava me sentindo bem, me levantei, fui ao banheiro e lá fiquei trancado por algum tempo. Aprendi que o tempo é um grande solucionador de problemas. E depois de meia hora alguém bateu na porta e me perguntou se eu estava bem. E eu respondi: Aqui dentro está melhor. Houve um silêncio e em seguida meu amigo me disse: ‘Arnaldo pode sair que meu sogro já foi embora’. Foi então que saí, fui à sala, respirei fundo e disse: ‘Agora sim!’ Me ofereceram a sobremesa, um vinho e não se falou sobre o assunto. Foi um episódio dramático e houve um silêncio carregado de muita tensão e o tempo se encarregou de organizar uma saída para aquela situação. Mas isso para mim foi apenas um exemplo, porque seria muita ingenuidade eu achar que foi um caso único. Penso que há judeus bons e ruins, assim como em outras religiões. Sou contra teorias sobre judeus ganharem mais prêmios Nobel. Sim, isso é verdade, mas existe uma razão cultural para isso, porque os pais valorizam a educação pelo conhecimento, até mesmo pelas dificuldades que o povo judeu já sofreu, ou seja a única saída de sobrevivência para muitos foi através do esforço para se sentir necessário. Sempre digo a meu filho o que aprendi com meu pai, que o que prometemos valem mais do que aquilo que assinamos. A nossa história, o passado que carregamos, é o nosso atestado de bons antecedentes.

A carreira 

Arthur Rubinstein dizia que se você quiser seguir uma carreira necessita de três coisas: sorte, sorte e sorte. E evidentemente precisa ser competente. Eu tive muita sorte, porque a minha carreira começou muito tarde. Quando eu comecei a estudar piano seriamente para me tornar um profissional, meus colegas já tocavam profissionalmente. Meus ídolos eram Arthur Moreira Lima, Nelson Freire, Antônio (Guedes) Barbosa e Jacques Klein como professor. Quatro anos depois de formado em engenharia, o violino foi meu grande companheiro, porque me ajudou a sobreviver quando saí de casa. Fiz concurso e toquei na orquestra do Teatro Municipal como violinista durante quatro anos e pouco. Aliás, eu era péssimo violista. Meu grande prazer em tocar numa orquestra era que eu tocava baixinho e todo mundo tocava mais forte e eu me enganava acreditando que aquele som era meu.

Depois de quatro anos e pouco e ao contrário do que meu mestre Jacques Klein achava que eu devia fazer, comprei uma passagem a prestação pela Alitália e fui para a Itália fazer um concurso. Klein me explicou que eu ainda não estava preparado e que não passaria da primeira prova. Eu peguei o avião, levei um gravador, estudava dez horas por dia e, junto com outros 86 candidatos, passei para a segunda prova. Aquilo para mim já foi uma grande vitória. Dos 86, passaram 27. Mas para ganhar aquele concurso eu precisava passar para a semi-final, onde seriam escolhidos 12. E eu passei. E pensei: ‘Agora não há nada a perder’. Dos 12, três iriam para a prova final e eu achava que chegar onde cheguei já era uma grande vitória e não esperava passar para a prova final, mas passei e nem acreditei. Esse foi um dos momentos mais importantes e emocionantes da minha vida, quando ouvi a frase “Primo premio Brasile; Arnaldo Cohen”. Minha vida começou aí.

O que me emociona no judaísmo

Eu me emociono no momento em que negativamente eu sinto uma força interior imensa para lutar contra qualquer discriminação. Eu lembro quando meu pai faleceu e eu tive que fazer a reza para ele, o Kadish, e eu não conseguia. Perdi minha mãe no ano passado (2020) e não pude estar presente no enterro dela. E me emociono quando vejo que o sol pode brilhar para todos, judeus e não judeus; me emociono vendo o que foi feito em Israel, que representa a história do povo judeu; me emociono com a história de luta e superação de meu pai, como imigrante; me emociono com a resiliência do povo judeu e credito à religião como ‘ponte’ para se ligar a essa cultura, porque temos o Yom Kipur, o toque do shofar. Tudo isso é muito simbólico e esse simbolismo tona-se muito mais forte do que qualquer outra coisa, porque é acompanhado de inteligência, de conquistas e não apenas de uma sensação puramente emocional e momentânea. É uma realização daquilo que somos e do que podemos ser e da nossa capacidade de lutar. Acho que a luta não pode parar.